

Não é de hoje que sabemos que mexer o corpo faz um bem danado. São inúmeros os estudos que já comprovaram como praticar atividades físicas beneficia tanto a nossa saúde física quanto o bem-estar mental. No entanto, existe um movimento — superimportante — que pode acabar sendo deixado de lado na hora de praticar musculação, corrida e outros exercícios mais comuns no dia a dia: o rebolado.
Além de ser uma forma de dançar e se divertir, mover o quadril é uma ferramenta de autocuidado que vem ganhando força nos últimos tempos. Uma prova disso é que, só no TikTok, a #hipmobility tem mais de 550 milhões de visualizações. Aqui, a gente explica por que vale investir no seu jogo de cintura.
Prazer, pelve
A pelve é um conjunto de ossos localizado na região do quadril que funciona como uma caixa protetora de órgãos internos do sistema reprodutor, da bexiga e do intestino, além de exercer um papel fundamental pra que a gente possa caminhar. O problema é que nosso estilo de vida cada vez mais sedentário e o grande número de horas que passamos sentados em frente às telas faz com que o nosso corpo se atrofie. Consequentemente, perdemos mobilidade, especialmente na região do quadril.

Origem ancestral
O ato de rebolar está fortemente atrelado à populações não brancas, sendo comum principalmente nas culturas produzidas por pessoas negras de dentro e de fora do continente africano, como explica a educadora menstrual, palestrante e escritora Maria Chantal, criadora do Descolonize Seus Quadris. Principalmente por esse motivo, o rebolado foi criminalizado, marginalizado e, por muitas vezes, relacionado à vulgaridade e à selvageria.
Pra Chantal, é essencial entender que a colonização, o racismo e o machismo são estruturas que se aplicam também sobre os nossos corpos, aprisionando e endurecendo vários movimentos. Não à toa, grande parte das pessoas enfrenta uma dificuldade inicial em mexer o quadril.

Mais saúde
São vários os benefícios associados ao ato de movimentar o quadril. Uma revisão de vários estudos publicada no ano passado pelo departamento de fisioterapia e reabilitação da Universidade de Maryland, nos EUA, demonstrou que a força dos abdutores do quadril é essencial pro equilíbrio e a função de mobilidade. Fortalecer a pelve também proporciona um alívio em desconfortos na lombar e um melhor funcionamento dos órgãos da região, como o intestino e a bexiga.
Segundo Gabriela Aad, professora de “rebolaterapia”, mover o quadril é extremamente benéfico no período menstrual, já que pode aliviar cólicas e estimular o fluxo sanguíneo. Por reforçar a musculatura do assoalho pélvico e do períneo, a prática também pode ser ótima pra mulheres gestantes. No entanto, se a sua intenção for essa, vale buscar uma orientação profissional, já que o fortalecimento só acontece quando os músculos da região são contraídos e relaxados da forma correta. Em seu perfil no Instagram, a fisioterapeuta Laura Della Negra fala mais sobre o assunto.
Pura alegria
Não há como negar a sensação de bem-estar que rebolar — até o chão ou não — causa no corpo. Assim como toda atividade física, mexer o quadril libera endorfina, serotonina e outros hormônios relacionados ao prazer, que são ótimos aliados na redução dos níveis de stress e ansiedade.
Mas não para por aí. As especialistas no rebolado garantem que a prática — juntamente com toda a conscientização corporal que ela proporciona — tem o poder de aumentar a autoestima e estimular um olhar mais amoroso a si mesma. Segundo a ayurveda, sistema de medicina desenvolvido na Índia, rebolar também é uma forma de estimular a kundalini, energia concentrada na base da coluna diretamente conectada com a nossa vitalidade e sexualidade. O relato de mulheres que se sentem mais “gostosas” após a prática vão ao encontro dessa ideia.
É tudo pra mim
Em uma sociedade permeada pelo machismo e pelo racismo, o rebolado frequentemente é reduzido a um ato puramente sexual, muitas vezes associado à intenção de agradar aos homens. Essa percepção é ainda mais intensa quando falamos das mulheres negras, que historicamente tiveram seus corpos objetificados e subjugados. Por essas e outras, um dos principais desafios é mostrar para as mulheres que elas podem e devem usar o rebolado como forma de proporcionar saúde, alegria e prazer para elas mesmas.

Cadê os homens?
É importante pontuar, também, que os homens não só podem como devem movimentar mais a pélvis. Vinda de uma comunidade congo-angolana, Maria Chantal conta que cresceu acostumada a ver homens rebolando por meio de ritmos como o Kuduro e o Ndombolo, e afirma que a ideia de que rebolar é algo unicamente feminino está enraizada tanto no machismo quanto na colonização.
Além dos benefícios já mencionados, rebolar pode proporcionar aos homens — especialmente os cisgênero, que tem uma relação mais endurecida com a própria pelvis — uma maior consciência corporal, músculos das pernas mais tonificados e até uma melhora na satisfação sexual, uma vez que a malemolência no quadril pode tornar várias posições sexuais mais prazerosas pra ambas as partes.
Bora mexer?
É bom lembrar que cada pessoa tem uma forma única de movimentar o quadril, e que descer até o chão e rebolar são ações que demandam tempo e prática. Por isso, se você curtiu a ideia, nada de começar se comparando e buscando a perfeição. O importante é explorar os movimentos que for aprendendo e se divertir! Aqui, listamos outras dicas simples pra quem quer começar a rebolar, dadas por Maria Chantal em uma matéria da Universa:

É preciso pontuar, ainda, a importância de respeitar os limites pessoais e de garantir uma boa execução do movimento. Listamos aqui algumas profissionais, com aulas virtuais e presenciais, pra você aperfeiçoar o seu rebolado e aproveitar todos os benefícios que a prática pode trazer:
• Maria Chantal
• Gabriela Aad
• Tainá Antonio
• Lara Barcelos
• Thiane Nascimento
• Briê Silva
• Jade Quoi
• Dora Selva
• B O A T E Class
Pra saber mais:
• O livro O afrofunk e a ciência do rebolado (2020), de Taísa Machado.
• A playlist criada por Thiane Nascimento, da Pélvika, com músicas para rebolar.
• A matéria 14 Exercises for Strengthening and Increasing Mobility in the Hips, da Healthline.
• O documentário Bunda Dura Não Treme (2016), dirigido por Thales Banzai e Camila Cornelsen.
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texto: Dandara Fonseca | edição: Adriana Setti | arte: Eduardo Gayotto
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