Ela está em um processo seletivo, mas já sabe que não vai conseguir a vaga. Marcou uma festa de aniversário e tem certeza de que ninguém vai aparecer. Mal começou a se relacionar e trata o fim como inevitável. Todo mundo conhece aquela pessoa que encontra problema até em notícia boa e não consegue nem comemorar antes de imaginar as consequências ou antecipar a frustração.

Quando a realidade já coloca a nossa esperança à prova diariamente e alimenta a ansiedade, conviver com alguém cronicamente negativo pode ser desgastante. Mas nem sempre dá pra se afastar. Às vezes, essa pessoa faz parte da sua família, do seu trabalho — ou tem tantas outras qualidades que o pessimismo acaba virando só mais uma camada na relação. A questão é: como continuar por perto sem deixar que isso contamine você?

Sem querer querendo

Em muitos casos, a negatividade é um aprendizado. Quem cresceu em ambientes em que os adultos ao redor estavam sempre pensando no que poderia dar errado pode passar a enxergar esse padrão como cautela ou realismo — e repetir o comportamento sem perceber. Em outros contextos, o que parece pessimismo é uma tentativa de dar sentido a um mal-estar interno, jogando isso para fora em forma de explicações ou culpados.

Focar no copo meio vazio também faz parte da “programação” do nosso cérebro. A psicologia chama isso de viés da negatividade: a tendência de prestar mais atenção em ameaças, frustrações e experiências ruins do que em acontecimentos e futuros positivos. Esse mecanismo tem relação com a evolução humana: por muito tempo (e ainda hoje, em menor intensidade) identificar perigos rapidamente foi essencial pra sobrevivência.

Justamente por nem sempre ser um hábito consciente, uma conversa pode esclarecer muita coisa. Perguntas como “já percebeu como você imagina o pior antes mesmo das coisas acontecerem?”; “Como viver assim faz você se sentir?”; e “Quantas vezes as coisas realmente terminaram tão mal quanto você imaginava?” podem abrir espaço pra reflexão sem transformar tudo em confronto.

Clima que se espalha

Se, mesmo após um toque, a pessoa continuar agindo dessa forma, vale observar o quanto esse comportamento afeta o seu próprio estado de espírito. Pesquisas em psicologia social mostram que tendemos a absorver o humor de quem está ao nosso redor — e esse fenômeno, conhecido como contágio emocional, pode dificultar a convivência com alguém que trata o pessimismo quase como traço de personalidade.

Preste atenção também nos alvos desses baldes de água fria. Você conta que recebeu uma ótima proposta de emprego e já ouve que tem risco de ser uma furada? Segundo a psicóloga Natália Pavani, do Hospital Oswaldo Cruz, em matéria de Danielle Sanches pro VivaBem UOL, é comum que pessoas negativas se aproximem de perfis mais generosos e acolhedores, que tendem a receber críticas e conselhos intrusivos com menos resistência.

Isso ajuda a entender um padrão que pode se repetir na prática: quando, além de sustentar a própria negatividade, a pessoa responde ao seu entusiasmo com previsões pessimistas e sempre esvazia sua animação, talvez seja necessário criar certa distância.

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Seus limites

Quando não dá pra se afastar, o caminho passa menos por mudar o outro e mais por fortalecer o seu emocional. O ponto de partida é aprender a reconhecer quando o pessimismo ultrapassa o limite e evitar entrar na mesma espiral. A partir daí, ajuda lembrar que nem toda preocupação precisa virar sua.

Isso não significa, porém, se fechar pra qualquer emoção alheia negativa. Tristeza, raiva, luto, frustração ou medo fazem parte da vida — e compartilhar esses sentimentos também. Antes de pedir ao outro que olhe o copo meio cheio, é preciso entender se aquele pessimismo não é apenas um pedido de ajuda ou acolhimento.

Eu sou a pessoa negativa. E agora?

Um acompanhamento terapêutico pode ajudar a entender de onde vem esse padrão e se ele faz parte de um processo depressivo que merece mais atenção. No dia a dia, alguns hábitos básicos também fazem diferença. Um estudo publicado no Journal of American College Health provou algo que a gente já sente na prática: dormir bem, se exercitar e manter uma alimentação equilibrada estão associados a uma maior flexibilidade emocional.

Compartilhar suas angústias com outras pessoas às vezes é capaz de aliviar o peso do que você está sentindo. Mas focar apenas nelas tende a manter a mente no mesmo lugar. De acordo com uma pesquisa da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, reclamações crônicas geram efeitos fisiológicos. Através da repetição de sentimentos ruins, o cérebro pode passar por uma reconfiguração neural que reforça padrões de pensamento negativos. “Uma coisa é desabafar e buscar acolhimento; outra é não encarar a realidade e esperar que as pessoas fiquem passando a mão na sua cabeça. A maturidade nos ajuda a não cair nessa cilada”, explicou a psicóloga Alana Anijar, do podcast Psicologia na Prática, no Desenrola.

Abrir espaço pra conversa faz diferença: falar sobre coisas que você gosta, se interessar pela história das pessoas, ouvir de verdade. Aos poucos, isso ajuda a deslocar o foco dos pensamentos negativos. Pode soar clichê, mas também vale lembrar do que está indo bem. Um jeito simples de fazer isso é anotar, no fim do dia, pequenas coisas positivas que aconteceram. Com o tempo, essa prática ajuda a equilibrar o olhar.

Pra saber mais:

· Esse teste da Verywell Mind que ajuda a entender se você é uma pessoa mais positiva ou negativa.
· O episódio do Desenrola, nosso podcast, que reflete sobre as consequências de reclamar demais.
· Essa matéria da BBC explicando por que o efeito das críticas dura mais que o dos elogios.
· O livro Pense menos, viva mais (Editora Agir), de Nick Trenton.
∙ A reportagem “Managing a Chronic Complainer”, da Harvard Business Review.

Criar um ser humano já é complexo. Criar um menino pra que ele se torne um homem livre, respeitoso, sensível e funcional fica cada vez mais desafiador. No novo episódio do Desenrola, Dani Arrais, criadora da Contente e mãe do Martin, de 5 anos, e Ismael dos Anjos, jornalista, estudioso sobre masculinidades e pai do Francisco, de 12 anos, refletem sobre maneiras mais saudáveis — e atentas — de formar os filhos. Ouça agora!

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