

Pode ser difícil acessar essa memória, mas, na infância, criar é quase instintivo: a gente desenha, canta e inventa mundos sem se perguntar se está fazendo tudo “certo”. Esse conceito, aliás, não existe na brincadeira: performance e produtividade não fazem parte do vocabulário do parquinho e o que importa é a diversão. Já no mundo adulto…
Não tem escapatória, sabemos. Os boletos chegam e a cobrança por resultados, também. Crescer inverte as prioridades: brincar vira perda de tempo e errar, motivo de vergonha. Aos poucos, trocamos o prazer de criar pela eficiência e, com isso, perdemos o direito ao improviso, à curiosidade e ao ócio fértil. O problema é que, quando só inventamos pra gerar algum resultado prático, a fonte da criatividade começa a secar. Pra inspirar um mundo mais criativo, eis algumas reflexões.

Criatividade: pra que te quero?
Há quem acredite que criatividade é questão de talento — um privilégio restrito a artistas ou pessoas “fora da curva”. Mas não é bem assim. A criatividade não é um dom raro: ela corre pelas veias de todos os seres humanos e pode trazer benefícios bem concretos pra vida de quem exercita a imaginação.
Pesquisas associam práticas criativas à felicidade e ao bem-estar, além de mostrarem que elas aumentam nossa energia, afinam a capacidade de resolver B.O.s e funcionam como um antídoto poderoso contra o burnout. A longo prazo, também ajudam a manter o cérebro em forma: um estudo de 2021 mostrou que pessoas mais velhas que participavam de atividades criativas tinham menor declínio cognitivo do que aquelas que não participavam.
Em entrevista ao The New York Times, Elizabeth Gaufberg, que é professora de medicina e psiquiatria da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, disse que a questão vai além de praticar a criatividade: entrar em contato com ela, em exposições de arte, por exemplo, já é um bom caminho. Além disso, torna as pessoas mais empáticas e abertas. Isso porque essas experiências ajudam a tolerar ambiguidades, ampliam pontos de vista e mantêm a curiosidade (gatilho essencial do processo criativo) viva.

Bela adormecida
Se criar parece uma habilidade que ficou pra trás junto com a infância — calma. Não é o fim da linha. É possível recuperar essa capacidade e, não, não precisa mudar de carreira, nem fazer curso de cerâmica.
Assim como ganhar elasticidade exige alongamento, desenvolver a criatividade é um processo. E a boa notícia é que ele pode (e deve) ser prazeroso. Um bom começo é resgatar atividades ou hobbies que faziam você vibrar no passado e que, por falta de tempo, rotina apertada ou cobranças externas, acabaram ficando de lado.
Vale tentar trazê-los à vida adulta: se você adorava cantar no coral da escola, use e abuse do chuveiro, do carro ou de uma ida ao karaokê com os amigos pra soltar a voz de novo. Sente falta de desenhar sem compromisso ou curte de escrever poemas? Ande sempre com uma caneta — qualquer guardanapo de restaurante pode ser o papel em branco que faltava.

Menos pressão
Mais importante do que o que você faz é como você se coloca diante da criação. Vergonha, medo de errar e obsessão por desempenho são inimigos da imaginação. Ter uma postura mais “infantil”, no bom sentido, e se permitir brincar é um dos caminhos mais diretos pra uma vida mais criativa. O psiquiatra norte-americano Stuart Brown, autor de Play: How it Shapes the Brain, Opens the Imagination, and Invigorates the Soul, defende que a brincadeira desenvolve adaptabilidade, inteligência e capacidade de resolver problemas. Em tempos difíceis, precisamos disso mais do que nunca, pois reforça nossa aptidão de lidar com o inesperado.
Desmonetize-se!
Na era dos jobs, é tentador transformar qualquer atividade em fonte de renda. Mas, segundo o designer de brinquedos Cas Holman, autor de Playful: How Play Shifts Our Thinking, Inspires Connection, and Sparks Creativity, monetizar um hobby pode drenar sua potência criativa. Quando vira obrigação, deixa de ser espaço livre. E, quando tem dinheiro em jogo, voltamos à estaca zero: produtividade acima de tudo.
Criar não pede manual, e sim o contrário: menos restrições e menos regras. O que estimula a criatividade é poder se levar menos a sério, poder errar, improvisar, rir de si mesmo e tentar de novo — não tem problema algum ser ruim ou mediano naquilo que você se propôs a fazer só pra se divertir.

Tela não é diversão
Os adultos que hoje sofrem com a criatividade atrofiada ainda podem recorrer às lembranças da infância pra recuperar o instinto criativo. Mas e as crianças que, em vez de inventarem mundos e brincadeiras, vivem presas ao celular?
O uso de dispositivos eletrônicos entre os pequenos só cresce — e os efeitos são preocupantes. Evidências científicas associam as telas a alterações em áreas cerebrais ligadas ao desenvolvimento da linguagem, à regulação emocional e ao controle de impulsos. Além da atenção, da memória, da cognição social e das habilidades socioemocionais que caem em desuso à medida que as crianças crescem em frente às telas.
Nosso tempo livre não é muito diferente: bastam minutos de folga pra recorrermos ao scroll infinito do feed. Não é pra demonizar os celulares, afinal, eles têm funções primordiais, inclusive para as crianças. Mas é importante que nem todo momento de ócio seja gasto dessa maneira. Há muitas opções mais criativas e prazerosas que podem afastar você do caos das notícias, das telas e das urgências desnecessárias — o que definitivamente não ajuda a acessar o seu lado mais lúdico e divertido.
Pra saber mais:
· As atividades diárias do "The Creativity Challenge", propostas pelo The New York Times.
· O episódio "Não se leve tão a sério", do podcast Para dar nome às coisas, da jornalista Natália Sousa.
· A matéria "How to rediscover your creativity in 3 simple steps", da Vox.
· A reportagem "Bons motivos para não se levar tão a sério e fazer sua criança interior aflorar", publicada na Folha de S.Paulo em parceria com o The Summer Hunter.

BORA ATIVAR O MODO "EU ME PERMITO" NESTE VERÃO?

No calor, todo mundo merece um refresco. Como uma espécie de licença poética da rotina, o verão é a época em que a vida desacelera e os encontros ganham mais espaço naturalmente. É tempo de dizer mais sim do que não, de pular um treino sem culpa, de topar um drink em plena terça-feira. Isso vai resolver a correria do resto do ano? Não. Mas ajuda você a descansar, se divertir e encarar tudo com mais leveza. Pra entrar no modo “eu me permito”, nada melhor do que um brinde que combina com a vibe do verão: Jim Beam é o BOURBON Nº 1 DO MUNDO, que está há oito gerações na mesma família e tem uma refrescância que é só dele, perfeita pra acompanhar os momentos mais leves da estação mais quente (e festiva!) do ano. Veja receitas de drinks. Aprecie com moderação. Não compartilhe com menores de 18 anos.
texto: Manuela Stelzer | edição: Adriana Setti
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