Crianças correndo entre as mesas na festa da avó, dançando na pista do casamento do amigo, fazendo bagunça na piscina do prédio… É bem provável que as suas memórias de infância e adolescência sejam cheias de cenas como essas. Mas já reparou que elas estão ficando cada vez mais raras?

Em quatro décadas, a taxa de fecundidade no Brasil caiu de 4,35 filhos por mulher pra 1,55, o menor patamar da história. Já o número de casais sem filhos dobrou entre 2010 e 2022: passou de 12% pra 24%, segundo dados do IBGE. Na prática, isso também significa menos irmãos, primos, sobrinhos e outras crianças na rotina dos adultos.

Com menos convivência, muita gente perdeu a prática e percebe que não sabe mais como conversar, brincar ou agir quando elas estão por perto. Aqui, a gente explica o que mudou e como lidar com essa trava.

Ninguém quer errar

Nos últimos anos, a forma como enxergamos a infância mudou bastante. Ganharam força as discussões sobre uma educação menos baseada no medo e na violência e mais pautada no diálogo, no acolhimento e no respeito à autonomia das crianças. Como explica Maya Eigenmann, neuropedagoga e cocriadora da educação positiva no Brasil, em um post em parceria com o The Summer Hunter, isso não significa ausência de limites, mas uma maneira diferente de estabelecê-los: “É claro que nós vamos guiar e educar. Não é sobre permissividade. Mas, se eu entendo que se trata de um filhote humano que está aprendendo a se desenvolver e a se comportar, percebo que devo ajudar, e não reprimir.”

Pra quem convive pouco com crianças, essas mudanças geram certa insegurança. Afinal, pode dizer “não” pro filho de alguém próximo? Dá pra saber se ele só está tímido ou precisando de acolhimento? Como se aproximar sem forçar a barra? Com medo de contrariar os pais ou agir de forma inadequada, muita gente prefere manter distância.

Cada um no seu quadrado

Até pouco tempo atrás, era mais comum ver crianças brincando na rua, passando a tarde na casa de amigos ou circulando pelo bairro. Hoje, por preocupações com a segurança e pela menor interação entre vizinhos e comunidade, muitas convivem quase exclusivamente com os pais, avós e professores.

A verdade é que adultos e crianças compartilham cada vez menos os mesmos espaços. Prova disso é a oferta crescente de lugares voltados só pra maiores de idade — não por envolverem álcool ou conteúdo impróprio, mas por uma proposta de mais silêncio e tranquilidade. Hotéis adults only, restaurantes em que menores de 14 anos não são bem-vindos e áreas child-free em aviões são alguns exemplos.

O debate divide opiniões. Enquanto alguns defendem esses espaços como um direito de quem escolhe não ter filhos, outros os enxergam como uma forma de discriminação, que acaba excluindo não só as crianças, mas as mães e pais que não têm com quem deixar os pequenos. “Se não conseguimos conviver com as crianças e entender suas necessidades, que sociedade queremos ter no futuro? Uma que as confine apenas a locais específicos gerará adultos que não sabem se relacionar”, afirma Isabella Henriques, representante do Instituto Alana, que defende os direitos infantis, à BBC.

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O adulto da relação

Crianças são barulhentas, choram, testam limites, fazem birra... Não porque querem incomodar quem está ao redor, mas porque ainda estão aprendendo a entender o que sentem, lidar com frustrações e viver em sociedade. Estudos mostram que esperar delas comportamentos ou responsabilidades incompatíveis com a idade pode prejudicar o bem-estar emocional e até o desenvolvimento.

É justamente por isso que a paciência precisa partir do adulto da relação, que já teve tempo pra treinar essas habilidades. O desafio é que, em um mundo acelerado, esse recurso parece cada vez mais escasso. Daí a tentação de entregar uma tela em vez de acolher uma birra ou responder à décima pergunta.

Mas as crianças precisam de pessoas dispostas a estar com elas. E todos têm a ganhar com essa relação: dá pra voltar a se maravilhar com coisas simples do dia a dia e lembrar que abraçar o lúdico não é perda de tempo, mas uma forma de redescobrir a curiosidade e a criatividade. “Estar perto de crianças é um poço infinito de alucinação, porque eles não têm os nossos medos, neuroses ou traumas. São muito mais livres e selvagens”, disse a cantora, compositora e escritora Letrux ao Desenrola, nosso videocast. “Na infância, a gente cria mundos e fundos sem se preocupar. Com o tempo, a máscara da adultice se entranha no nosso rosto e a gente esquece de brincar.”

O diálogo resolve

Se uma criança estiver invadindo seu espaço de alguma forma — mexendo em algo que não deveria ou sendo desrespeitosa, por exemplo — vale conversar primeiro com os pais. Entender como eles costumam agir e quais combinados fazem sentido evita constrangimentos pra todo mundo.

Também é importante desconfiar da ideia equivocada de que crianças não entendem o que acontece ao redor. Elas compreendem muito mais do que, às vezes, conseguem colocar em palavras. Incluí-las na interação, explicar o motivo de um limite e conversar com respeito costuma funcionar melhor do que simplesmente ignorá-las ou tratá-las como se não estivessem ali.

“Ah, mas eu não gosto de crianças”

Tudo bem ter mais ou menos intimidade com crianças ou desejar viver momentos só entre adultos. Também é natural achar difícil conviver com uma das suas primas ou com o filho de um amigo — nas relações entre gente grande tampouco criamos conexão com todo mundo. O problema é quando uma experiência individual vira generalização. Crianças não são um bloco único e, como qualquer outro grupo, merecem espaço pra existir, brincar e fazer parte da vida em comunidade.

Pra saber mais:

· Essa matéria da Gama com dicas de como se comunicar melhor com as crianças.
· O episódio “Educação positiva tem limites?”, do podcast Paizinho, Vírgula!
· O livro Educação não violenta (2019), de Elisama Santos.
· A matéria “Criança tem que ser criança: entenda os perigos de acelerar a infância do seu filho”, do site Pais&Filhos.

“Não tem um ser humano vivo sem uma boa história pra contar, mas é preciso registrar”, disse Amyr Klink. Durante a Flip 2026, o jornalista e escritor Octávio Santiago e o jornalista e publisher do The Summer Hunter Ricardo Moreno entrevistaram o navegador, que falou sobre o medo como motor, a importância de construir histórias próprias, a filha Tamara e a experiência de ver uma de suas aventuras chegar ao cinema. Ouça agora esse episódio especial do Desenrola!

HOJE TREINO ÀS 7H. AMANHÃ ROLÊ ATÉ AS 6H.

A ideia de ter o melhor de vários mundos passa por abandonar a lógica do tudo ou nada. Em vez de se prender a um rótulo, por que não apostar na fluidez? Ninguém deveria precisar justificar as próprias escolhas, seja pra treinar cedo hoje, ir a uma festa amanhã, viajar no fim de semana ou brindar com uma Heineken 0.0. Ter autonomia é justamente poder misturar diferentes experiências e viver cada momento do jeito que faz mais sentido pra você. #publieditorial #ProdutoDestinadoAAdultos

texto: Dandara Fonseca | edição: Fernanda Nascimento

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