Calcular a hora de tirar o peixe do congelador, lembrar do presente de aniversário da sogra, da vacina do cachorro ou de comprar roupas para as crianças antes que não caibam mais… São muitas as tarefas que envolvem o cuidado com a casa e a família, uma responsabilidade ainda atribuída principalmente às mulheres. Esse trabalho invisível que nunca acaba, e tampouco é reconhecido, deixa o cérebro num constante estado de alerta. E tem nome: carga mental.

Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), as mulheres são responsáveis por 76% do trabalho de cuidado não remunerado pelo mundo. No Brasil não é diferente: elas gastam quase 10 horas a mais do que os homens com a vida doméstica — o que às vezes significa encarar uma jornada dupla, dentro e fora de casa, e muita sobrecarga. Tendo como inspiração um texto da escritora Giovana Madalosso publicado na Folha de S.Paulo, a gente reflete sobre o assunto.

Cansaço invisível

Muito já se discute sobre a necessidade de dividir de maneira justa as tarefas básicas da casa, como tirar o lixo ou lavar as roupas. Mas na hora de falar de carga mental, o buraco é bem mais embaixo. Afinal, não é só sobre executar, mas também entender o que precisa ser feito pra manter uma casa funcionando — além de quando e por quem.

Planejar, lembrar, organizar, antecipar e coordenar são etapas que nem sempre entram na conta do esforço que uma tarefa exige, principalmente se o assunto é trabalho doméstico. Quando alguém, sistematicamente, pergunta o que tem pra jantar, não é só sobre preparar uma receita. Por trás dessa frase existe uma lista enorme que ninguém vê, especialmente no lar de um casal ou de uma família.

A conta não fecha

As mulheres já representam quase metade da força de trabalho no Brasil, mas definitivamente não entram no mercado profissional em pé de igualdade. Além de ganharem menos (21%, em média, de acordo com o último relatório do Ministério do Trabalho) e não ocuparem tantos cargos de liderança quanto os homens, elas ainda carregam a responsabilidade de cuidar de tudo e de todos fora do expediente. Segundo o IBGE, as mulheres dedicam semanalmente quase o dobro do tempo dos homens à casa e à família: 21,3 horas, contra 11,7 horas deles. Isso significa que, em um ano, elas gastam nessas tarefas 1.107 horas, ou 46 dias. As mulheres pretas ou pardas dedicam por semana ainda mais 1,6 hora, em média, aos afazeres domésticos.

A pesquisa “Esgotadas: o empobrecimento, sobrecarga de cuidado e o sofrimento psíquico das mulheres”, realizada pela Think Olga, mostrou o impacto dessa desigualdade na saúde mental das brasileiras. Quase metade (45%) das entrevistadas declarou possuir um diagnóstico de ansiedade, depressão ou algum outro transtorno — e os motivos se relacionam principalmente com a sobrecarga, a falta de dinheiro e a insatisfação com o trabalho. Segundo o levantamento, 57% das mulheres de 36 a 55 anos cuidam de alguém e 50% das mulheres pretas e pardas têm uma pessoa sob sua responsabilidade.

“A sobrecarga de cuidado também está relacionada a níveis mais altos de insatisfação com a situação financeira e o trabalho. Uma mulher sobrecarregada com o cuidado tem menos tempo ou condições pra se dedicar ao trabalho remunerado. Uma mulher sem renda digna tem precarizados seu meio de vida e suas condições de cuidar”, afirma o relatório. “O adoecimento psíquico é também o resultado dessa conta que não fecha e pressiona de maneira sobre-humana a saúde mental das mulheres.”

A sobrecarga é ainda maior quando a maternidade entra na conta — mesmo com o apoio de um parceiro. Um levantamento da comunidade B2Mamy em parceria com a Kiddle Pass mostrou que nove em cada dez brasileiras apresentam algum sintoma relacionado ao burnout parental. Dentre as mães solo, 12% relataram sinais de esgotamento mental grave.

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Deixa que eu te ajudo

Cortar as cebolas ou tirar o lixo quando alguém pede não significa gerenciar uma casa. Entender o que precisa ser feito, explicar a alguém como faz, acompanhar se a tarefa foi realizada e cobrar já é, em si, um trabalho — e também deve ser compartilhado.

“O ato de delegar é uma tarefa extremamente cansativa, especialmente quando a gente está falando de uma relação entre dois adultos. É tão exaustivo que as mulheres falam: ‘deixa que eu faço’”, afirmou a jornalista Isabela Reis em um episódio do seu podcast Conselhos que você pediu. “É sempre esse papo: ‘ah, é só pedir’. Mas ninguém me pediu e eu estou fazendo. Por que eu preciso pedir? Como é que você não consegue olhar o ambiente e identificar o que precisa ser feito? É de enlouquecer.”

Você é melhor nisso!

Ninguém nasce com um chip programado no cérebro pra fazer a lista de compras perfeita, deixar as roupas branquinhas, lembrar de compromissos importantes ou antecipar as necessidades de uma casa e de quem está por perto. Qualquer adulto funcional pode aprender, basta querer — e não esperar que a mãe, a esposa, a irmã, a prima ou a amiga resolvam primeiro.

“Não saber” performar o básico, fazer de qualquer jeito ou encher a outra pessoa de problemas até tornar mais fácil assumir a tarefa do que delegar é uma arma eficaz pra não levantar do sofá. Essa técnica ganhou vários nomes: incompetência estratégica, incompetência instrumentalizada, incompetência armada…

Em uma participação no programa SuperPoderosas, da Band, a criadora de conteúdo Julia Tolezano, a Jout Jout, deu um exemplo que ilustra bem o que acontece na casa de muitas mulheres: “Você diz pro seu companheiro que queria tomar um café. E ele, um homem moderno que participa das atividades da casa, fala: ‘eu vou fazer o café, meu amor, pode ficar tranquila. Só me diz onde está o filtro. E a cafeteira, onde fica? A água esquenta como mesmo? Onde a gente guarda o café?’ E aí você acaba fazendo o café”.

Primeiro passo

Como o próprio nome sugere, a carga mental nem sempre é fácil de enxergar. Afinal, está dentro da cabeça de quem sofre com ela, o que torna mais simples minimizá-la ou chamar de “bobagem” e “exagero”. Mas saber nomear de onde vem o esgotamento de uma mulher e entender que esse é um problema coletivo já é um caminho pra não ter que ouvir o tempo todo alguém perguntar o que tem pra jantar. Porque, como disse a filósofa italiana Silvia Federici, “o que eles chamam de amor, nós chamamos de trabalho não remunerado.”

Saiba mais:

· A coluna “‘O que tem pra jantar?’ e a sobrecarga mental”, da escritora Giovana Madalosso na Folha de S.Paulo.
· Este vídeo do psicanalista e escritor Thiago Queiroz, o Paizinho, Vírgula, sobre a importância da divisão da carga mental também para os homens.
· O livro Calibã e a Bruxa (Ed. Elefante), de Silvia Federici, que explica como o capitalismo transformou o trabalho doméstico em atributo feminino.
· O estudo do Lab ThinkOlga sobre economia do cuidado.
. A série Maid, da Netflix, que mostra o que acontece quando uma mãe precisa dar conta de tudo sozinha.

O Carnaval que dura quase até a Páscoa, os festejos juninos, o Bumba Meu Boi, o Festival de Parintins, as tantas celebrações pra orixás, santos e outras figuras religiosas… No Brasil, a festa não é exceção. E não porque a vida seja fácil — mas justamente o contrário. No episódio mais recente do Desenrola, nosso podcast, o professor e historiador Luiz Antonio Simas conversa com Dandara Fonseca e Gustavo Vaz sobre a nossa disposição quase teimosa de celebrar. Ouça agora!

VOCÊ SABE DELEGAR?

O verdadeiro luxo da vida adulta é ter tempo livre. E pra conseguir esse privilégio, a gente precisa aprender a delegar. Às vezes, esse processo não é simples, já que envolve admitir limites. Mas reconhecer que não damos conta de tudo é justamente o que abre caminho pra uma forma mais madura de administrar a vida dentro e fora de casa. Está precisando dessa força na divisão de tarefas, mas não sabe a quem pedir ajuda? Talvez a resposta não esteja em outras pessoas. Com o app SmartThings, da Samsung, é possível criar rotinas automatizadas pra eletrodomésticos que trabalham enquanto você foca no que realmente importa, a exemplo do Robô Aspirador de Pó Jet Bot AI, que assume a linha de frente da limpeza, e da Lava e Seca Bespoke AI, que pode ser programada pelo celular.

texto: Fernanda Nascimento

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