Você não precisa acompanhar a nova temporada de Euphoria, que estreou no mês passado, pra ficar sabendo das polêmicas envolvendo uma das séries mais assistidas da HBO. No terceiro ano da produção, a relação de Zendaya, que interpreta a protagonista Rue, com sua colega de elenco Sydney Sweeney foi apontada como um problema dentro e fora do set. A atriz que dá vida à Cassie foi acusada de se envolver em movimentos de extrema-direita, somando divergências políticas a desavenças pessoais com Zendaya.

Ainda que as brigas às vezes sejam amplificadas pelas páginas de fofoca, essa não é a primeira vez que as celebridades nos lembram que conviver com quem a gente não suporta, seja no trabalho, seja na família, faz parte da vida em sociedade.

Os irmãos Gallagher nunca superaram suas diferenças no Oasis, Mick Jagger e Keith Richards passaram décadas se estranhando no palco e teve climão entre Cauã Reymond e Bella Campos na novela Vale Tudo. Na série Grey's Anatomy, a briga foi tamanha que rendeu até um livro pra explicar como as polêmicas nos bastidores mudaram o rumo de vários personagens.

Já que nem quem é muito bem pago pra aturar o outro consegue escapar de desavenças, a gente reúne algumas reflexões e caminhos pra todo mundo que precisa enfrentar essa missão.

Mal necessário

Conviver dá trabalho — até com quem a gente gosta. Conflitos e frustrações fazem parte de qualquer relação, e aprender a lidar com o atrito é indispensável pra cultivar laços que nos estruturam. Esse é um dos pilares da inteligência relacional, um artigo em falta nesses tempos de hiperconexão e baixa tolerância pro diferente.

Tudo seria mais fácil se pudéssemos nos cercar apenas de pessoas incríveis — e que fazem valer a pena todo esse esforço —, mas a vida real implica em dividir espaço não só com quem tem outras opiniões (que podem ser construtivas), mas também com aqueles que demonstram personalidades e valores duvidosos. O problema é que a pessoa que você não suporta pode ser o vizinho de baixo do seu tão sonhado apartamento, o colega do emprego que você se desdobrou pra conseguir, um familiar próximo ou o amigo de um amigo que você ama.

Quando não há como manter distância, resta tentar cultivar uma troca minimamente saudável — pra você e pro outro. Pra isso, é preciso analisar se existe abertura pra conversa do lado de lá e se alguma conciliação é viável. Como disse o pesquisador social da Comunicação Não-Violenta Dominic Barter à Agência Pública: “Esse é um aspecto saudável de qualquer relação que vale a pena: em algum momento, a gente vai ter conflito”. Se bem intencionado, o embate pode resultar em uma aliança — ou no clássico “concordamos em discordar”.

O limite é seu

Não dá pra contar só com a cooperação do outro pra uma convivência funcionar. Às vezes é preciso concentrar esforços em si e se fortalecer pra lidar melhor com uma situação ruim.

Comece escolhendo suas batalhas: num relacionamento que já mostrou não ter futuro, será que tudo merece atenção ou algumas coisas devem ser ignoradas? Um comentário infeliz, uma provocação ou uma resposta seca não são o tipo de coisa que toleramos de um amigo, mas talvez aquele vizinho grosseiro no grupo do WhatsApp não valha nem o seu tempo.

Se decidir responder ou reagir, saiba onde está pisando: diante de teimosia, agressividade ou dificuldade de escuta, nem sempre a conversa funciona. Resta estabelecer limites claros pro convívio e, acima de tudo, estar pronto pra cobrá-los a qualquer momento.

Por incrível que pareça, é possível aprender algo mesmo com as pessoas mais intragáveis, afinal, o que incomoda no outro muitas vezes revela algo sobre nós. Entender o que engatilha seu stress ou quais comportamentos te irritam pode ajudar não só a encontrar ferramentas pra lidar com quem você não gosta, como também a cultivar relações melhores no futuro.

Trabalhando com o inimigo

A premissa da boa convivência segue sendo o respeito e a cordialidade, especialmente no universo profissional, onde ser amigo de quem está ao redor não é um imperativo. Quando resolver as diferenças se mostra impossível, a próxima saída é torná-las apenas mais suportáveis — o que não significa gostar, aprovar ou concordar com opiniões e ideais do colega. Se esquivar de assuntos polêmicos e abusar da conversa de elevador pode ser a maneira mais saudável de viabilizar o convívio não voluntário.

Como o trabalho geralmente envolve hierarquia, se a pessoa que você não suporta ocupa um cargo acima do seu, as consequências podem ser mais delicadas. Nem todo líder difícil é apenas exigente — alguns são, de fato, tóxicos. Pra diferenciar um desalinhamento de ideias de um ambiente prejudicial, a diretora do instituto britânico Chartered Management, Ann Francke, explica à BBC: “Se você sente um nó no estômago na segunda-feira de manhã, se encolhe pelos cantos pra evitar confrontos ou tem medo de se manifestar em reuniões por receio de represálias, isso é toxicidade, não um conflito de personalidade”.

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Chega!

Quando o convívio começa a afetar sua saúde e transforma o dia a dia num inferno, apesar das tentativas de diálogo e conciliação, talvez seja a hora de sair de cena. Dividir a rotina com quem não compartilha os mesmos valores é inevitável, mas pra tudo tem limite — especialmente se você está envolvido em uma relação tóxica. Uma coisa é ter que lidar com alguém difícil; outra, bem diferente, é tolerar desrespeito e humilhação. Às vezes, o melhor é pagar o preço de se afastar.

Pra saber mais:

· Esse vídeo do The Harvard Business Review Guide com dicas pra trabalhar com uma pessoa que você não gosta.
· Esse episódio do podcast Psicologia na Prática, que fala da importância dos limites e como nós influenciamos a maneira como os outros nos tratam.
· Essa matéria da Fast Company com reflexões sobre pessoas com personalidades difíceis de conviver.
· A resposta do The Ethicist, coluna do The New York Times, pra um leitor que pergunta se pode cortar relações com um amigo que foi importante em um momento difícil, mas hoje tem atitudes incompatíveis com as dele.
· O que fazer quando você não suporta o companheiro ou a companheira de um amigo? Essa matéria da BBC propõe caminhos.

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