

A literatura talvez não sirva pra muita coisa. Afinal, ela não existe pra ser útil — nem pra informar, ensinar ou nos tornar mais inteligentes. “A leitura não faz você melhor, nem pior. A leitura só faz companhia”, escreveu Ana Lima Cecilio, editora de ficção da Record e curadora da Flip em 2024 e 2025, em uma das edições de sua newsletter, A Lábia. “A gente lê pra reconhecer a miséria do mundo, pra fazer parte de uma humanidade que raras vezes sabe pra onde está indo, pra viver um pouco o que outros vivem, pra escapar da solidão, pra rir, pra se emocionar, pra passar o tempo. A gente lê porque é bom”.
Num mundo em que tudo precisa ter uma função, fazer algo sem objetivo claro pode parecer luxo, capricho ou até perda de tempo. Mas é justamente aí que mora o valor desse hábito: quando a gente coloca a leitura no território da curiosidade, da imaginação e do descanso, ela deixa de ser uma tarefa e vira uma fonte de prazer.
Hábito em queda
É cada vez mais difícil resistir à tentação de colar os olhos numa tela pra “relaxar”. A edição mais recente da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2024) registrou, pela primeira vez, um número maior de não-leitores entre a população brasileira. 53% dos entrevistados não leram nem parte de um livro — de qualquer gênero, incluindo didáticos, bíblia e religiosos — nos três meses anteriores à pesquisa. Entre aqueles que mantêm o hábito, 24% leem por prazer. Os outros motivos passam por distração (15%), conhecimento geral (15%), crescimento pessoal (13%), aprendizado (10%), religião (8%) e demandas de trabalho ou estudo (14%). Nos Estados Unidos, esse número é ainda mais baixo. Em um estudo de 2023, apenas 16% dos americanos declararam abrir um livro por puro gosto pela leitura — contra 28% em 2004.
Se Paulo Leminski chamou a poesia de inutensílio, “daquelas coisas inúteis da vida que não precisam de justificativa porque elas são a própria razão de ser da vida”, o mesmo vale pra literatura. Ao invés de ler os livros que a gente acha que deveria ou que têm algo a acrescentar, talvez seja hora de ler sem justificativa — só porque sim.

Pelo oitavo ano consecutivo, o The Summer Hunter lança sua publicação impressa, com 140 páginas, acabamento de livro e projeto gráfico renovado. Entre os conteúdos, um especial sobre a importância da leitura, entrevistas com nomes como Monja Coen e Ailton Krenak, um guia de viagem de João Pessoa, ensaios fotográficos e visuais, reportagens que vão da febre latina ao jazz do subúrbio do Rio, passatempos e muito mais. Clique aqui e garanta a sua!
O poder da ficção
Elas não prometem salvar seu negócio nem destravar o crescimento pessoal, mas são capazes de nos levar a lugares que outros gêneros não alcançam. As histórias ficcionais apresentam novos universos e podem nos ajudar a recuperar certo encantamento com o mundo — além de estimular a criatividade, reduzir o stress, proporcionar maior longevidade cognitiva e fortalecer a memória e a concentração.

Pesquisadores da Maximilian University of Würzburg, na Alemanha, também mostraram que a ficção tem impacto significativo na maneira como assimilamos ideias e convicções diferentes das nossas. “A empatia que criamos pelos personagens é real, e essas conexões podem ser uma forma de nos sentirmos menos sozinhos, além de social e emocionalmente validados”, disse Daisy Fancourt, coautora do estudo “The decline in reading for pleasure over 20 years of the American Time Use Survey”, ao The New York Times. “Embora a leitura seja considerada uma atividade individual, quando lemos histórias, formamos vínculos com os personagens”.
Ler pra desacelerar
Pra um cérebro treinado pela velocidade da vida conectada, desbloquear o celular pra scrollar pelo feed por horas parece bem mais fácil do que abrir um livro e se concentrar em uma única atividade. Num episódio do Desenrola sobre o hábito da leitura, a psiquiatra e neurocientista Natalia Mota explicou por que os livros nos ajudam a nadar contra a corrente dos hiperestímulos: “Eles nos levam a um universo menos multimídia e muito mais imaginado, personalizado, com um tempo de atenção mais sustentada”. Em vez de receber imagens prontas, como as telas nos fornecem, o cérebro precisa trabalhar pra construir cenas, vozes, personagens e cenários — um treino valioso (e cada vez mais raro) pra nossa mente.
Criar um hábito exige muita repetição. “Hoje em dia tudo é tão imediato que, quando você tenta ler um livro, é um choque. Por isso é um exercício que precisa de esforço, principalmente no começo”, afirmou o influenciador literário Pedro Pacífico, o Bookster, nesse papo no Desenrola. Além de escolher algo que a gente realmente queira ler, é preciso insistir na pausa que o livro proporciona — mesmo que, nas primeiras vezes, ela seja interrompida pelo vício em olhar as notificações. Ao contrário das telas, a leitura pode ajudar a realmente relaxar (quem lê antes de dormir sabe bem!).

A criatividade é humana
Inteligências artificiais até escrevem, mas não dá pra dizer que elas criam. Quando pedimos ao robô sugestões pra um texto, o que ele oferece de alguma forma já existe: são milhares de criações humanas que habitam a Internet e foram transformadas em uma resposta de poucas linhas.
A IA pode ajudar a resumir algumas obras, trazer curiosidades sobre os autores (às vezes inventadas) ou indicar outros livros no mesmo caminho. Mas, mesmo com acesso a séculos de literatura, segue incapaz de reproduzir a genialidade — e, principalmente, originalidade — de Clarice Lispector, Machado de Assis ou Guimarães Rosa. Isso sem falar nas fórmulas prontas que já viraram piada: frases curtas, palavras vazias, abuso de travessões, tom bajulador e enjoativo, formato “não é sobre isso, mas sobre aquilo” etc.
Líderes das empresas por trás das IAs gostam de se gabar das habilidades incríveis de seus modelos, que já são capazes de fazer vídeos e imagens realistas, desenvolver aplicativos a partir de um prompt e resolver muitos problemas cotidianos. Mas escrever boa literatura ainda está fora da alçada das máquinas. O CEO da OpenAI, Sam Altman, disse que a expectativa pra versões futuras é conseguir, no máximo, produzir algo equivalente a “um poema razoável de um poeta de verdade”. Escrever algo pra ser lido por prazer, sem resolver, otimizar ou ganhar nada, segue sendo essencialmente humano.
Pra pensar junto
No dia 15/4, às 19h, o The Summer Hunter promove, na Livraria Megafauna do Edifício Copan, em São Paulo, uma conversa sobre o presente e o futuro do impresso no lançamento da oitava edição da nossa revista. Participam Ana Lima Cecilio, editora de ficção da Record; Isabela Di Dario, fundadora do estúdio Anna’s, responsável pelo projeto gráfico da revista; Oga Mendonça, designer, ilustrador e artista plástico; e Ricardo Moreno, jornalista e fundador do The Summer Hunter. A mediação será da consultora de criatividade Cris Naumovs.
Saiba mais:
· O episódio “Férias da tela”, do podcast Calma Urgente, sobre recesso digital, livros e outras formas de ler a realidade.
· Nossas dicas e caminhos pra curar a ressaca literária.
· Este vídeo do The Times, que analisa a ameaça ao hábito de ler por prazer.
· Nossa matéria na Folha de S.Paulo sobre por que ler ficção faz bem pro nosso cérebro.

O Desenrola está de volta — e agora em vídeo!
Toda segunda-feira, convidados especiais falam sobre os dilemas e os prazeres da vida adulta, sempre por um prisma solar. No primeiro episódio da quinta temporada, Michel Alcoforado, antropólogo e escritor best-seller, Cris Bartis, cofundadora do Mamilos, e Ricardo Moreno, do The Summer Hunter, refletem sobre o que acontece quando a gente encara o desconforto, inquietação que nasceu enquanto eles navegavam pelo Rio Negro na nossa primeira Expedição Solar. Clique e assista!

SUA TELA, SEU MUNDO

Quem nunca viveu (ou soube de) situações em que um olhar invasivo pro celular alheio ou notificações na hora errada acabaram gerando conflitos e dores de cabeça? A verdade é que ficamos vulneráveis ao abrir um app de banco, uma conversa pessoal ou até a nossa galeria de fotos em público. A boa notícia é que a tecnologia da Samsung já possibilita que só você tenha acesso à sua tela, independentemente de quem esteja ao seu lado. Com a Tela de Privacidade do novo Galaxy S26 Ultra, é possível usar o celular sem medo de vazar algum dado indesejado. Essa função permite ocultar toda a tela da visão de outras pessoas, ou escolher o que manter em privado, a exemplo de determinados apps, notificações, PINs e senhas.
texto: Manuela Stelzer | edição: Fernanda Nascimento
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