
Disputar o controle da TV, brigar pelo último pedaço de pizza, descobrir que sua blusa sumiu do armário porque alguém “pegou emprestado”, dividir o quarto, a culpa e até os segredos… Se você tem irmãos, é bem provável que essas cenas façam parte da sua história. E, se algumas ficaram na infância e na adolescência, outras seguem acontecendo até hoje — só mudaram de endereço.
Em um Brasil que registra a menor taxa de fecundidade da história (1,6 filho por mulher), tendência que se repete em vários outros países, irmão vem se tornando um artigo cada vez mais raro. É verdade que esse laço não é garantia de amizade. Mas, quando ela acontece, cria um vínculo e uma intimidade difíceis de explicar.
Aprendendo juntos
Na infância, irmãos não servem só pra dividir a culpa pelo vaso quebrado. Eles são, muitas vezes, nosso primeiro grande exercício de convivência. É ao lado deles que descobrimos, na prática, que as coisas não giram em torno da gente — nem os brinquedos, nem a atenção dos nossos pais.
É também com eles que treinamos habilidades que levamos pro resto da vida: aprender a relevar certas manias, lidar com diferenças de personalidade, negociar vantagens, defender o próprio espaço e dizer quando alguma coisa passou dos limites.
Mas talvez uma das maiores lições seja descobrir que quase toda briga tem fim. Antes de aprender a resolver conflitos na escola, no trabalho ou nos relacionamentos amorosos, muita gente já praticava isso dentro de casa. Nem sempre o pedido de desculpa vinha em voz alta, mas, cedo ou tarde, era preciso seguir em frente. Afinal, depois da discussão, não tinha muito pra onde fugir: era hora de dividir a mesa do jantar, o sofá ou o videogame outra vez.
Nova fase
Se na infância quase tudo precisa ser compartilhado, a vida adulta costuma afastar as rotinas. Ainda que mudem as prioridades ou a frequência dos encontros, poucas relações continuam funcionando com regras tão particulares. Tem coisa boba que não se empresta de jeito nenhum, mas, se for necessário doar um rim, nem precisa pedir. É permitido xingar, criticar e apontar defeitos — mas ninguém de fora tem esse mesmo direito. Ligações emergenciais na madrugada ou no sufoco são atendidas na hora; já mensagens no WhatsApp podem ser ignoradas por dias.
Também é nessa etapa que aparece outro benefício de ter irmãos: contar com ajuda pra cuidar de quem cuidou de você. Acompanhar os pais em consultas, passar por perrengues relacionados ao envelhecimento, dividir os custos e tomar decisões difíceis fica um pouco mais leve quando o peso é compartilhado.

Muito mais complexo
Isso não quer dizer que os filhos únicos aprendam menos a lidar com as complexidades da vida. A ausência de irmãos pode incentivar uma relação mais confortável com a solitude e desenvolver a capacidade de resolver problemas sem depender tanto de alguém, entre outras coisas. A ciência também não sustenta a ideia de que isso faz com que as pessoas sejam egoístas ou tenham menos empatia. Na verdade, isso depende muito mais da forma como cada um foi criado do que da ausência de irmãos. O que realmente faz diferença é crescer em um ambiente que dê espaço pra experimentar frustrações, resolver conflitos e descobrir o mundo por conta própria.
Outro estereótipo comum envolve a ordem de nascimento. O irmão mais velho seria o responsável, o caçula o mimado e o do meio o conciliador. Embora essas descrições sejam populares, estudos como este publicado na PNAS em 2015, que analisou mais de 20 mil pessoas dos Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha, não mostram uma relação consistente entre a posição que cada filho ocupa na família e sua personalidade.

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Nem todo irmão vira amigo
Há irmãos que cresceram competindo pela atenção dos pais, que carregam mágoas antigas ou simplesmente seguiram caminhos muito diferentes. Às vezes, vale a pena tentar uma conversa, reabrir uma porta ou dar uma segunda chance. Em outros casos, manter distância é a forma mais saudável de preservar a própria paz. Respeito e cuidado não devem ser exigências menores só porque a relação começou na mesma família.
Também é possível criar laços profundos com pessoas que cresceram com você e não têm uma ligação de sangue ou o mesmo sobrenome. São aqueles amigos que conhecem a sua família inteira, aparecem sem avisar, ajudam na mudança, seguram sua mão no hospital, viram padrinhos de casamento, tios dos seus filhos e presença garantida em todos os Natais.
Você se lembra?
Irmãos costumam ser as pessoas que testemunham as nossas mais diversas versões. Eles nos conhecem antes dos diplomas, dos empregos e dos relacionamentos. Lembram daquele apelido vergonhoso, da mania que você jurava ter escondido e também das histórias que ninguém mais consegue contar direito. São quase um HD externo, com detalhes que vão da casa em que você cresceu aos perrengues de férias que nem sua mãe recorda. Quanto mais o tempo passa, mais preciosas são essas memórias que existem apenas entre vocês.

Como é a relação com os seus irmãos? No nosso post sobre o assunto, alguns seguidores compartilharam suas experiências.
“A melhor coisa da minha vida foi a minha irmã! Lembro das nossas interações quando pequenas. Quando nos vemos, a gente esquece que cresceu.”
“Não tive irmãos e não posso culpar meus pais pela escolha de ter somente uma filha. Mas que eu sonhava muito em ter um irmão, isso eu sonhava. E hoje, na vida adulta, sinto muita falta de alguém da família pra dividir e compartilhar a vida.”
“O dia mais feliz da minha vida até hoje foi quando o meu irmão nasceu! Eu tinha 6 anos e lembro direitinho a sensação de não estar mais sozinha no mundo.”
“Gostaria de poder dizer o mesmo. Mas os irmãos que fiz pela vida me fazem muito feliz.”
“O plus é quando seu irmão tem filhos e o amor triplica!”
Pra saber mais:
· A matéria “Life is better with siblings”, do The New York Times.
· A série This Is Us, que acompanha a vida dos trigêmeos Jack, Kate e Rendall.
· O filme Adoráveis mulheres, dirigido por Greta Gerwig.
· O livro Everything I Never Told You (2014), de Celeste Ng, que aborda temas como família, perda e luto.

THE SUMMER HUNTER NA FLIP 2026
Até domingo (26), estaremos em Paraty com uma série de encontros em parceria com a Editora Sextante na Casa Acaso. Nesta sexta (24), às 16h30, Ana Claudia Quintana Arantes e Alcio Braz conversam sobre finitude, acolhimento e tempo. Um pouco depois, às 18h30, Cris Bartis e Ruth Manus refletem sobre a escrita como ferramenta de amadurecimento e compreensão de si. Confira a programação completa e os destaques do que está rolando por lá nas nossas redes sociais.

Vivemos um período instável: conflitos políticos, guerras, crise climática e, pra completar, uma avalanche de informações — grande parte delas de baixa qualidade ou simplesmente falsas. No novo episódio do Desenrola, o especialista em Política Internacional Tanguy Baghdadi, cohost do podcast Petit Journal, e o jornalista e analista de tecnologia Bruno Natal, apresentador do podcast RESUMIDO, compartilham reflexões e dicas de como se informar de forma mais crítica e saudável. Assista!
texto: Dandara Fonseca | edição: Fernanda Nascimento
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