

O homem plenamente funcional ainda é raridade. Não por falta de capacidade cognitiva ou habilidade prática, mas por costume social: eles crescem sem ser incentivados a perceber demandas, antecipar necessidades e assumir responsabilidades cotidianas. Desde cedo, são autorizados a ocupar o espaço doméstico como usuários, não como gestores. O resultado é uma rotina sustentada por um trabalho invisível e feminino — emocional, logístico e mental. Mas as mulheres estão exaustas. Tanto de carregar esse peso quanto de precisar reivindicar o óbvio: a distribuição igualitária das tarefas, dos perrengues da casa e de todo mundo que vive dentro dela. E também de ter que ensinar, lembrar, delegar, supervisionar e agradecer pelo mínimo.
Não à toa, All Her Fault, disponível no Prime Video, tem gerado tanta discussão e engajamento. Protagonizada pela atriz australiana Sarah Snook (a toda-poderosa Shiv Roy de Succession), a série propõe questionamentos sobre as dinâmicas estruturais da nossa sociedade, especialmente em relação à maternidade, responsabilidade e expectativas de gênero. Mas, caso alguém se distraia entre tantos mistérios e reviravoltas, e assista a todos os episódios sem pescar os recados nas entrelinhas, aqui vai um guia prático de como ser um adulto de verdade dentro de uma casa.
“Ajudar” não é suficiente
Não é só lavar a louça ou a roupa quando alguém pede, mas fazer a lista de compras, saber onde as coisas estão guardadas (a começar pelas suas próprias), marcar consultas, resolver problemas e dar conta de responsabilidades que são de todos, não importa o gênero. Se você só se levanta do sofá e realiza suas tarefas quando uma mulher pede, não se vanglorie. Ser funcional é assumir as demandas com autonomia, e não esperar alguém dar a mão e guiar o caminho. A lógica da “ajuda” mantém a ideia de que a responsabilidade original é da outra pessoa — e isso é exatamente o que precisa mudar.
Não é extraordinário
Lavou um prato, trocou uma fralda, foi o primeiro a perceber que o lixo estava cheio e colocou pra fora? Ótimo. Mas saiba que você não é um herói. Está apenas fazendo a sua parte. O problema não é o reconhecimento pontual, mas a expectativa cultural de aplausos por comportamentos que são, na verdade, obrigações básicas de qualquer adulto. Normalizar o básico é um passo importante pra relações mais equilibradas.

O invisível que sustenta o todo
Mais do que ir ao mercado, é saber quando ir e o que precisa comprar. Planejar refeições, lembrar horários, antecipar imprevistos, saber onde guardar as coisas: tudo isso faz parte de uma carga mental que recai majoritariamente sobre as mulheres — muitas vezes, sem que os homens sequer percebam. Essa gestão constante consome energia cognitiva e emocional. Dividir tarefas sem repartir o planejamento ainda é desigualdade. Quem pensa, organiza e coordena continua sobrecarregada.
“Ah, mas eu não sei fazer!”
Aprenda. Fazer arroz, fritar um ovo e escolher o produto certo pra limpar o chão não são habilidades secretas. Além disso, nenhuma mulher nasce sabendo essas coisas. Aprender leva tempo, é verdade. Mas repetir o básico mal feito também pode ser estratégia — consciente ou inconsciente — pra ser dispensado da função no futuro (estamos de olho). Competência doméstica se constrói com prática, exatamente como qualquer outra habilidade na vida adulta.
Cuidar também é papel do homem
Ler o entorno, antecipar necessidades e agir sem ser solicitado são atitudes que fazem parte do cuidado com a casa, com os filhos e com os mais velhos — e nada disso ameaça a masculinidade. Pelo contrário: responsabilidade, confiabilidade e presença são atributos de maturidade (o que é extremamente sexy). Além de não diminuir ninguém, o cuidado ainda fortalece relações e cria ambientes mais saudáveis pra todos.

Seu trabalho não é mais importante
Todo adulto tem responsabilidades profissionais. É hora de buscar a criança na escola e ambos estão presos em demandas de trabalho? Ok, discutam e encontrem juntos uma forma de se revezar. Não é dever apenas da mulher abrir mão do resto da vida em prol do cuidado. Entenda: o que é normal pro homem ainda gera julgamentos pra mulher. Ao priorizar a carreira, muitas são criticadas socialmente por “delegar” a criação dos filhos a outra pessoa. Tudo seria diferente caso a divisão de tarefas fosse realmente igualitária, desde políticas públicas (como licença-paternidade mais longa e efetiva) até a rotina doméstica.
Não subestime a capacidade
Homens são seres humanos perfeitamente capazes de memorizar a agenda de uma criança, saber onde as fraldas estão guardadas e entender quanto tempo a papinha precisa ficar no micro-ondas — sem precisar perguntar pra uma mulher.
A responsabilidade sempre é sua também
Ao deixar milhares de decisões e tarefas na mão de uma mulher, seja por comodidade, seja por achar que “as coisas são assim”, saiba que: se algo der errado, também recai sobre você. Além disso, existe uma dimensão emocional importante: quando um homem assume responsabilidades espontaneamente, ele comunica parceria, respeito e compromisso. As relações não se sustentam só em amor romântico, mas em colaboração concreta. Ser funcional não é fazer “favor”; é sobre construir um cotidiano onde ninguém se sinta sozinho carregando tudo.

Pra saber mais:
· O romance Ensaios de despedida (Record, 2025), de Elisama Santos.
· Este vídeo sobre burnout feminino, da psicanalista Maria Homem.
· O episódio sobre esgotamento e carga feminina do Bom dia, Obvious.
· A série Maid, da Netflix, sobre o cansaço da mãe solo.
· O filme (Des)controle, protagonizado por Carolina Dieckmann, em cartaz nos cinemas.
· O livro Manifesto Antimaternalista (Zahar, 2023), da psicanalista Vera Iaconelli.
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texto: Adriana Setti
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