A morte pode até ser a única certeza da vida, mas ainda é um grande tabu. Isso torna mais difícil saber como se comportar diante do luto de uma pessoa próxima. O que dizer? Como estar perto sem invadir? Existe algo realmente capaz de consolar? São muitas as perguntas — e a verdade é que não existe resposta certa pra nenhuma delas. Mas evitar o assunto não é o melhor caminho: pra aprender a lidar com a morte, precisamos falar sobre ela.

Cada um vive o luto de um jeito. Por isso, apostar na sensibilidade e confiar na relação que você tem com quem está passando por esse momento faz mais diferença do que qualquer manual. Nada é mais acolhedor do que mostrar que está por perto — seja com palavras, seja com gestos, companhia ou uma visita. A seguir, trazemos esse tema pro centro da conversa.

Presença > palavras

O luto pode isolar quem está sofrendo, já que muitas vezes a sensação é de que ninguém é capaz de compreender sua dor. Pode ser que a pessoa recuse as tentativas de aproximação e apoio, mas o papel de quem quer consolar é fazê-la se sentir incluída, como explica a jornalista Cynthia Almeida, uma das fundadoras do projeto Vamos Falar Sobre o Luto: “Nada que você disser vai mudar o rumo do luto da outra pessoa. O importante é que ela não se sinta ainda mais sozinha nesse processo.”

Durante os rituais de despedida, ir ao velório, mandar flores ou oferecer ajuda com burocracias é uma maneira de estar por perto. Mas o luto não termina ali. Quando os pêsames diminuem e a vida ao redor parece seguir em frente, a solidão pode aparecer com ainda mais força. Faça um agrado. Esteja aberto a conversar. Ofereça auxílio em atividades cotidianas. Convide pra sair. Atos de serviço contam, e muito, no léxico da perda — mesmo que a resposta seja “não”.

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O que não dizer

É natural recorrer aos clichês que aprendemos pra consolar alguém em luto. Mas pensar sobre o que essas frases realmente significam ajuda a não soltar algo que machuque o outro. Falar que a pessoa que morreu “está em um lugar melhor” ou que “Deus quis assim”, por exemplo, talvez não seja a melhor maneira de acolher alguém que não acredita em vida após a morte ou que não segue uma religião. Antes de afirmar que uma perda “foi melhor assim”, que tal entender se esse é o sentimento de quem está sofrendo por ela?

O senso comum pode funcionar na hora de acolher — não é preciso ficar em silêncio ou se afastar por medo de dizer algo inconveniente. Mas se você não conhece os detalhes e as complexidades de uma morte, evite preencher o silêncio com expressões vazias pra poupar o próprio desconforto. Um abraço seguido de um “sinto muito” ou de “meus sentimentos” já é muita coisa.

“Eu sei o que você está sentindo”

Mesmo que você já tenha perdido alguém, a maneira como enfrentamos o luto é totalmente singular. Em vez de ajudar, dizer como a outra pessoa deveria se sentir pode gerar aversão e até ser confundida com uma tentativa de protagonismo — melhor deixar o “eu” de lado e direcionar a atenção ao enlutado.

Alguns vão chorar muito, outros não vão derrubar uma lágrima. Há quem goste de falar sobre quem se foi, mas também há quem prefira o silêncio. “Nenhuma reação à morte é errada ou equivocada”, diz Cynthia Almeida. “Naturalizar o luto não é subestimá-lo. O fato de que todos vamos passar por isso um dia não torna o sofrimento menor”.

Assim como não há cartilha pra consolar alguém, o luto tampouco segue uma ordem previsível. O tempo pode, sim, amenizar a dor, mas também pode aprofundá-la e torná-la parte do dia a dia de quem ficou. A escuta e a presença continuam sendo as melhores maneiras de compreender o que o outro está sentindo.

Luto dos pequenos

Se já é difícil falar sobre o assunto com os adultos, tudo fica ainda mais delicado na hora de tratar da morte com as crianças. Curiosas, elas não hesitam em procurar respostas para os “porquês” mais difíceis de responder. Metáforas como “virou estrelinha” ou “foi fazer uma viagem pra longe” podem confundir os pequenos, alimentar expectativas de retorno, angustiá-los e até fazê-los se sentir enganados.

Conversar sobre quem se foi, mantê-lo vivo na memória e abrir espaço pra tirar dúvidas não acaba com a dor, mas cria um espaço seguro pra elaborar a perda. “O problema não é o luto, mas quando não se faz o luto”, afirma a psicóloga Ceres Alves de Araujo, em entrevista à Gama.

Nessas horas, apoiar-se em livros e filmes, como Menina Nina, do Ziraldo, e Viva — a vida é uma festa, pode ajudar a navegar o tema com as crianças. Nada substitui o diálogo, mas a literatura do luto ajuda a responder certas questões, e pode servir inclusive pra elaboração da perda dos adultos.

Pra saber mais:

· O episódio “Pensar na morte pra viver melhor”, do podcast Desenrola.
· Essa matéria da Gama, que dá dicas pra acolher o luto do outro, e esse texto do Uol, que sugere o que não dizer pra alguém que está sofrendo.
· O livro Enquanto você está aqui (2026), de Camila Appel, que propõe maneiras de falar sobre a morte antes que seja tarde demais.
· Os títulos A ridícula ideia de nunca mais te ver (2019), de Rosa Montero, e Todo tempo que existe (2022), de Adriana Lisboa, que versam sobre o luto em primeira pessoa.

texto: Manuela Stelzer | edição: Fernanda Nascimento

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