

Quando algo dá errado, a gente passa dias tentando entender o motivo. Procura amigos pra desabafar, revive a mesma frustração milhões de vezes e se pergunta o que deveria ter feito diferente. Pode ter sido um erro no trabalho, uma conversa que não saiu como o esperado ou um plano que foi por água abaixo sem que você pudesse evitar.
Não é pouco o tempo (e a culpa) que dedicamos a tudo o que não funcionou. Mas por que nem sempre fazemos o mesmo quando o resultado é positivo? Nesse impulso de se cobrar mais e mais vitórias, às vezes até uma conquista importante é tratada como obrigação cumprida: deu certo, ótimo, agora é hora de pensar no próximo desafio. Sem perceber, a gente segue em frente e esquece de reconhecer todo o esforço exigido pra chegar ali.
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Do grão em grão
Nem só um diploma ou a compra de um apartamento merecem aplausos. Quem disse que completar uma maratona é mais importante do que cumprir seus primeiros objetivos em busca de uma rotina saudável? Acordar todo dia um pouco mais cedo pra caminhar, introduzir frutas e legumes nas refeições ao longo da semana ou ir à academia pra um treino rápido depois de um dia cansativo são, sim, feitos dignos de celebração.
Além de uma boa dose de consistência e persistência, todo grande passo envolve pequenas vitórias pelo caminho. Segundo o teórico e psicólogo norte-americano Karl Weick, mesmo os maiores desafios sociais do mundo, como a fome ou a criminalidade, ficam mais fáceis de resolver quando desmembrados em partes menores. Esse conceito, publicado em 1984 na American Psychologist e referenciado até hoje, sugere que cada conquista diminui o peso do problema e dá a sensação de que somos capazes de solucioná-lo.
A mesma lógica vale para os objetivos pessoais: quando o processo é dividido em etapas, fica mais fácil perceber que estamos evoluindo. Comemorar os avanços serve de incentivo pra novos desafios, reduz o medo de falhar e aumenta as chances de sucesso no futuro.
Não é irrelevante
Das menores às maiores conquistas, a gente tem uma capacidade impressionante de esvaziar a importância de nossas realizações. Dizemos que “qualquer um poderia ter feito isso” ou que “não foi nada demais”. De acordo com o psiquiatra Aaron Beck, criador da Terapia Cognitivo-Comportamental, é como se o cérebro tivesse um filtro que desqualifica os resultados positivos e dá mais relevância ao que não saiu como o esperado.
A dificuldade em enxergar o próprio sucesso às vezes é tão grande que uma dupla de psicólogas norte-americanas cunhou um termo pra nomear a sensação constante de fraude: síndrome do impostor. Pauline Rose Clance e Suzanne Imes, autoras do conceito, notaram esse padrão sobretudo em mulheres, que tendem a atrelar conquistas à sorte ou ao acaso, em vez de entendê-las como fruto da própria competência. Em uma série de entrevistas com profissionais em cargos de liderança, as pesquisadoras descobriram que muitas delas acreditavam estar enganando as pessoas ao redor e que, na verdade, não mereciam a posição, o salário ou o reconhecimento que tinham alcançado.
A autocrítica é importante, mas raramente segue a régua que usamos para os outros: somos muito cruéis com nós mesmos, mas generosos com o sucesso alheio. A comparação constante também atrapalha esse olhar. Como explica a psicóloga clínica Chu Hui Cha ao The Guardian, quando a pessoa não consegue se orgulhar do que conquista, entra num ciclo em que nada nunca parece bom o suficiente e está sempre buscando ir além. Pra ela, isso pode virar um gatilho pra insatisfação crônica.
Conquistar > celebrar > continuar
Reconhecer as vitórias não quer dizer se contentar com o que você já tem, e muito menos se tornar arrogante. A psicóloga Kristin Neff, precursora no tema da autocompaixão, mostra em seus estudos que olhar para as nossas realizações com gentileza, em vez de só procurar defeito, contribui pra motivação e pra autoconfiança a longo prazo. Também torna mais fácil aprender com o que não deu certo, sem transformar cada erro em motivo de culpa.
Depois de concluir um projeto trabalhoso, por exemplo, vale parar um instante pra reconhecer o esforço e tudo o que você aprendeu ao longo do caminho. Comemorar não significa sair atrás de elogio, e sim dar ao cérebro a chance de enxergar, com clareza, que você dá conta. Compartilhar uma boa notícia com quem você gosta, perceber o quanto cresceu ou simplesmente admitir que algo que custou muito esforço deu certo já pode fazer diferença.
Pra saber mais:
∙ Este vídeo da Jout Jout usa a resposta de uma criança como ponto de partida pra uma reflexão sobre a necessidade de sermos bons em tudo.
∙ Este episódio do podcast “Refletir pra viver”, da CBN, fala da importância de olhar pra vida com ternura e celebrar as pequenas conquistas.
∙ Esta reportagem da Time e este artigo do Portal Drauzio Varella explicam os sintomas, tratamentos e caminhos pra lidar com a síndrome do impostor.
∙ Esta reportagem do The Guardian faz uma provocação: você se sente orgulhoso quando conquista algo ou apenas aliviado?

A independência financeira feminina vai muito além de conseguir pagar os boletos. Ser uma mulher que sabe cuidar de sua grana significa estar menos vulnerável e ter mais liberdade e poder de decisão sobre a própria vida. E é justamente por isso que essa conversa ainda assusta tanto. No episódio mais recente do Desenrola, nosso podcast, Nana Lima, diretora executiva da Think Olga e da Think Eva, e Gabriella Magalhães, comunicadora e psicóloga, falam sobre a importância de construir autonomia financeira e ensinam por onde começar. Ouça ou assista agora!
texto: Manuela Stelzer | edição: Fernanda Nascimento
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