Todo mundo conhece aquela pessoa que não faz um café na sua própria casa sem perguntar onde está o filtro ou o pó, sempre “esquece” de comprar metade da lista do mercado e ainda culpa alguém por “não ter explicado direito”. Quando esse comportamento é sistemático, intencional e sobrecarrega quem está ao redor, ele ganha outro nome: incompetência estratégica.

Isso não significa que a gente precise saber fazer toda e qualquer coisa. Mas falhar de propósito e se recusar a aprender pra fugir de responsabilidades ou tarefas que ninguém gosta é eficiente justamente porque se disfarça de falta de capacidade, de talento ou se esconde atrás de estereótipos que aprendemos desde cedo.

Aqui, a gente explica por que errar na hora certa pesa tanto pra quem precisa acertar.

É errando que se aprende

Ninguém nasce sabendo tirar manchas das roupas, especialista em compras do mês, Ph.D. em presente pra professora das crianças ou com um espaço no cérebro especialmente desenhado pra lembrar de tudo isso. Mas existe uma grande diferença entre não conseguir aprender algo e simplesmente não se esforçar pra cumprir tarefas que exigem paciência.

A distinção não está só no número de tentativas, mas em quem paga o preço. Quando o erro é genuíno, ninguém sai ganhando: a pessoa que realmente não consegue fazer algo costuma se incomodar com isso, insiste, pede ajuda — e o mesmo tropeço aparece em várias áreas da vida, não só na responsabilidade que ninguém quer assumir. Quando a falha é estratégica, o padrão fica mais seletivo: a pessoa se vira bem em tudo que lhe interessa, mas se torna incapaz diante de uma função chata ou inoportuna. Aí, quem perde é sempre o outro — aquele que resolve e assume os B.Os.

Deixa que eu faço

Quem já ouviu o avô, o pai, o tio, o amigo ou mesmo o companheiro incomodar uma mulher com dezenas de perguntas, muita lentidão e uma boa dose de má vontade até ela dizer “então dá aqui que eu mesma faço”? A incompetência estratégica é uma arma muito usada pelos homens pra manipular a divisão de trabalho doméstico e de cuidado, função historicamente atribuída às mulheres. Segundo o Ipea, elas gastam 10 horas a mais por semana com essas tarefas, mesmo quando são igualmente responsáveis pelo sustento da casa.

Muita gente aprende esse modelo assistindo aos homens da família “não saberem” onde guardar a louça, qual o tamanho da roupa das crianças, como funciona a máquina de lavar… Ou executando tudo tão mal que ninguém tem coragem de pedir de novo. Pra acabar com esse ciclo vicioso, às vezes não há outra saída senão esperar o outro se virar — mesmo que o preço seja uma pia lotada ou uma cozinha mal varrida.

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Como sair dessa

Pra Susan Albers, autora best-seller e psicóloga na Cleveland Clinic, nos EUA, reconhecer que as responsabilidades — em casa, no cuidado com os filhos, no trabalho ou num relacionamento — não estão sendo divididas de forma justa é o primeiro passo pra lidar com a questão. Colocar no papel essa discrepância, fazendo uma lista das tarefas de cada um, pode ajudar a enxergar se alguém está sobrecarregado.

Na hora de acertar a balança, é preciso abandonar o perfeccionismo e a vontade de agradar que mora dentro de você pra ligar o botão da paciência. “Pode parecer mais fácil simplesmente fazer a tarefa do que esperar a outra pessoa fazer”, afirma Susan. “Mas, por mais desconfortável que seja conviver com a ansiedade da louça suja ou da roupa por dobrar, isso manda uma mensagem: se não for feito, você não vai correr pra resolver.” Isso não significa, é claro, ignorar talentos, capacidades ou mesmo vontades. O importante é garantir que ninguém saia perdendo nesse acordo.

Nem tudo é faxina e louça

A versão mais visível desse comportamento mora nos afazeres cotidianos, mas o mesmo mecanismo funciona pra outros padrões dentro de uma relação. Sabe quando alguém diz “eu sou assim” pra evitar uma conversa difícil ou o “eu não consigo” aparece bem na hora de acolher, ouvir ou se comprometer com alguma coisa?

Versão corporativa

No escritório, o disfarce muda um pouco de forma. Já que nem sempre pega bem dizer que não é capaz de fazer algo, vale atrasar, repetir pequenos erros ou entregar um relatório pela metade pro colega porque ele “é melhor nisso” — e, de quebra, ainda levar o crédito.

Um dos principais alvos da incompetência estratégica são aquelas tarefas mais imperceptíveis. Organizar um evento, ajudar o estagiário novo, resolver um imprevisto bobo, segurar a barra do time… Nada disso costuma aparecer na avaliação de desempenho, mas mantém a empresa funcionando. Pesquisadoras da Carnegie Mellon University e da University of Pittsburgh, nos EUA, batizaram esse tipo de função de “trabalho invisível de escritório”: ele soma carga, mas não conta ponto pra promoção nenhuma. Segundo elas, mulheres têm 44% mais chance de serem escaladas pra esse tipo de função do que homens. Quem escapa geralmente não é visto como folgado, mas alguém que simplesmente não é bom nisso.

Em entrevista ao HuffPost, a consultora organizacional Melanie Ho, autora de Beyond Leaning In: Gender Equity and What Organizations are Up Against, explica por que elas saem perdendo nessa divisão. “Em posições de liderança, é mais comum que um homem negligencie sua equipe, e outra funcionária acabe compensando essa falha", afirma. “Espera-se que as mulheres assumam o papel de cuidado, enquanto eles são desculpados por ‘não levarem jeito’ e ficam livres pra concentrar seus esforços em outras tarefas.”

Nem todo erro

Assim como tem quem não faça nada certo por querer, há quem ache tudo errado se não for do seu jeito. Quem cresceu aprendendo a assumir todas as responsabilidades precisa pensar dez vezes antes de corrigir, refazer ou assumir a tarefa alheia. Afinal, mesmo quando a gente acha que está ajudando pode estar tirando do outro a chance de aprender do seu jeito, no próprio tempo.

Diante de críticas em excesso e aquela sensação de que nada é bom o bastante, às vezes a vontade é parar de tentar. Mas também há quem use o capricho alheio como desculpa pra ficar parado. Entre o “dá aqui que eu faço” e “se você não gosta faz você” existe muito espaço pra encontrar um equilíbrio. Talvez o café nunca saia igual ao seu, mas pelo menos não foi você que teve que fazer de novo.

Pra saber mais:

· O vídeo da empresária e escritora Luana Genót sobre o peso da ignorância estratégica sobre as mulheres.
. A participação da criadora de conteúdo Jout Jout no programa SuperPoderosas, da Band, num papo sobre carga mental.
· Nossa newsletter “O que tem pra jantar?”, sobre o trabalho invisível dentro de casa.
· Esta reportagem da BBC sobre a versão institucional dessa estratégia, usada por governos e corporações pra escapar das responsabilidades.

Uma das poucas certezas da vida adulta é que, em algum momento, um dos pratos que você está tentando equilibrar vai se espatifar no chão. Nessas horas, mais vale respirar do que sair correndo pra juntar os cacos. No novo episódio do Desenrola, oferecido pelo novo ⁠Colgate Plax ⁠Melancia, a criadora de conteúdo e humorista ⁠Luma Santos⁠ e o cantor, produtor musical e apresentador ⁠Chinaina⁠ compartilham histórias tragicômicas do cotidiano e refletem sobre a importância de criar pausas em meio à correria. Ouça agora!

A ARTE DE LIDAR COM AS DORES DE CABEÇA DA VIDA ADULTA

A vida adulta é basicamente uma sequência de pequenos incêndios que você aprende a apagar sem entrar em pânico. E a gente vai ficando cada vez melhor nessa arte. Mas existe um tipo de perrengue que não está sob o nosso controle e atrapalha mesmo quem já é especialista em resolver problemas: a dor de cabeça. Aquela pontada que aparece sem avisar não só acaba com o seu bem-estar, mas interrompe o ritmo do seu dia e transforma tarefas simples em missões complicadas. Pintou uma dor de cabeça? Junto com Novalgina, a gente traz uma boa notícia: o novo Novalgina Flash age 2x* mais rápido e tem 2x* mais analgésico, trazendo alívio a partir de 15 minutos.

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texto: Fernanda Nascimento

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