

“Quem vai cuidar de mim na velhice?” A resposta pra essa questão nunca é simples. Nem pra quem tem filhos, responsáveis naturais por essa tarefa segundo a lei brasileira e aos olhos da sociedade — o que nem sempre acontece na prática. Além disso, cada vez menos gente pode cogitar contar com essa possibilidade.
O número de idosos no Brasil dobrou em menos de 20 anos. E a taxa de fecundidade chegou ao menor nível da história: 1,55 filho por mulher, segundo dados do Censo 2022. Nesse contexto — e pra driblar a solidão, que pode trazer sérias consequências à saúde e ao bem-estar —, vem ganhando força uma nova forma coletiva de envelhecer: o cohousing. Ou seja, um modelo de moradia colaborativa em que um grupo de pessoas vive em casas independentes, mas divide espaços, serviços e decisões comunitárias, além de cafés, papos e boas risadas.
Modelos de cohousing
O cohousing surgiu na Dinamarca, por volta de 1970. A ideia era simples, mas inovadora: criar comunidades colaborativas em que os moradores pudessem cuidar uns dos outros, sem depender de familiares ou instituições. “Trata-se de uma filosofia que nutre a segurança emocional e surge como resposta ao isolamento, conferindo senso de pertencimento e propósito, além de combater a solidão, um dos maiores fatores de risco pra depressão em idosos”, explicou a psicóloga Mariana Simões à Veja Rio.
Podem ser casas lado a lado, apartamentos em um mesmo prédio, condomínios ou até uma fazendinha. Ninguém precisa dividir o mesmo teto. O importante é reunir pessoas que escolhem viver juntas por afinidade, em comunidades organizadas de forma horizontal.

Benefícios do cohousing
Esse estilo de vida oferece uma combinação de autonomia com apoio emocional: cada pessoa vive no seu próprio espaço, mas conta com uma rede próxima pro que precisar. Também reduz a sensação de solidão, favorecendo vínculos reais e uma rotina compartilhada.
Do ponto de vista prático, a divisão de gastos torna a vida mais eficiente e viável, já que recursos e estruturas pensados pra atender às demandas dessa fase da vida nem sempre são acessíveis individualmente. Além disso, a ideia é que o ambiente — tanto físico quanto social — seja projetado pra estimular a convivência, o cuidado e o bem-estar, com áreas comuns que favorecem encontros espontâneos e atividades em grupo que fortalecem a comunidade no dia a dia e criam uma sensação de pertencimento.
Em território nacional
O cohousing pode ser uma alternativa ainda mais interessante no Brasil, onde as políticas públicas não acompanham o envelhecimento acelerado da população e o cuidado com os mais velhos ainda recai sobre as famílias, cada vez menores. Bons exemplos de iniciativas são o Vilarejo Sênior Cohousing, em Curitiba; a Vila ConViver, em Campinas; e a Cohousing Bem Viver, em Mogi das Cruzes.
Muitos desses projetos nascem de grupos de amigos com uma visão parecida sobre o envelhecer e que decidem expandir a ideia, formando uma comunidade maior. Mas o mesmo conceito pode ser aplicado em diferentes escalas — inclusive em petit comité. Pra que essa proposta funcione de verdade, porém, é preciso planejamento, tanto financeiro quanto nas relações.

Novos tempos, novos jeitos de morar
Seja pra driblar a solidão, seja pra lidar com o alto custo, os mais jovens também têm buscado novas formas de morar. Adaptação do conceito de coworking, o coliving não é apenas uma versão atualizada das antigas repúblicas, mas um espaço pra compartilhar projetos, ideias e drinks com os vizinhos. Como quase tudo na economia compartilhada, surgiu no Vale do Silício como uma solução pra suprir a escassez de moradia dos jovens profissionais que trabalham nas empresas de tecnologia da região.
Diferente do cohousing, onde há laços entre os moradores, o coliving não parte necessariamente de um senso de comunidade. Geralmente é administrado por uma empresa, que resolve os pepinos que surgirem e cobra uma tarifa fixa mensal. O preço inclui quarto mobiliado, wi-fi e limpeza. É total flex: rola ficar só um tempo ou morar a longo prazo.
Alguns funcionam em apês ou casas adaptadas, outros ocupam edifícios inteiros, com espaços comuns que vão de cinema a academia, passando por sala de jogos, piscina, restaurante e coworking. Em cidades como Barcelona e Nova York, parcerias entre prefeituras e a iniciativa privada já estão em andamento pra adaptar o conceito a um novo modelo de moradia social e sustentável.
Pra saber mais:
· Esta reportagem da Exame sobre coliving e flex living.
· A história dos amigos que fundaram um cohousing nessa reportagem da BBC News Brasil.
· Esse TED Talk da arquiteta Grace Kim sobre a relação entre o modelo de cohousing e a felicidade.
· Esta reflexão do The Summer Hunter sobre colocar os amigos no centro das nossas vidas.

Essa parceria marca um passo importante pra levar nossa visão a ainda mais pessoas, inspirando um jeito de viver mais leve, curioso e consciente. Acreditamos que bem-estar não é tendência, mas uma forma de se conectar com o que realmente importa: tempo, natureza, relações e prazer. Clique aqui pra ler.
texto: Adriana Setti | edição: Dandara Fonseca
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