

Eles levaram os avós pra votar, organizaram manifestações nas ruas e carreatas digitais, mobilizaram fã-clubes, produziram conteúdos virais em ambos os campos políticos, pressionaram artistas, criaram adesivos de campanha que viraram itens colecionáveis e receberam um agradecimento especial de Lula no discurso da vitória.
Taxados como desinteressados pela política, os jovens mostraram que podem até se engajar de forma diferente das gerações anteriores, mas ainda querem participar das decisões que afetam o seu futuro.
Onda global
Ao colocar em xeque direitos e conquistas que atravessam a vida dos estudantes, como bolsas de estudo e o financiamento do ensino superior público, a disputa eleitoral deste ano fez com que muita gente que não participava da política deixasse de acompanhar o embate de longe.
Logo após a divulgação do resultado do primeiro turno da eleição, alunos da Universidade Federal Fluminense, em Niterói (RJ), se reuniram pra hastear uma bandeira em apoio ao presidente. O ato, que terminou espontaneamente em uma manifestação pelas ruas, deu início a uma avalanche de protestos liderados por universitários de todo o Brasil, apontada como um dos motores da virada progressista.
A mobilização por aqui não foi um fenômeno isolado. Pelo mundo, a Geração Z tem ocupado as ruas pela educação e pelo futuro. No Chile, estudantes marcharam contra cortes no ensino público. Na Índia, o Partido das Baratas usa memes e máscaras pra lutar contra o desemprego e os vazamentos de provas de admissão em faculdades. Na Europa, jovens em vários países protestaram por escolas melhores e mais oportunidades. Na Sérvia, aliás, a articulação chegou às urnas e derrotou o partido que estava no governo há 14 anos.
Domínio digital
Crescer conectado faz parte da experiência de ser jovem hoje. A maioria das crianças e dos adolescentes brasileiros acessa as redes sociais várias vezes ao dia, e 30% afirma passar mais tempo conectado do que gostaria, segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil, de 2024. Se antes essa característica era usada pra ridicularizar uma geração acusada de “militar” só atrás das telas, desta vez a familiaridade com o ambiente digital ajudou a mudar os rumos da eleição.
As redes não serviram apenas pra organizar o levante que tomou conta das ruas. Também foram um território de disputa em si, com estratégias pensadas pra fazer os conteúdos circularem e até mesmo burlar o algoritmo. Não à toa, a criação de canais no WhatsApp, uma tática bastante explorada pela esquerda, começou a ser replicada em outros lugares do mundo.
Novos campos
Se tem alguém que entende de engajamento são os fã-clubes de artistas como Taylor Swift e o grupo BTS. Em 2020, eles esvaziaram um comício de Donald Trump nos EUA com um mutirão pra reservar ingressos — e ninguém apareceu. No Brasil, centenas de grupos se uniram no “Fandoms com Lula”, um movimento que aproximou da política quem não era impactado pelos candidatos.
Já na plataforma de games Roblox, o barulho foi tanto que chegou até quem nem sabia do que se tratava o jogo. Carreatas virtuais mobilizaram apoiadores de ambas as campanhas, com direito a buzinaços, cartazes, “showmícios” protagonizados por avatares de artistas que já morreram, como Kurt Cobain e Renato Russo, e até acusações de “sequestros” de personagens durante as manifestações.
Um fator curioso é que grande parte dos usuários por trás dessa agitação são pré-adolescentes que sequer têm idade pra votar. Ainda assim, eles acompanharam tudo de perto e encontraram suas próprias maneiras de participar, inclusive fora das telas. Uma prova disso é um vídeo viral em que um grupo aparece brincando de “fazer protesto”.
Menos muros, mais pontes
A reação dos jovens também aconteceu dentro de casa. Se nas eleições dos últimos anos a máxima “política não se discute” virou regra em muitas famílias, numa tentativa de evitar brigas provocadas pela polarização, dessa vez muitos deles tomaram a iniciativa de abrir espaço pro diálogo. Apresentaram ideias, compartilharam informações e levaram o que vinham debatendo com os amigos e nas redes para os pais, avós, tios, primos... Afinal, quando uma conversa parte de alguém com quem já existe um vínculo, pode ser mais fácil escutar, rever certezas e até mudar de ideia.
A volta da esperança?
Diretas Já, caras-pintadas, jornadas de junho… A juventude já esteve à frente de diferentes momentos históricos da política brasileira, mas há tempos não demonstrava tanta força nas ruas. Em um vídeo que circulou nas redes, o escritor e comunicador pernambucano Lucas Barros fez uma análise interessante sobre o que pode ter acontecido nesse intervalo.
No início dos anos 2010, músicas, filmes e outros produtos culturais ainda celebravam a rebeldia e a capacidade dos jovens de se unir pra mudar o mundo. Com o passar dos anos, esse imaginário foi dando lugar a uma cultura mais voltada pro bem-estar individual, pra busca por tranquilidade e pra criação de pequenos refúgios diante de um mundo cada vez mais caótico. É o universo do autocuidado, do cozy life e das playlists lo-fi.
Lucas relaciona essa mudança à ideia de “impotência reflexiva”, do filósofo Mark Fisher: a sensação de reconhecer que as coisas estão ruins, mas não acreditar que seja possível fazer algo pra transformá-las. “Talvez uma geração que cresceu sendo informada o tempo inteiro sobre todas as crises do mundo tenha aprendido não a imaginar como resolvê-las, mas sim como se proteger delas”, afirma.
É por isso que, mais do que um aumento do interesse pela política, a retomada das ruas pode representar a recuperação da esperança de que é possível fazer a diferença. Um equilíbrio entre cultivar espaços de tranquilidade e não abrir mão de lutar, coletivamente, por um futuro melhor.
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Pra saber mais:
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∙ Esta pesquisa da Associated Press, que mostra como o voto dos jovens ajudou a impulsionar a guinada dos democratas nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos.
∙ O documentário Espero Tua (Re)Volta (2019), de Eliza Capai, que acompanha a evolução dos movimentos estudantis no Brasil a partir das manifestações de 2013.
∙ Este vídeo da BBC News Brasil em que dez jovens contam como decidem seu voto.
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