
Eles dizem ter “acordado pra verdade”, culpam as mulheres por todos os seus problemas e prometem ensinar aos homens como controlá-las pra alcançar a riqueza e o poder que sequer conquistaram. Na rede de misoginia documentada pelo jornalista britânico Louis Theroux em Por dentro da machosfera, da Netflix, influenciadores mostram que são tão hipócritas quanto perigosos — e capazes de levar o discurso de ódio muito além do universo digital. “Eles representam um machismo que é, por vezes, misógino, homofóbico, antissemita e racista. São figuras que não estão mais à margem. Sua influência já é sentida nas escolas, no ambiente de trabalho e por toda a internet”, disse Louis ao Tudum.
A rede misógina que prega superioridade masculina não é exatamente uma novidade, mas a velocidade com que esse discurso se espalha é chocante. Segundo dados da SaferNet, nos últimos oito anos as denúncias de misoginia online no Brasil cresceram mais de 800%, com média de 24 registros por dia em 2025. Amparada por plataformas que monetizam discursos criminosos e pela vulnerabilidade de crianças e adolescentes que habitam as redes sociais sem terem aprendido a se proteger delas, a machosfera invade a vida real em forma de crimes, agressões e jovens que chegam à delegacia com frases de seus ídolos estampadas na camiseta. Aqui, a gente mostra por que ainda precisamos (e muito) falar sobre esse assunto.

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Escola do crime
Num país em que o feminicídio cresceu 14,5% nos últimos cinco anos, as notícias que mostram a escalada do ódio contra as mulheres entre os jovens são assustadoras. Só nas últimas semanas, enquanto uma trend que “ensina” homens a responder com violência quando uma mulher diz não virava inquérito na Polícia Federal, adolescentes em um colégio de elite em São Paulo listavam no WhatsApp as colegas mais e menos “estupráveis” e exaltavam a figura de Jeffrey Epstein, bilionário americano denunciado por crimes sexuais.
A idolatria a homens que violentam mulheres também chamou a atenção no caso do estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro. Um dos jovens acusados do crime se apresentou à delegacia vestindo uma camiseta com a frase “regret nothing” (algo como “sem arrependimentos”), atribuída ao influenciador Andrew Tate, um dos gurus do movimento e réu na justiça europeia por crimes como estupro e tráfico humano.

Desculpa, mãe
Assim como Tate, outros influenciadores ouvidos em Por dentro da machosfera enfrentam acusações — não por seus discursos, mas por crimes na vida real. Já nas redes sociais, eles não encontram barreiras pra fazer lives agredindo pessoas na rua ou espalhar todo e qualquer discurso de ódio, mesmo que muitas vezes chamem a namorada de “lava-louças” só na frente das câmeras.
“Minha mãe ficaria decepcionada por eu falar isso. Ela odeia racismo, homofobia, sexismo. Eu não diria essas coisas perto dela. Eu levaria um tapa”, diz um dos influenciadores entrevistados no documentário. Na frente da mãe, ele explica que todo o ódio que propaga na internet é, na verdade, “só sua maneira de dizer que não se importa com nada”. E conclui: “A maioria das mulheres do mundo não é como minha mãe”.
Mercado da misoginia
A fórmula é simples: quanto mais radical o discurso, mais viralizável ele é. E, como as plataformas não impedem a monetização desses conteúdos, isso significa mais dinheiro no bolso dos influenciadores, que também lucram com a venda de cursos, consultorias, apostas e serviços financeiros.
Na queda de braço entre o governo e as empresas de tecnologia pra regulamentar as redes sociais e proteger os jovens, sobra aos pais e responsáveis a tarefa de controlar e educar sobre o uso da internet. “O quarto fechado pode ser o lugar mais perigoso pra uma criança no mundo atual”, diz o pediatra Daniel Becker. Ao jornal O Globo, ele explicou que não dá pra pensar em privacidade quando se fala em internet, já que, por definição, é um lugar público. “O crime se mudou pra esse território. É muito mais fácil ser pedófilo, golpista, ladrão ou predador de crianças online do que na pracinha, atrás da moita.”

Mulheres em perigo
O que o documentário mostra é apenas uma parte desse universo — afinal, as consequências são devastadoras pra todos, mas especialmente para as meninas e mulheres. São elas as mais vulneráveis não só aos discursos de ódio, mas à violência que nasce deles, tanto no mundo virtual quanto físico.
Na última terça-feira (24), foi aprovado no Senado um projeto de lei que criminaliza a prática da misoginia, alterando a Lei do Racismo pra tipificá-la como crime de discriminação. As penas previstas variam de 2 a 5 anos de reclusão, além de multa, mas ainda cabe decisão da Câmara dos Deputados.
A necessidade de reconhecer legalmente e criminalizar o ódio contra as mulheres mostra o tamanho do problema — mas, sozinha, essa medida não é suficiente pra protegê-las. Além da punição, é preciso desmontar essa violência em sua estrutura.
“Nossa tarefa é debater quais são as regras, pra além do direito penal, que precisaremos ter daqui pra frente pra encarar a misoginia na internet”, escreveu Mariana Valente, advogada, pesquisadora e diretora do InternetLab, no livro Misoginia na internet (2023), da Editora Fósforo. “Para o combate à misoginia, focar em lidar com o fantasma da ‘ideologia de gênero’ e do silenciamento dos debates de igualdade de gênero nos ambientes educacionais é mais urgente que pensar em punição.”

Pra saber mais:
· A série britânica Adolescência, da Netflix, que acompanha o caso de um garoto de 13 anos acusado do assassinato de uma colega.
· O estudo “Aprenda a evitar esse tipo de mulher: estratégias discursivas e monetização da misoginia no YouTube” do Observatório da Indústria da Desinformação e Violência de Gênero nas Plataformas Digitais.
· O livro Misoginia na internet (2023), de Mariana Valente (Fósforo), resultado de mais de dez anos de pesquisas do InternetLab sobre violência de gênero no digital.
· O documentário Anatomia do post, disponível no Globoplay, que retrata como o uso excessivo das redes sociais afeta os jovens no Brasil.
texto: Fernanda Nascimento
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