A decisão de morar em outro país, ou até mesmo outra cidade, pode ser uma das mais acertadas da vida. A mudança costuma ser libertadora, amplia repertórios e traz aprendizados profundos. Mas isso não significa que seja fácil. Pra além das complexidades que já destrinchamos nesta newsletter recente, o processo de se afastar das pessoas queridas tem um preço emocional: a culpa. Com base em uma entrevista com a psicóloga Nati Dalpiaz, da Prô Mundo Psicologia, empresa especializada em cuidar da saúde mental de brasileiros no exterior, a gente fala sobre como lidar com esse sentimento, sem precisar abrir mão do caminho que escolheu.

Múltiplas camadas

De acordo com Nati, a culpa nasce, em grande parte, do choque entre quem acreditamos ser e quem achamos que deveríamos ser. No processo migratório, essa tensão se intensifica: mudamos de país, mas também mudamos internamente, embaralhando papéis, expectativas e identidades. É o que a psicóloga chama de culpa psicológica, um autojulgamento que surge quando nossas escolhas confrontam a imagem interna que construímos de nós mesmos.

Já a culpa relacional está ligada aos vínculos afetivos e à ideia de pertencimento. Ela aparece quando sentimos que nossas decisões (como migrar) impactam as expectativas de quem amamos. Por fim, a culpa cultural diz respeito aos valores e normas aprendidos socialmente. Pra brasileiros, essa camada tende a ser ainda mais complexa.

Avaliando o contexto

Na prática, a culpa cultural cria uma hierarquia implícita de justificativas. Mudar pra ganhar dinheiro e ajudar a família? Ok. Sair pra estudar e melhorar a vida de pessoas próximas? Também costuma ser socialmente validado. Agora, vontade de explorar o mundo, curiosidade ou qualquer motivação mais ligada ao desejo pessoal? Aí o surge o conflito.

Esse sentimento pode aparecer mesmo que a pessoa tenha uma família e uma rede que incentivem o movimento realizado. Afinal, as expectativas do outro e da sociedade continuam dentro de si. O aval de quem fica ajuda a equilibrar um pouco as coisas, enquanto cobranças ou comentários alheios acabam intensificando esse peso emocional.

Quem vai e quem fica

Se distanciar de pessoas com quem você conviveu por anos — às vezes, pela vida inteira — nunca é simples. A culpa aparece tanto pela ausência nos grandes marcos, a exemplo de aniversários, casamentos, velórios etc., quanto pela falta dos pequenos momentos: o cotidiano compartilhado, as datas sem importância aparente, o simples estar por perto. Esse sentimento costuma se intensificar quando há crianças que você gostaria de ver crescer ou quando pais e outras pessoas queridas já estão mais velhos. Surge a sensação de estar abrindo mão de anos preciosos e únicos por uma escolha própria.

Como manter os laços?

O primeiro passo é conversar — antes, durante e depois da mudança. Não se trata de convencer ou justificar a decisão, mas de acolher, com cuidado, paciência e clareza, os sentimentos do outro, sem anular a própria escolha. Vale reconhecer que pais podem sentir medo de ficarem sozinhos, especialmente na velhice, ou que um companheiro possa se sentir apreensivo diante de um relacionamento à distância. E, do outro lado, também é importante que essas pessoas entendam que a mudança é uma vontade legítima e algo significativo pra você.

Estabelecer uma frequência de contato e criar rituais de cuidado e conexão que caibam na nova rotina ajuda a reduzir tensões. É natural querer dar conta de tudo, mas expectativas irreais — “não consegui ligar todos os dias dessa semana, e agora?” — acabam alimentando a culpa dos dois lados.

No mais, é preciso reconhecer que alguns laços mudam, e tudo bem. Quando alguém sai pro mundo, as relações entram em processo de adaptação. Se o outro se importa e deseja continuar fazendo parte da sua vida, vai se esforçar, à sua maneira e no seu ritmo, pra adaptar essa relação junto com você.

Conquistas e renúncias

Quando a família ou as relações são disfuncionais, pode ser inviável (e indesejado) manter os laços. Nesses casos, a jornada tende a ser muito mais autônoma, tanto na forma de lidar com a culpa associada à ausência quanto na redefinição dos vínculos que ainda fazem sentido. A distância, inclusive, pode ser terapêutica. A partir daí, o esforço passa a ser direcionado à construção de uma rede de apoio no novo lugar.

Em momentos de conflito interno, é comum que as perdas ocupem mais espaço mental do que os ganhos. A psicologia chama isso de viés da negatividade — a tendência de dar mais peso ao que dói do que ao que fortalece. Relembrar constantemente os motivos que levaram à mudança e reconhecer as conquistas do caminho ajuda a reequilibrar essa percepção. Toda escolha envolve renúncias, mas também abre possibilidades.

Pra saber mais:

· O livro Mudar: Método (2024), de Édouard Louis.
· Este episódio sobre a experiência de morar fora do país, do podcast Estamos Bem?
· Nosso post sobre o sentimento da culpa e esse outro com uma reflexão: ir embora é a solução?.
· Essa matéria do Público sobre o dilema de mudar pro exterior e deixar os pais idosos no Brasil.

A MELHOR TRADIÇÃO DE FIM DE ANO É A SUA

Tradição é o que a gente escolhe repetir porque faz sentido, não importa se existe só na nossa casa e família. Longe da neve, do frio e das renas da Lapônia, os rituais de fim de ano à brasileira vão, pouco a pouco, contando quem somos: tropicais, solares e diversos. Mas, entre tantos hábitos de Natal e Réveillon, um não pode nunca faltar: celebrar ao lado de quem a gente ama. E, no calor do verão, nada melhor do que brindar com Jim Beam, o Bourbon Nº 1 do Mundo, que está há 230 anos e oito gerações na mesma família e tem uma versatilidade que é só dele, perfeita pra acompanhar os melhores momentos da estação mais quente (e esperada!) do ano. Clique aqui pra se inspirar em receitas de drinks como o Jim Beam Tea & Lime, com chá mate, limão e gelo. Tim tim! Aprecie com moderação. Não compartilhe com menores de 18 anos.

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texto: Dandara Fonseca | edição: Adriana Setti

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