O celular virou um companheiro fiel em praticamente todas as situações da nossa rotina, das refeições ao transporte público, passando pelo banheiro. Se há quem leve o aparelho até pra dentro do box — mesmo que o sistema operacional sofra com tanta umidade —, muita gente já considera impensável sentar no vaso sanitário sem uma tela pra encarar. Usamos essa “pausa” pra mandar mensagens, ler notícias, checar o e-mail, rolar os feeds das redes sociais…

Pra muita gente, esquecer o celular nesse momento íntimo é quase tão aflitivo quanto constatar a falta de papel higiênico: minutos sem estímulos são longos demais. Mas, pra além da quantidade de germes que podem se acumular no aparelho durante esse tempo de portas trancadas, quais consequências esse hábito pode trazer pro corpo — e especialmente, pro intestino? Aqui, a gente reflete sobre o assunto.

Consequências desagradáveis

Um estudo norte-americano recente, publicado na revista científica PLOS One, avaliou 125 pacientes submetidos a colonoscopias e constatou que os que tinham o hábito de usar o celular enquanto resolviam suas questões fisiológicas — cerca de dois terços do grupo — apresentavam 46% mais risco de desenvolver hemorróidas.

Segundo explicou ao The New York Times a gastroenterologista Trisha Pasricha, coautora da pesquisa, quem levava o telefone pro vaso tinha cinco vezes mais probabilidade de permanecer lá por mais de cinco minutos. O excesso de tempo nessa posição exerce uma pressão prolongada sobre os tecidos retais, aumentando o risco de inflamação no reto inferior e no ânus.

Daria na mesma ficar ali um tempão lendo uma bula de remédio? Sim. A diferença é que, com o scroll infinito das redes, as chances de perder a noção do tempo são muito maiores.

Não para por aí

Mais estudos ainda são necessários, mas pesquisadores acreditam que outro possível efeito de “morar” no vaso seja a prisão de ventre — problema que afeta de 20 a 30% da população brasileira, de acordo com a Sociedade Brasileira de Coloproctologia. Conforme esclarece o gastroenterologista Eamonn Quigleys ao The New York Times, quando nos inclinamos pra frente — algo quase automático ao segurar o celular no banheiro — mudamos o chamado ângulo anorretal, deixando a passagem mais estreita e dificultando a evacuação.

Em casos mais graves, o hábito pode levar ao enfraquecimento dos músculos e tecidos pélvicos e até ao prolapso retal, que acontece quando a parte final do intestino sai parcialmente ou totalmente pelo ânus.

Papel importante

Quem nunca ficou tão ansioso que acabou sentindo o estômago revirar? Ou então aquele frio na barriga antes de viver um momento importante? O chamado eixo intestino-cérebro é a conexão direta e constante entre o sistema digestivo e o sistema nervoso central. Essa comunicação acontece por meio de nervos (principalmente o nervo vago), hormônios e moléculas produzidas pelas bactérias que vivem no nosso intestino — a microbiota intestinal.

Nos últimos anos, diversos estudos científicos não apenas confirmaram essa ligação, como também mostraram o quanto um intestino saudável influencia o cérebro e o sistema imunológico. Afinal, é lá que se concentra cerca de 70% das células de defesa do corpo. Ou seja: num momento em que tanta gente se preocupa com a saúde intestinal, é curioso (ou até contraditório) manter um hábito que pode prejudicá-la.

Deixando a mente vagar

Mas não é só sobre o intestino. A necessidade de levar o celular pro banheiro revela algo maior: a nossa dificuldade de ficar alguns minutos apenas com os próprios pensamentos. Um estudo famoso, publicado na revista Science em 2014, chegou a constatar que a maioria das pessoas prefere fazer qualquer outra coisa a ficar sozinha, em silêncio, sem nenhum estímulo digital — até levar um pequeno choque.

Além do vício em telas, esse desconforto pode vir do medo de encarar lembranças desagradáveis, remoer discussões ou revisitar memórias tristes. Mas dar espaço pra mente vagar tem seus benefícios. Uma rápida ida ao banheiro pode ser uma forma de relaxar o corpo, desacelerar e criar uma pausa entre uma coisa e outra. Também é um ótimo jeito de estimular a criatividade. Quem nunca teve uma ideia de projeto no banho ou achou a solução pra um problema enquanto tentava dormir?

É um treino: passar tempo intencionalmente a sós com seus pensamentos ajuda a tornar esse processo mais fácil e até prazeroso. Treinar, tomar banho, lavar louça, fazer faxina e, claro, ir ao banheiro — todos esses podem ser um bons momentos pra viver a vida sem o excesso de estímulos.

Pra saber mais:

· Esta matéria da Vox com dicas de como ficar sozinho com os seus pensamentos.
· Este livro de Camila Rowlands sobre a conexão entre intestino e cérebro.
· Nosso post com uma lista de sinais pra você checar como anda a saúde do seu intestino.
· Este episódio do podcast Platitudes, de Leandro Karnal e Gabriela Prioli, sobre vício em celular.

texto: Dandara Fonseca | edição: Adriana Setti

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