Ir ao cinema não necessariamente significa encarar um shopping lotado, desviar de mil e uma vitrines ou pagar uma fortuna por uma pipoca com raspas de limão. Em algumas cidades brasileiras, ainda é possível chegar a pé, entrar direto na sessão de um filme que nem sempre passa nas grandes redes e, na saída, esticar a conversa numa mesa de café ali perto.

Ainda que 88% das mais de 3,5 mil salas de exibição pelo país fiquem dentro de centros comerciais, os cinemas de rua resistem e cumprem um papel importante na vida urbana: movimentam os bairros, ampliam a oferta cultural, criam oportunidades de encontro e garantem uma alternativa de lazer aos shoppings.

Com uma oferta de cinemas muito maior que a de qualquer outra capital, São Paulo segue aumentando sua vantagem. Nas últimas semanas, ganhou o Cine Tutu, na Vila Madalena, com poltronas florais, projeto de Isay Weinfeld e um café-bar assinado pelo Barouche. Em 2027, está prevista a inauguração do Nu Cine Copan, mais de quatro décadas depois do encerramento das atividades da sala que funcionava no maior edifício residencial paulistano, e o Cine Rosário, que passou 70 anos fechado, promete voltar a funcionar em 2028 no Edifício Martinelli.

Pra que essa experiência chegue a mais regiões das cidades, especialmente aquelas distantes do centro, e a outros cantos do país, ainda é preciso incentivo e investimento. Apesar disso, os cinemas de rua se mantêm de pé porque tem muita gente que faz deles parte de sua rotina. 

A curadoria é um dos grandes atrativos das salas — e um prato cheio pra quem gosta de descobrir filmes fora do circuito comercial. Esses cinemas não dispensam os blockbusters, mas dão espaço no catálogo a títulos independentes, mostras especiais, clássicos e produções nacionais que não chegam às grandes redes. Além das exibições, também costumam promover debates e outras atividades culturais que estendem o programa depois dos créditos. 

Muitos prédios ainda preservam a arquitetura de décadas atrás, entre 1920 e 1960, quando os cinemas de rua viviam seu auge. É o caso da Cinemateca Capitólio, em Porto Alegre, e do Cine Odeon, no Rio de Janeiro, que voltou a ter sessões regulares na Cinelândia no fim de outubro. Em áreas centrais, essas salas também fazem diferença fora da tela: ao atrair pessoas para as ruas, especialmente à noite, ajudam a dar vida ao bairro e a movimentar o comércio local, como bares, cafés, livrarias e lojas, mesmo depois do expediente. 

A seguir, nossa seleção de cinemas de rua pelas capitais.

São Paulo

A capital paulista abriga um dos menores cinemas de rua do país, o Cine LT3, com apenas 40 lugares, e também um dos mais antigos, o PlayArte Marabá. Inaugurado em 1945, passou por uma grande reforma nos anos 2000 e hoje luta contra uma ordem de despejo. Dos mesmos donos do novíssimo Cine Tutu, o Cinesala, em Pinheiros, serve vinhos, drinks e comidinhas em um café-bar. Também vale conhecer a Cinemateca Brasileira, que reúne o maior acervo audiovisual da América do Sul, além do CineSesc, do Reserva Cultural, do Cine Marquise e do Cine Belas Artes, todos na região da Avenida Paulista.

Rio de Janeiro

Depois de seis anos com sessões esporádicas, o centenário Cine Odeon retomou a programação regular na Cinelândia, de segunda a segunda. Em Santa Teresa, o Cine Santa se prepara pra abrir uma nova sala e receber mais espectadores. Na Zona Sul, o Estação Claro Rio tem três unidades, uma na Gávea e duas em Botafogo, onde já sediou um concurso de sósias da Tânia Maria, atriz de O Agente Secreto. Do outro lado da ponte, o Reserva Cultural Niterói ocupa um edifício em formato de bobina de filme de 35 mm, projetado por Oscar Niemeyer.

Curitiba

No centro da capital paranaense, o Cine Passeio ocupa um edifício histórico e funciona como um complexo cultural, com duas salas principais, terraço pra projeções, cafeteria e coworking.

Manaus

Dentro do Centro Cultural Casarão de Ideias, o Cine Casarão foi inaugurado em 2017 e divide o espaço com um café, uma livraria e uma galeria, além de manter uma programação de atividades culturais voltada à produção amazônica e ao circuito independente.

Fortaleza

A poucos metros da Praia de Iracema, o complexo Dragão do Mar ocupa vários edifícios conectados por plataformas elevadas, com espaço pra shows, biblioteca, planetário e dois museus. É um verdadeiro epicentro da vida cultural da cidade e abriga também o Cinema do Dragão, voltado à produção brasileira independente.

Belo Horizonte

Com entrada gratuita, 122 lugares e uma fachada simpática, o Cine Santa Tereza é uma das opções de cinema de rua da capital mineira. Há também o Cine Belas Artes, em funcionamento desde 1992, no bairro de Lourdes, e o Cine Humberto Mauro, no Palácio das Artes, batizado em homenagem ao diretor e roteirista mineiro. O espaço promove encontros com cineastas, mostras temáticas e atividades educativas.

Salvador

Em frente à Praça Castro Alves, no Centro Histórico, o Cine Glauber Rocha é um símbolo cultural da cidade. Em funcionamento desde 1919, deu uma pausa nas atividades entre 1998 e 2008 e hoje conta com quatro salas, terraço, restaurante, livraria e cafeteria.

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Goiânia

Na Praça Cívica, o Cine Cultura exibe filmes fora do circuito comercial e vende ingressos à moda antiga: apenas na bilheteria, meia hora antes da sessão. Já o Cine Ritz, na Rua 8, mantém a fachada original dos anos 1990 e exibe produções mais mainstream.

Recife

Cenário de O Agente Secreto, a capital pernambucana abriga o Cinema São Luiz, no centro, que exibe produções brasileiras e internacionais e conta com sessões gratuitas, debates e filmes inéditos. No mesmo edifício fica também o Centro de Referência do Audiovisual Pernambucano (Cena), com um amplo acervo da produção cultural do estado.

Porto Alegre

No Centro Histórico, a Cinemateca Capitólio ocupa o prédio do antigo Cine-Theatro Capitólio, da década de 1920. Além da sala de cinema, o espaço abriga biblioteca, áreas de pesquisa, sala multimídia, galeria de exposições e um acervo de mais de 60 mil itens. Há também cafeteria e loja.

Brasília

Inaugurado em 1960, o Cine Brasília integra o projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer e foi entregue um dia após a conclusão do Plano Piloto. Sede do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, hoje reúne clássicos, lançamentos e produções independentes na programação.

Pra saber mais:

∙ Essa reportagem do Valor Econômico que explica por que os cinemas de rua são tão importantes para as cidades.
∙ Esse artigo do Jornal da USP sobre o esvaziamento dos cinemas de rua em São Paulo nos últimos anos e a mudança de rota que vem, felizmente, acontecendo agora.
∙ Esse post do The Summer Hunter funciona quase como um desabafo sobre os espectadores que não sabem mais se comportar no escurinho da sala.
∙ Um pouco da história por trás dos cinemas de rua antigos da capital paulista nessa matéria da Veja.

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texto: Manuela Stelzer | edição: Fernanda Nascimento


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