Cada amigo ocupa um espaço diferente na nossa vida. Alguns são ótimos companheiros de rolê, outros são aqueles com quem você encontra pra desabafar. Mas há relações que não têm hora nem lugar. É aquela pessoa em quem você confia de verdade e sabe que vai estar por perto sempre que precisar. Que é sua fã número um e celebra as suas vitórias como se fossem dela. Que não pensa duas vezes antes de defender você de uma injustiça ou de um comentário preconceituoso. Que conhece sua família, suas piores fases, entende suas dores, enxuga as lágrimas e é pra quem você liga na alegria ou na tristeza. 

Não é preciso (nem saudável) esperar que uma única amizade dê conta de tudo. Só que cultivar vínculos íntimos demanda tempo e energia, itens cada vez mais escassos. Com tanta urgência, problema e boleto, fica fácil cair num eterno “vamos marcar”. Mas são justamente essas conexões, capazes de resistir a crises, mudanças e rotinas malucas, o antídoto pra dureza da vida e o alívio para os momentos difíceis.

Artigo de luxo

Ter relações profundas é, sem dúvida, um grande privilégio. Em um levantamento do PoderData feito em 2023, 14% dos brasileiros disseram não ter amigos e outros 14% afirmaram ter só um amigo próximo. No estudo realizado dois anos antes, apenas 9% reclamavam da falta de vínculos. Entre os jovens, o cenário caminha na mesma direção. Uma pesquisa da Arco Educação com alunos do ensino fundamental e médio apontou que metade dos estudantes tem alguma ou muita dificuldade pra fazer novos amigos, e um terço sente que as pessoas raramente ou nunca demonstram interesse pelo que eles têm a dizer.

O professor de estudos de comunicação Jeffrey Hall, da Universidade de Kansas, nos EUA, resolveu calcular o tempo necessário pra cultivar uma amizade. No relatório publicado no Journal of Social and Personal Relationships, ele apontou que se leva cerca de 50 horas de convivência pra transformar um conhecido em amigo casual. Já pra entrar no patamar de amigo próximo, são mais de 200 horas. Ou seja, sem dar um jeito de ficar junto, a conexão simplesmente não acontece. 

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Cartilha da amizade

Amigo de verdade fala bem pelas costas, defende em público, acolhe e protege quando o outro erra, mas também não deixa de mandar a real (de preferência, sem plateia). Ao mínimo sinal de injustiça ou desrespeito, bons amigos se posicionam. E não vale esperar a situação passar pra dizer que estava do seu lado ou mandar uma mensagem no privado concordando com você. 

Às vezes a gente toma a dor do outro pra si? Sim. Mas o importante mesmo é escutar e fazer a pessoa se sentir menos sozinha, sempre respeitando seus limites e sem minimizar o sofrimento alheio. Afinal, pensar igual não é pré-requisito numa relação. Entre amigos está liberado discordar, errar, acertar, mudar — de carreira, de objetivos, de cidade, de personalidade…

E quando algo não está legal, o ditado “quem avisa amigo é” faz todo o sentido. Seja pra alertar sobre um relacionamento tóxico, seja pra questionar o excesso de trabalho que está minando sua energia, uma amizade também é feita de conversas difíceis. Mas na hora de celebrar uma vitória, aí é sem moderação. A felicidade de quem a gente gosta não tem que despertar inveja, e sim alegria e orgulho.

Vamos marcar, hein?

Tem época em que falta tempo, falta ânimo, falta dinheiro. Mas quem disse que precisa de tudo isso pra encontrar uma pessoa querida? No livro The Art and Science of Connection, a cientista social Kasley Killam defende que uma das estratégias mais eficientes pra manter a vida social em dia é colocar as amizades no “piloto automático”, com encontros regulares marcados na agenda. Se uma reunião merece um espaço quase inegociável no seu calendário, por que os amigos não compartilham do mesmo benefício? Um almoço no primeiro domingo do mês, a viagem semestral da turma, uma caminhada no parque toda semana… Não importa o programa, desde que ele aconteça. Pra quem tem uma vida pouco maleável, fica mais fácil deixar espaço pra cultivar essas relações.

“Quanto mais você tem uma rotina de interação com alguém, menos precisa se esforçar pra mantê-la”, afirmou Jeffrey Hall, professor de estudos de comunicação na Universidade de Kansas, nos EUA, ao The New York Times. Sem uma agenda ou um pouco de esforço, os planos acabam perdendo a urgência depois de meia dúzia de “essa semana eu não posso” e o encontro fica pro dia de São Nunca. Esperar o convite do outro chegar também nem sempre é o melhor plano. Uma amizade exige uma boa dose de reciprocidade pra ser saudável, mas será que o amigo que não chama você pra sair há um mês não se importa tanto com essa relação ou simplesmente foi atropelado por milhões de coisas?

Você não está sozinha

A gente costuma falar em “amor de cinema”, mas como é a “amizade de cinema”? As atrizes Ingrid Guimarães e Mônica Martelli, que fazem sucesso nas redes sociais compartilhando suas aventuras juntas, transformaram essa conexão em filme. Em Minha melhor amiga, que estreou em setembro e já levou 5 milhões de pessoas ao cinema, elas homenageiam uma amizade que dura 30 anos. Mas, longe das câmeras, outras mulheres vivem a sorte de ter uma melhor amiga pra chamar de sua. Esse espaço compartilhado não é como qualquer outro. É ali que muita coisa que parece um problema individual ganha um tamanho diferente. Depois que as mulheres percebem que compartilham as mesmas dificuldades, julgamentos e culpas, fica mais fácil encará-las. Ao lado de quem entende, dá pra respirar, sentir raiva, rir do absurdo e desenhar caminhos possíveis.

No nosso ritmo

Tem dias em que o papo no WhatsApp se estende por horas sobre qualquer bobagem, e outras semanas são tão corridas que mal dá tempo de falar um alô. Mas todo pedido de socorro é atendido no mesmo instante e, se precisar, o amigo de verdade está lá pra tudo, do velório da avó ao fim de um romance. Já que a presença física nem sempre é possível, o essencial é fazer com que a outra pessoa saiba que você lembra dela nos momentos importantes (e nos banais também). Vale uma mensagem antes de uma entrevista de emprego, uma foto antiga, uma pergunta sobre como foi aquela consulta ou só um meme pra aliviar o dia — afinal, nem só de B.O. vive uma amizade. 

O bom das conexões que realmente valem a pena é que a gente não precisa fingir que está tudo bem. Isso significa que você não tem que estar com a energia lá em cima ou cantando junto com os passarinhos pra tirar o encontro do papel. Uma visita rápida, um café na padaria antes de seguir pro próximo compromisso, um passeio com o pet ou uma companhia no mercado podem ser suficientes pra colocar o papo em dia. Se a relação dispensa cerimônias, dá pra se encontrar pra chorar, pra rir, pra se distrair ou até pra ficar em silêncio. Existe lugar mais confortável que esse?

Pra saber mais:

· Nosso post sobre a arte de transformar uma amizade mais distante em um vínculo próximo.
· Esta matéria do The Atlantic com dicas de como fazer as boas relações durarem a vida inteira.
. O episódio “Seus amigos são prioridade pra você?”, do Desenrola, que mostra como as amizades podem tornar a vida adulta mais feliz.
· A série Grace and Frankie, disponível na Netflix, nos lembra de que nunca é tarde pra fazer amigos de verdade.

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Seja no grupo de amigos, seja na internet, o que mais se ouve são relatos de pessoas desacreditadas da própria vida afetiva. As queixas são variadas: falta de confiança nos relacionamentos, cansaço de paquerar, insegurança constante... No novo episódio do Desenrola, a psicanalista e pesquisadora de relações Carol Tilkian e a atriz e roteirista Carol Loback refletem se estamos, de fato, duvidando mais do amor. Ouça ou assista agora!


texto: Fernanda Nascimento


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