No Brasil, 46,2% das mulheres e 35,3% dos homens se sentem sozinhos, segundo pesquisa feita pela ONG Family Talks, em parceria com a Market Analysis. A solidão contemporânea é agravada quando deixamos de frequentar lugares de encontro. É por isso que praças e centros culturais de qualidade se tornam cada vez mais importantes pra proporcionarem uma vida urbana menos isolada: tudo fica melhor quando a gente se encontra pela cidade.

Como a solidão afeta o cérebro

A solidão crônica prejudica diretamente o bem-estar e a qualidade de vida. Tanto é que já vem sendo encarada como uma questão de saúde pública pela OMS. Pesquisas recentes indicam que a falta de conexão com outras pessoas pode até afetar o cérebro fisiologicamente, aumentando o risco de doenças degenerativas.

O ser humano, bem como a maioria dos animais, não nasceu pra ficar sozinho. Nos tempos das cavernas, a solidão reduzia consideravelmente as chances de sobrevivência. Por isso, do ponto de vista evolutivo, pesquisadores acreditam que o mal-estar e o stress causados pela solidão podem ter um papel fundamental, como um alerta de que precisamos nos aproximar de outras pessoas em nome da própria continuidade da espécie.

O papel da cidade

A solidão não se combate apenas com grandes vínculos. Muitas vezes, ela vai se dissolvendo em pequenas interações: uma conversa rápida na fila, um olhar cúmplice, um comentário diante de uma obra em um museu. Esses contatos breves podem parecer insignificantes, mas contribuem pra fortalecer o senso de comunidade e reduzir a percepção de isolamento que tantas pessoas experimentam hoje.

Nesse contexto, o desenho das cidades é extremamente relevante. Ambientes urbanos que oferecem praças, parques, calçadas agradáveis pra caminhar, centros culturais, bibliotecas e outros espaços de convivência aumentam as chances de encontros espontâneos. Quando a vida acontece apenas entre casa, transporte (de fone de ouvido e olho no celular) e trabalho, as oportunidades de contato humano diminuem drasticamente. Já quando existem lugares que convidam as pessoas a permanecer, circular e compartilhar experiências, a cidade se transforma em uma ponte entre indivíduos.

A gente se encontra por aí

Toda cidade precisa de espaços capazes de promover diferentes tipos de encontro. Encontros consigo mesmo, ao oferecer momentos de contemplação, reflexão e pausa em meio à correria. Encontros com o outro, criando oportunidades pra conversas, trocas e convivência. E encontros com novas perspectivas de vida, por meio da cultura, da diversidade e do contato com pessoas e ideias diferentes das nossas.

É por isso que a arte, a arquitetura, os espaços de convivência e os equipamentos culturais desempenham um papel tão importante na saúde emocional coletiva. Uma exposição pode ampliar nossa visão de mundo. Uma praça movimentada pode diminuir a sensação de invisibilidade. Um teatro, uma livraria ou um museu podem nos colocar em contato com visões capazes de inspirar mudanças, despertar curiosidade ou simplesmente nos fazer sentir compreendidos.

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O esforço que vale a pena

Com boa parte da vida acontecendo dentro de telas, sair de casa virou quase um exercício de resistência. Não só porque exige deslocamento, tempo e disposição, mas pelo desafio de se colocar no mundo: ver gente, ser visto, cruzar com o inesperado, se comunicar etc. Nenhum app entrega isso em casa.

Ao sair e circular por ambientes compartilhados, reorganizamos nossos pensamentos, interrompemos os loops mentais que costumam se formar na solidão e ampliamos o repertório de estímulos. Recuperamos, ainda que por alguns instantes, a sensação de pertencimento e de cidadania. Passamos a nos perceber como parte de algo maior do que nossos problemas, preocupações e rotinas.

Em um momento histórico em que a solidão é tratada como uma questão de saúde pública em diversos países, talvez uma das respostas esteja justamente em valorizar os lugares que nos colocam em contato uns com os outros.

O exemplo do MASP

Localizado na Avenida Paulista, em São Paulo, o MASP é um exemplo de como um centro cultural pode impactar a vida da cidade. Além de ser um dos museus mais icônicos e visitados do país, também é a instituição brasileira mais bem colocada no ranking global do The Art Newspaper, na 64ª posição. Com exposições relevantes, arquitetura marcante e uma localização central, é um ponto de encontro, um espaço de manifestação política e um lugar onde a arte se aproxima da vida cotidiana.

Funcionando como uma espécie de praça no meio da Avenida Paulista, o vão livre do MASP é um espaço aberto ao improviso da metrópole. Ali cabem encontros marcados ou casuais, performances, conversas, pausas, dates... Além de uma programação incrível gratuita que vai de DJ a yoga, passando por oficinas. Em 2025, o MASP ainda ganhou um novo edifício, o Pietro, que aumentou em 66% a capacidade expositiva do museu. Atualmente, nove mostras estão em cartaz. Bora pro MASP?

Pra saber mais:

· A lista de exposições em cartaz no MASP agora.
· Nossa newsletter sobre a importância da caminhabilidade na cidade.
· Este episódio sobre solidão, com Ana Suy, do podcast Gostosas também choram.
· Essa lista de 10 filmes que vão fazer você querer sair pra ver gente.
· A seleção de livros sobre solidão da Gama.

THE SUMMER HUNTER NA FLIP 2026

Amyr Klink, Ana Claudia Quintana Arantes, Lela Brandão e Ruth Manus estão entre os convidados dos talks do TSH com a Editora Sextante, na Casa Acaso, durante a maior festa literária do país. De 22 a 26/7, nos encontramos em Paraty pra falar sobre criatividade, vida digital, memória e, claro, livros e cultura impressa. A programação completa você confere nas nossas redes sociais.

É quando ultrapassamos os nossos limites que entendemos por que eles são importantes. Mas será que eles devem vir sempre em primeiro lugar? Ceder em alguns momentos também não faz parte de construir e manter relações? No episódio mais recente do Desenrola, nosso videocast, o ator e influenciador Victor Vaz, apresentador do podcast Café Frio Show, e a jornalista Martchela, do Lambisgoia Cast, refletem sobre como encontrar esse equilíbrio. Ouça agora!

texto: Adriana Setti

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