

O papo pode ser sobre a guerra no Irã, uma receita de frango a passarinho ou o filme que acabou de estrear… Tem gente que é capaz de sequestrar a conversa mais trágica, aleatória ou íntima pra contar uma história pessoal ou registrar sua opinião. Isso tem até nome: narcisismo conversacional.
O conceito é bem mais antigo do que as redes sociais fazem parecer. Quando foi criado pelo sociólogo norte-americano Charles Derber, em 1979, a internet ainda era só um projeto militar. No livro The Pursuit of Attention (“A busca pela atenção”, em tradução livre), ele descreveu o comportamento de quem traz todo e qualquer assunto pra si e disputa atenção de forma recorrente.
“Não precisa ser agressivo nem consciente, mas algo feito sistematicamente: a pessoa acha um link com o papo que está rolando, ignora o que foi dito e passa a falar sobre ela”, explica a jornalista e física Rosana Hermann, que fez um vídeo sobre o tema. “Eu fico indignada com quem sequestra a pauta o tempo inteiro. Mas Charles Derber explica que, às vezes, é cultural: existem lugares onde todo mundo faz isso.”
O sociólogo aponta dois caminhos possíveis em uma conversa: o “shift-response”, quando a pessoa muda o foco do diálogo pra si quase no automático, e o “support-response”, quando existe escuta, interesse e espaço pro outro antes de compartilhar uma experiência própria.
“Gosto de pensar em uma conversa saudável como um jogo em que você joga a bola, a outra pessoa pega, segura e joga de volta”, explicou Sue Varma, professora assistente de psiquiatria na NYU Grossman School of Medicine, nos Estados Unidos, em entrevista ao HuffPost. “Com o narcisismo conversacional, o outro pega a bola e simplesmente sai correndo com ela. É um diálogo que se transforma em um monólogo.”

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Redes (não) sociais
Notificação no celular, filme passando na TV, milhares de abas abertas no computador, podcast tocando no fone de ouvido… O excesso de estímulos deixa nosso cérebro cada vez mais disperso, sem conseguir se concentrar em uma tarefa por vez. Como se não bastasse, o ritmo acelerado em que vivemos faz com que a gente se acostume com interações rápidas e superficiais, padrão que se repete nas conversas: em vez de parar e realmente ouvir, prestamos atenção apenas o suficiente pra responder — e, muitas vezes, tomar conta do assunto.
Se décadas atrás Derber já identificava a atenção como uma moeda de alto valor social, mal sabia ele o que o algoritmo nos reservava. Hoje, as redes sociais reúnem milhares de pessoas tentando ser ouvidas. Esse papo sem trocas, em que muito se fala e pouco se interessa pelo que o outro tem a dizer, é a regra num espaço onde vale tudo pelo engajamento.

Pra psicóloga Audrey Tang, da British Psychological Society, a chegada do iPhone 4, o primeiro com a câmera frontal, foi um marco da decadência do diálogo. E o que começou em 2010 se agravou com a pandemia: se antes a gente esperava uma resposta do outro lado num papo, como na vida real, agora nos habituamos a conversas unilaterais.
Discordar pra conversar
Uma interação mediada por telas não é o mesmo que em carne e osso. Afinal, a comunicação não se dá apenas com palavras — nosso corpo também é uma linguagem. Pro físico, escritor e astrônomo Marcelo Gleiser, autor de livros como A humanidade em busca de si e O despertar do universo consciente (ambos da editora Record), uma conversa de verdade só acontece ao vivo: “Uma das coisas que me preocupa é que as pessoas não se olham mais nos olhos”, disse ao The Summer Hunter durante o Rio Innovation Week em 2025. “Quando você interage através de uma tela, você não está vendo a outra pessoa, mas sim uma projeção plana dela.”
Por mais óbvio que isso pareça, parte do poder de um diálogo presencial é nos lembrar que existe outro ser humano ali. O distanciamento provocado pelas telas alimenta o que Gleiser chama de “tribalismo radical”: quando assumimos que apenas os valores da nossa tribo estão corretos e deixamos de ter abertura intelectual e emocional pra ouvir quem pensa diferente — algo que o algoritmo nos ensina a fazer muito bem.
Conversar é competir?
Nessa lógica de “só o que é meu importa”, tem quem trate conversa como disputa. Se você conta que fez uma viagem pra Salvador, a pessoa lembra que já visitou a cidade três vezes. O hotel em que você passou as férias era incrível — mas o dela era melhor. Conseguiu uma promoção? Parabéns, mas tem gente que está lidando com as responsabilidades de um cargo melhor há tempos.
Contar vantagem às vezes esconde as inseguranças que todos nós temos, mas a competição numa conversa nem sempre gira em torno do sucesso. Você viveu um término horrível? O da outra pessoa foi pior. Está sofrendo com o chefe? Pelo menos não teve um burnout como ela. Por mais que compartilhar experiências pessoais possa ajudar e acolher alguém num momento difícil, um papo não deve virar uma disputa de tragédias. O mais importante é o interesse genuíno em uma troca — que envolve escuta e abertura, inclusive pra críticas e questionamentos, e não apenas um espaço pra ser aplaudido e validado.

Licença que eu quero hablar
Nem todo mundo que monopoliza uma conversa faz isso por arrogância ou falta de educação. Tem gente que cresceu em ambientes em que criança educada era a que não falava, enquanto outras precisaram gritar pra serem ouvidas. Nesses casos, trazer o assunto de volta pra si pode ser menos uma tentativa de roubar a cena e mais uma forma meio torta de criar conexão, como explicou a terapeuta de casais e família Lauren Maher ao HuffPost. Há também quem fale demais por medo do silêncio, ansiedade ou nervosismo — o que não é raro quando 37% dos adultos dizem conviver diariamente com altos níveis de stress, segundo um estudo da Gallup de 2025.
Tem coisa que só se resolve conversando, inclusive a dificuldade de conversar. Se você conhece alguém assim (ou é você a pessoa), talvez esse comportamento diga menos sobre um indivíduo e mais sobre esse mundo frenético ao nosso redor. Antes que a vida vire um grande monólogo, ainda dá tempo de treinar essa habilidade que anda meio esquecida: ouvir.

Pra saber mais:
· Esse texto da Rosana Hermann sobre narcisismo conversacional.
· Nossos posts sobre quem conta vantagem em toda e qualquer discussão e quem vive interrompendo a fala do outro.
· Esse episódio do podcast A loucura nossa de cada dia, que expande o conceito de narcisismo e traz exemplos que vão de um imperador romano ao presidente Donald Trump.
· Esse TEDx com o jornalista premiado Charles Duhigg, que fala sobre a ciência por trás de boas conversas.

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texto: Manuela Stelzer | edição: Fernanda Nascimento
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