

Notícias sobre conflitos políticos mundo afora ao lado de fofocas de subcelebridades que ninguém nem sabe como ficaram famosas. Recomendações de séries, livros, filmes e artigos que você precisa conhecer. Convites pra eventos e experiências que prometem transformar sua vida. A verdade é que não existe tempo suficiente pra dar conta de tudo o que disputa a nossa atenção. Mesmo que a gente passasse o dia inteiro lendo notícias, assistindo vídeos e ouvindo podcasts, ainda terminaria com a sensação de que ficou alguma coisa importante pra trás.
Se antes o desafio era encontrar informação, hoje é filtrar. Com tantos estímulos e possibilidades, num cenário em que praticamente tudo compete por alguns segundos do nosso olhar, como entender o que realmente merece o nosso tempo?
Olha pra cá!
Em um texto publicado em 1971, o economista vencedor do Prêmio Nobel Herbert Simon escreveu que “a riqueza de informação cria a pobreza de atenção”. A partir dos anos 1990, com a popularização da internet, ganhou força o conceito de economia da atenção: a ideia de que, em um mundo repleto de informação, esse é um dos nossos recursos mais escassos e disputados.
Como explica o pesquisador Tim Wu, autor de The Attention Merchants, boa parte da economia digital funciona a partir de uma lógica simples: oferecer serviços aparentemente gratuitos em troca daquilo que realmente tem valor comercial — a nossa atenção. Quanto mais tempo permanecemos olhando pra uma tela, mais anúncios nos impactam, mais dados produzimos e mais dinheiro movimentamos.

Não quero nem saber
Se a atenção é um recurso limitado, fazer bom uso dela depende não apenas do que escolhemos acompanhar, mas também do que decidimos, intencionalmente, ignorar. Alguns pesquisadores chamam essa estratégia de ignorância crítica. É o caso do psicólogo cognitivo Ralph Hertwig, que publicou, em 2022, um artigo sobre o tema.
Isso não significa defender a desinformação, mas simplesmente reconhecer que ninguém consegue estar por dentro de tudo. Assim, em vez de consumir conteúdos no piloto automático, podemos escolher com mais cuidado onde colocar a atenção e deixar de lado aquilo que dificilmente vai acrescentar alguma coisa — seja em conhecimento, seja em entretenimento.
No dia a dia
Um dos primeiros passos pra praticar a ignorância crítica e preservar a atenção é reduzir o fluxo de informações que chega até você. Fazer uma limpa nos perfis que segue, limitar o tempo de uso de cada aplicativo e desativar as notificações são boas estratégias. Outra saída é buscar conteúdos que já passaram por uma curadoria cuidadosa, como newsletters, podcasts e publicações impressas, que têm menos chances de levar você a consumir coisas que não são do seu interesse.
Um conselho antigo, mas especialmente válido no mundo digital, é prestar atenção em quem está falando antes de mergulhar em um texto ou assunto “urgente”. Assim, evitamos gastar tempo com informações enganosas ou de baixa qualidade. Já um exercício importante é resistir à sensação de que você precisa engajar ou ter uma opinião sobre tudo. Na hora de entrar em uma discussão ou comentar o assunto do momento, vale perguntar: eu realmente preciso dizer alguma coisa sobre isso? Nem toda conversa exige a nossa participação.

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Além das notícias
A lógica da ignorância crítica também pode ser levada pra outras áreas da vida. Por exemplo: em vez de tentar dar conta de tudo ao mesmo tempo, se pergunte onde faz mais sentido concentrar a energia neste momento — no trabalho, nos relacionamentos, nos estudos, em viagens... A vida adulta exige certo equilíbrio entre todas essas áreas, é verdade. Mas também pode ser um alívio perceber que priorizar faz parte e deixar um pratinho cair não é falha de planejamento. É só um limite humano.
O que dizem sobre você também merece filtro. Alguém falou algo pelas suas costas ou uma crítica ácida nas redes sociais alugou um triplex na sua cabeça? Antes de deixar aquilo ocupar o seu dia, questione-se: essa opinião vem de alguém que importa ou que você admira? Traz algo útil ou está só consumindo uma atenção que poderia ser dedicada a algo mais relevante? Dependendo da resposta, talvez a melhor escolha seja simplesmente deixar pra lá.
Dificuldade real
Uma pesquisa liderada por Gloria Mark, professora e autora do livro O poder da atenção, aponta que o tempo médio que passamos focados em uma tela caiu de 2,5 minutos, em 2004, pra apenas 47 segundos, nas medições realizadas entre 2016 e 2021. Segundo o mesmo estudo, se somos interrompidos, levamos cerca de 25 minutos pra retomar o foco.
Mas esses números não são consenso. Gemma Briggs, professora de psicologia da Open University, no Reino Unido, argumenta que não é possível afirmar com certeza que a nossa capacidade geral de atenção vem diminuindo. Em entrevista à BBC, ela explica que o tempo de concentração varia muito conforme a tarefa, seu contexto e nível de exigência. A mesma reportagem também questiona a origem da famosa afirmação de que nossa atenção ficou pior do que a de um peixe-dourado — um dado, ao que tudo indica, nada confiável.
Isso significa que nosso cérebro continua o mesmo? Não necessariamente. Muita gente já sente mais dificuldade de se concentrar no dia a dia. Em um estudo realizado no Reino Unido, em 2022, 49% das pessoas disseram perceber que sua capacidade de atenção diminuiu. É difícil apontar uma única causa, mas o ritmo cada vez mais acelerado da vida, o excesso de estímulos digitais e a pressão pra fazer várias coisas ao mesmo tempo certamente ajudam a explicar essa sensação.
Trabalhando essa habilidade
Precisando melhorar a sua capacidade de concentração? Além de deixar o celular e outras distrações longe, Gloria Mark explica que é preciso entender os seus próprios ritmos de atenção. Ou seja, perceber por quanto tempo você consegue se dedicar a uma tarefa até o foco começar a se perder. A ideia é fazer uma pausa curta antes que ele acabe de vez e seja sequestrado pelas redes sociais ou qualquer outro estímulo.

Se nada funcionar, vale avaliar se essa dificuldade de concentração não está ligada ao esgotamento. Nessas horas, o cérebro busca o caminho mais fácil: atividades que exigem menos esforço e oferecem recompensas imediatas, como checar o celular. Justamente por isso, dormir bem e reservar momentos reais de descanso pode valer mais do que qualquer estratégia de concentração. Será que o problema é só a falta de atenção ou também um cérebro cansado?
Pra saber mais:
· O post Not everything deserves your attention, da Tatler (em inglês).
· O livro Minimalismo digital: para uma vida profunda em um mundo superficial (2019), de Cal Newport.
· O podcast Your Undivided Attention, que nos ajuda a entender como a tecnologia está moldando a forma como vivemos, trabalhamos e pensamos (em inglês).
· O episódio do Desenrola sobre amnésia digital — o hábito de depender tanto da tecnologia pra guardar informações que acabamos memorizando cada vez menos.

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É quando ultrapassamos os nossos limites que entendemos por que eles são importantes. Mas será que eles devem vir sempre em primeiro lugar? Ceder em alguns momentos também não faz parte de construir e manter relações? No novo episódio do Desenrola, nosso videocast, o ator e influenciador Victor Vaz, apresentador do podcast Café Frio Show, e a jornalista Martchela, do Lambisgoia Cast, refletem sobre como encontrar esse equilíbrio. Ouça agora!
texto: Dandara Fonseca | edição: Fernanda Nascimento
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