Poucas experiências são tão reveladoras quanto se lançar em uma viagem sem companhia. Não tem alguém ao lado pra incomodar, nem pra ouvir suas reclamações. Você decide que horas acordar, onde ir, o que comer e qual caminho tomar, mas também é o único responsável se alguma escolha não for tão acertada. 

Se jogar na estrada sozinho também significa caminhar com o fone no máximo, fazer amizades que duram poucas horas e viver dias inteiros sem ter que atender um desejo alheio. E é justamente assim que a gente se dá conta do que faz só porque quer. “Quando estamos sozinhos em lugares onde ninguém nos conhece, perdemos a vergonha de fazer o que queremos e a obrigação de agradar aos outros, então somos mais espontâneos”, explicou a psicóloga Thirza Reis ao Diário de Pernambuco. “Expomos nossas fragilidades e também descobrimos que somos capazes de fazer muito sem a ajuda de ninguém. Isso é empoderador.”

E pode ser viciante. Segundo um levantamento feito pela Hostelworld no ano passado, 2 em cada 3 pessoas que saem pelo mundo sozinhas pela primeira vez querem repetir a dose — e 64% apontam liberdade e espontaneidade como a melhor parte da aventura.

Maria vai sem as outras

O cinema adora contar histórias de quem parte desacompanhado pelo mundo em busca de paz interior ou grandes epifanias. Mas, na vida real, cada um procura uma coisa diferente nessa viagem — e muitas vezes encontra outra. Não dá pra descartar essa experiência de cara só porque você detesta silêncio, sente vergonha de pedir mesa pra um no restaurante ou tem horror a puxar assunto com desconhecido. Pode até parecer assustador na primeira vez, mas você logo se acostuma com tudo o que um rolê solo traz de inesperado, inclusive a vontade de já marcar o próximo.

Uma pesquisadora da Massey University, na Nova Zelândia, vasculhou fóruns de viagem onde mulheres relatam suas experiências sozinhas pelo mundo. O objetivo era entender se a motivação por trás dessa escolha muda conforme a idade. O resultado, publicado em 2024 na revista científica Current Issues in Tourism, confirmou que sim: entre as mais jovens, o principal motivo foi a busca por independência. Já entre as mulheres mais velhas, essa vontade é também impulsionada por grandes mudanças, como um divórcio ou a perda de um parceiro de longa data.

Novas amizades (ou não)

Uma companhia faz falta quando uma virose deixa você de cama? Sim. Mas também dá vontade de estar sozinho quando o parceiro de viagem perde o passaporte ou atrasa quatro horas pra começar o dia. Se fazer amizades e conexões por onde passa é natural pra você, provavelmente não vai ser diferente nessa experiência. Mas viajar desacompanhado não implica, necessariamente, conhecer gente nova. 

O fato é que ficamos mais atentos às pessoas e a tudo o que acontece ao nosso redor quando estamos só, o que pode dar um gás na sua bateria social. E aí, quando você vê, um papo despretensioso com qualquer estranho rende uma noitada incrível, um almoço no balcão da lanchonete ou só algumas palavras trocadas na fila do museu — afinal, amizade boa de viagem nem sempre é a que dura. Pra saber a disponibilidade de alguém pra interagir, repare no celular: quem não está com a cara enfiada na tela tem mais chance de querer conversar.

Coma como se ninguém estivesse olhando

O medo de ser julgado ao sentar sozinho em um restaurante é tão grande que virou até objeto de pesquisa. A socióloga norte-americana Bella DePaulo nem publicou o estudo diante do resultado: ninguém está reparando em você. Ou seja, sair desacompanhado é bem menos constrangedor do que na sua imaginação.

Mas se a ideia ainda parecer intimidante, dá pra começar devagarzinho, em um café com mesas compartilhadas, um bar com balcão… Mercados gastronômicos, food trucks, feiras e padarias também são alternativas mais informais. Ler um livro ou escolher uma mesa na calçada pra se entreter com o vaivém podem ajudar você a ficar mais à vontade nesses ambientes.

Lugares pra não se sentir só

Parques e praias: dá pra deitar na canga em paz por horas sem ninguém incomodar.
Aulas livres: culinária, cerâmica, dança… ali todo mundo vai sem medo. 
Cafés: um trabalha, o outro lê, um casal conversa e ninguém se sente sozinho. 
Museus: o tempo é seu, o ritmo também, mas ainda rola se meter numa visita guiada.
Feirinhas: circula, pergunta, experimenta, escuta história… e nem precisa comprar nada.
Eventos culturais ao ar livre: gente legal reunida sem questionar por quê.

Sem medo de experimentar

Na prática, você pode ir pra qualquer canto sozinho, mas o destino muda a experiência. Grandes capitais, por exemplo, sempre têm muito o que fazer e tanta gente circulando que ninguém repara quem chegou com quem. Já os países com uma cena mochileira forte, como Peru, México, Austrália e algumas regiões da Europa, costumam atrair viajantes desacompanhados — os hostels, morada oficial desta turma, têm dormitórios compartilhados, quartos privativos e espaços pra socializar. Se não quiser passar os dias entre casais apaixonados, vale evitar roteiros mais românticos, como um tour de vinhos na Toscana ou um fim de semana frio em um chalé em Monte Verde.

Em uma viagem solo, a segurança é uma preocupação importante, especialmente para as mulheres. Tem trilha que é melhor encarar em grupo, lugares em que andar sem ninguém por perto pode ser perigoso e países com culturas muito diferentes da nossa. Mas alguns cuidados básicos são importantes, como se informar sobre as particularidades de cada destino e avisar alguém do seu roteiro (nem que seja o porteiro do hotel). Afinal, pra se sentir livre, é preciso se sentir minimamente seguro.

O que não dá é pra deixar o medo paralisar. “Você está correndo mais risco andando em São Paulo do que viajando por aí”, disse Tito Rosemberg, fotógrafo e surfista com 60 anos de experiência em aventuras solo, ao Desenrola. “Bom senso e atenção ao que está acontecendo à sua volta é o que garante o sucesso da viagem.”

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É só começar

Qual foi a última vez que você saiu um dia totalmente só, sem roteiro ou compromisso com ninguém, pra se deixar levar pelas suas vontades? Se o sonho do mochilão pela Europa ainda está distante, dá pra começar a explorar a solitude no bairro ao lado ou na cidade vizinha. O importante é abraçar o novo, o imprevisto, e descobrir o que você faz com isso. Tá precisando de um empurrãozinho? No nosso post sobre o assunto, alguns seguidores compartilharam o que aprenderam viajando sozinhos: 

“Eu amo viajar sozinha. A sensação de liberdade em escolher o roteiro, o que comer, quanto tempo passar, mudar os planos, voltar atrás… É uma delícia! Volto pra casa com saudade, mas também com a sensação de que me conheço muito mais.”

“Por muito tempo não viajei por esperar alguém para ir comigo. Depois que eu fiz a primeira viagem solo, eu tenho receio de viajar acompanhado.”

“Viajar sozinha me fez crescer tanto. Eu olho para trás e vejo quanta coisa incrível eu vivi simplesmente por estar só! Se eu estivesse acompanhada provavelmente não estaria aberta ao desconhecido e ao novo.”

“É maravilhoso, eu amo fazer tudo no meu tempo, do meu jeito. A única parte chata é não ter ninguém pra ajudar nas fotos, mas isso também se resolve.”

“Fiz minha primeira viagem solo e simplesmente virou uma chave de que eu me sinto muito bem apenas com minha companhia. Já estou programando a próxima.”

Pra saber mais:

∙ No Desenrola, nosso podcast, viajantes experientes compartilharam histórias, aprendizados e dicas pra ajudar você a embarcar pra onde quiser, sem depender de ninguém.
∙ Em Sem Reservas, o chef Anthony Bourdain viajou o mundo pra provar que a melhor forma de conhecer um lugar é através da comida e das pessoas.
∙ No livro Mas você vai sozinha?, Gaía Passarelli fala com sinceridade e bom humor sobre suas aventuras solo pra inspirar outras mulheres a sair pelo mundo sem companhia, sem medo e sem preconceito.
∙ O poder transformador das viagens é o assunto do Tedx da comunicadora Amanda Noventa, que já conheceu mais de 40 países, muitos deles sozinha.

Banner do podcast Desenrola, do The Summer Hunter, oferecido pela Adobe.


Cada casal encontra seu próprio jeito de compartilhar a rotina — e isso pode envolver dormir em quartos separados, morar em outro endereço ou manter amigos e hobbies independentes. No novo episódio do Desenrola, Lela Brandão, comunicadora, escritora e empresária, e a viajante Duda Cardoso, cocriadora do perfil GetOutside, conversam sobre como preservar a individualidade sem deixar de construir uma vida a dois. Ouça ou assista agora!


texto: Fernanda Nascimento


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