A geração que ajudou a popularizar o TikTok com coreografias virais que continuam circulando por todos os cantos da internet é a mesma que tem deixado as pistas mais tímidas. Basta uma rápida pesquisa nas redes sociais pra encontrar centenas de vídeos, tanto de estrangeiros quanto de brasileiros, reclamando que a Geração Z (ou pelo menos grande parte dela) não se joga na dança — e no máximo balança a cabeça ou os ombros de um lado pro outro.

Mas a conversa vai muito além de preguiça ou falta de malemolência. Aqui, a gente tenta entender o que está por trás desse comportamento e por que colocar o corpo em movimento ao som de uma música faz tão bem pra nossa saúde física e mental.

Medo de errar

Mesmo quando ninguém está filmando, a possibilidade está sempre ali, no bolso do colega. E saber disso às vezes é suficiente pra travar alguém na pista — especialmente numa época em que a preocupação com a performance frequentemente fala mais alto do que a vontade de viver verdadeiramente uma experiência. A pressão pra sair bem na foto, parecer interessante, ser interpretado da forma certa... Pra quem pensa dez vezes até antes de publicar uma imagem nas redes sociais, se soltar na pista de dança — sem filtro, sem edição e sem segunda tentativa — pode parecer vulnerabilidade demais.

Como afirma a repórter Kate Solomon em uma matéria da Monocle, “costumávamos dançar como se ninguém estivesse olhando; agora, dançamos como se todos estivessem”. Não à toa, várias casas noturnas pelo mundo estão criando regras pra coibir registros e até exigem que os frequentadores coloquem adesivos sobre as câmeras antes de entrar.

Também vale lembrar que, por conta da pandemia, boa parte da Geração Z passou anos decisivos da adolescência e do início da vida adulta longe de festas, shows e casas noturnas. Quando tudo voltou ao normal, o interesse e a familiaridade com esses espaços já estavam perdidos — e também a desenvoltura pra ocupar uma pista, abordar alguém, circular entre desconhecidos ou simplesmente dançar.

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O poder do movimento

A diversão já seria motivo suficiente pra desejar que a dança nunca deixe as pistas. Mas esse hábito também faz bem pro corpo. Dançar melhora o condicionamento cardiorrespiratório, fortalece a musculatura e está associado a um menor risco de doenças cardiovasculares. De quebra, ainda ajuda a desenvolver equilíbrio, flexibilidade, coordenação motora e consciência corporal — habilidades que tendem a ficar em segundo plano numa rotina cada vez mais sedentária.

A mente também agradece. Segundo Peter Lovatt, psicólogo e autor do livro The Dance Cure, a dança ativa áreas do cérebro ligadas à emoção, à memória e à tomada de decisão. A improvisação corporal — sem coreografia, sem espelho — estimula a criatividade e a flexibilidade mental. É por isso que empresas, escolas e até hospitais vêm usando a prática como ferramenta de conexão e resolução de problemas.

No mesmo ritmo

Dançar também aproxima. E quem já fez novos amigos numa pista sabe bem disso. Ficamos mais abertos, mais presentes e mais conectados a quem está ao redor — e essa não é apenas uma percepção. Um estudo da Universidade de Oxford concluiu que dançar em grupo aumenta a sensação de pertencimento e fortalece os vínculos sociais, especialmente quando nos movemos no mesmo ritmo.

Talvez seja por isso que a dança tenha ocupado um papel tão importante na vida coletiva ao longo dos séculos. “A verdade é que, durante quase toda a história da humanidade, dançar foi uma atividade social comum em diversas culturas — transcende gerações, poder aquisitivo, nível acadêmico”, afirma o jornalista e apresentador Pedro Andrade em um vídeo nas suas redes sociais. “Casamentos, festas, boates, bares, ruas, clubes… Em todas essas situações, as pessoas dançavam junto.”

A dança é também expressão cultural. Tradições como o Bumba Meu Boi, o frevo, o maracatu e o carimbó, reconhecidas inclusive como patrimônio imaterial brasileiro, mostram como o corpo em movimento sempre foi uma forma de mostrarmos quem a gente é.

Um, dois, três

Coreografia não é invenção das redes sociais, e aprender uma dança pode ser um bom jeito de movimentar o corpo, conhecer gente nova e descobrir uma atividade prazerosa. Da zumba ao samba rock, passando pelo charme, hip hop, dança do ventre ou contemporânea: é só achar o passo certo. Diferente de muitos hobbies, essa prática não exige equipamento caro ou grande preparo físico. Além disso, há aulas gratuitas espalhadas por centros culturais, praças e ruas de diversas cidades.

Num momento em que tanta gente fala sobre solidão, excesso de telas e dificuldade de criar conexões, a dança oferece movimento, diversão e encontro. E não precisa de muito pra começar: dois passos pra um lado, dois pro outro já são suficientes.

Pra saber mais:

· Nossa newsletter falando sobre os benefícios de rebolar.
· A matéria “Suddenly Everyone Is Scared to Dance at Concerts and Clubs”, do The Wall Street Journal.
· Este vídeo curto do The Morning Show falando sobre a Geração Z não querer dançar.
· Esta lista da Quatro cinco um com 10 livros pra entender a dança.

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texto: Dandara Fonseca | edição: Fernanda Nascimento

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