Entre a Revolução Industrial e a década passada, a imagem do sucesso no trabalho não passou por grandes transformações. Até então, a trajetória parecia bem definida e linear: gerenciar equipes, acumular responsabilidades, conquistar a sala da chefia e chegar ao tão idealizado topo. E, no processo, trabalhar duro, lidar com pressões, abrir mão da vida pessoal e, eventualmente, colher os frutos.

É claro que esse ainda é o caminho “natural” — e o objetivo profissional — de muita gente. Mas, pra um número crescente de jovens, ter um trabalho que não prejudique a saúde mental, ofereça segurança e proporcione uma rotina equilibrada vem sendo encarado como o verdadeiro sucesso. O que antes era sinônimo de ambição hoje soa como um risco direto à qualidade de vida. Esse novo jeito de olhar pra carreira já tem até nome: minimalismo profissional.

O mantra é: trabalhar menos, viver mais

Enquanto a maioria dos millennials cresceu acreditando que o sucesso profissional exigia abrir mão de muita coisa — inclusive da saúde mental, se fosse o caso —, a Geração Z está menos disposta a pagar esse preço. À medida que ganham experiência, os jovens entendem que, embora o salário seja importante, nada justifica transformar a vida em um eterno plantão.

Essa mudança de perspectiva surge em um período histórico marcado pela precarização das relações de trabalho, por sucessivas instabilidades econômicas e pela dissolução das fronteiras entre vida pessoal e profissional, especialmente depois da pandemia. Não à toa, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu o burnout como um fenômeno ocupacional em 2019, e a classificação passou a vigorar no Brasil em 2022.

Uma nova ambição

Em meio a essa insatisfação geral, o chamado minimalismo profissional surge como um movimento que defende uma abordagem mais consciente e sustentável do trabalho. Ou seja, mais alinhada com aquilo que realmente importa pra cada indivíduo.

Um dado recente do Glassdoor ajuda a entender essa virada: 68% dos trabalhadores nascidos até 2010 afirmam que não buscariam cargos de liderança a menos que a compensação fosse muito alta. Não se trata de falta de ambição, mas de outros valores.

O que a Geração Z valoriza, afinal?

Em vez do prestígio associado aos cargos, os jovens de hoje desejam estabilidade emocional, segurança financeira e um estilo de vida que não seja engolido por reuniões intermináveis, metas inalcançáveis e jornadas que se estendem noite adentro. Ao procurar emprego, priorizam flexibilidade, rotinas possíveis, horários ajustáveis, empresas que respeitam limites, ambientes diversos e vínculos que não demandem dedicação irrestrita. Também buscam alinhamento de valores — trabalhar em lugares que não contradizem aquilo que acreditam. Férias remuneradas, estabilidade e relações de trabalho éticas fazem parte dessa nova definição de sucesso.

Poligamia profissional

Com o custo de vida elevado e salários que muitas vezes não acompanham a inflação, muitos jovens acumulam mais de uma fonte de renda pra fechar as contas. Esse fenômeno, às vezes chamado de “poligamia profissional”, nasce menos do desejo de performar e mais da necessidade. Nesse contexto, recusar responsabilidades excessivas ou evitar funções de liderança não é acomodação, mas uma forma concreta de preservar a saúde mental e garantir a sobrevivência financeira sem comprometer todo o tempo disponível.

Operando sob uma nova lógica

É importante frisar que o minimalismo profissional não sustenta a ideia, muito repetida no mercado, de que a Geração Z é preguiçosa ou descomprometida. Os jovens adultos atuais viram pais e irmãos mais velhos adoecerem emocionalmente por causa do trabalho. Experimentaram, desde cedo, ambientes corporativos que falavam sobre bem-estar enquanto naturalizavam culturas de sobrecarga. E assistiram às promessas de meritocracia se desfazerem diante de crises econômicas que mostraram que esforço nem sempre se converte em oportunidade.

Depois de ver (e viver) jornadas exaustivas, abusos emocionais e modelos de produtividade que ignoram limites humanos, essa geração simplesmente escolhe não repetir o mesmo caminho. O que está em jogo é outra lógica, segundo a qual até parte dos jovens que já ocupa cargos de liderança adota posturas mais equilibradas, repensa expectativas e tenta quebrar ciclos de sobrecarga.

O minimalismo no trabalho defende que fazer além do necessário nem sempre traz benefícios; que colocar a saúde mental acima da escalada na hierarquia pode ser a escolha mais inteligente; e que um emprego não precisa ditar a identidade de ninguém. Em vez de uma forma de existir no mundo, o trabalho passa a ser apenas um dos elementos que compõem uma vida mais ampla, na qual relações pessoais, tempo livre, descanso, propósito e bem-estar ganham espaço.

Pra saber mais:

· Esta reportagem da revista Fortune.
· O episódio do The Summer Hunter Vozes, nosso podcast, sobre ser feliz no trabalho.
· Nosso post com uma lista de sinais pra você checar como anda a saúde do seu intestino.
· Esta lista de livros sobre felicidade e trabalho da Fast Company, que também fez esta reportagem sobre jovens que não querem ser chefes.

O tempo que escolhemos passar a sós pode nos trazer vários benefícios, como um aumento na criatividade e mais energia na hora de ver a galera. Mas, por vários motivos, entre eles o celular, ficar na companhia apenas dos nossos pensamentos têm se tornado cada vez mais difícil. Esta semana no The Sumemr Hunter Vozes, revisitamos o episódio em que a psicanalista Maria Homem e a jornalista e escritora Natália Sousa, do podcast Para das nome às coisas, conversam sobre solidão e solitude. Ouça agora!

texto: Adriana Setti | edição: Dandara Fonseca

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