Atire o primeiro passaporte quem, em um momento de crise, nunca passou horas idealizando a vida perfeita em outro país ou cidade. Quando tudo parece confuso demais, é comum acreditar que a paz interior está em um novo começo, bem longe do que pesa. A questão é que ir embora não é uma decisão milagrosa. Mudar de DDD ou DDI pode até trazer fôlego, mas não apaga o que a gente leva na bagagem: pensamentos, padrões, noias e tretas internas. Aqui, a gente reflete sobre o assunto.

Quando faz (ou não) sentido

Muita gente deixa a cidade em que nasceu pra estudar, trabalhar ou buscar melhores oportunidades. Mas há também situações mais subjetivas e pessoais em que partir pode ser uma boa — ou até a melhor — decisão. Um exemplo? Quando é preciso se afastar de ambientes e relações disfuncionais. Ou quando o endereço atual não oferece espaço pra evoluir.

Ir embora também costuma ser um jeito de romper com identidades e padrões que já não cabem mais e recomeçar uma vida que faça sentido pra você, com consciência, tempo e propósito. Se você nasceu e cresceu em uma cidade pequena, ou em um espaço que parecia minúsculo demais, é provável que entenda bem essa vontade. Mudar de ares também pode ser importante pra encontrar um lugar seguro onde se reconstruir depois de um trauma.

Entretanto, não adianta mudar de endereço quando seus incômodos estão enraizados em condições de saúde mental, como depressão e ansiedade, ou quando você insiste em repetir padrões de comportamento que, provavelmente, vão acompanhar você pra qualquer destino. Nesses casos, antes de empacotar as coisas, o melhor a se fazer é buscar ajuda psicológica ou outras ferramentas que auxiliem você a encarar os problemas de frente e desenvolver novas formas de lidar com eles. Só assim a mudança de cenário pode, de fato, virar uma mudança de trajetória.

Sem romantizar

De longe (ou pelas redes sociais), a vida no exterior pode até parecer feita só de glamour e leveza. Mas a verdade é que não existe recomeço sem esforço. Nova cultura, novos horários, novo idioma, novas pessoas. E o velho você ali, tentando aprender tudo do zero — desde onde comprar um chip de celular até como se sentir pertencente.

Aliás, mudar pra longe é praticamente um doutorado em logística emocional. É preciso lidar com a saudade de quem ficou, com a tristeza de não participar mais de momentos que antes eram certos — aniversários, formaturas, festas — e, ao mesmo tempo, se abrir pra conhecer gente nova, criar vínculos e montar uma rede de apoio nesse outro lugar. Pode ser ótimo, mas também dá uma canseira… Por isso, vale usar com moderação a expectativa.

Por outro lado…

Apesar de o visto não garantir a paz interior, partir pode ser o pontapé de uma das experiências mais intensas e transformadoras da sua história. Caso contrário, não haveria mais de cinco milhões de brasileiros morando fora, segundo dados do Ministério das Relações Exteriores, além de tantos outros que decidem migrar pra novas cidades dentro do próprio país.

O movimento de ir embora em si provoca crescimento. As dificuldades, os choques culturais, o estranhamento. Tudo isso ensina. Quem já comprou uma passagem só de ida sabe bem: há experiências que amadurecem a gente em semanas. Elas mostram o que realmente importa, o que faz bem e o que já não cabe mais.

No post que fizemos sobre o assunto, muita gente compartilhou suas experiências. Abaixo, alguns relatos que mostram bem as mil camadas de recomeçar em outro canto do mundo.

“Ir embora da minha cidade natal, mudar pra outro estado, outro contexto de cidade, foi um reset na minha vida. Me reinventei totalmente, quebrei padrões, abandonei relações tóxicas e tive a oportunidade de me reconstruir à distância. Foi a melhor coisa que fiz por mim, sem planejamento, simplesmente aconteceu. Foi perrengue? Super. Valeu a pena? Todo dia.”
@claricelacerda

“Às vezes, tudo o que quero é fugir de volta pro meu Brasil, esse chão de vida e contradição. Há verdades que só respiram lá, no aconchego da nossa essência, onde o coração se sente em casa.”
@lor.rib

“Tirar meu time de campo e mudar de país foi a melhor coisa que fiz. Voltei depois de um tempo, zerado e pronto pra levar a vida que sempre sonhei.”
@euthiguimares

“Nove anos morando no interior da Inglaterra, vinda de São Paulo capital. Sem família, sem lugar pra morar, sem trabalho, só com o meu sonho e a vontade de dar certo. Hoje, depois de muito batalhar, posso dizer que as coisas estão dando certo, porém criei a consciência de que estar longe é viver um dia após o outro, como se estivéssemos eternamente conhecendo essa ‘nova versão’ de nós mesmos. É difícil de explicar.”
@luisamisawa

“Fui embora diversas vezes (por conta do trabalho, estou sempre mudando). Tem os lados positivos e negativos. No começo é mais difícil, mas a gente aprende a lidar com as dificuldades e a apreciar muito o lado bom. Tenha paciência consigo mesma!"
@gabiarjona

“São quase dois anos da minha mudança e agora vejo que repeti todos os padrões que me levaram a um burnout em SP. Até ter outro, seguido de depressão, no novo lugar. Só percebi quando estava tudo desmoronado. E muito pior, longe dos amigos, sem conseguir nutrir as relações antigas e novas, completamente perdida e vivendo de trabalho, novamente. A sensação de solidão é muito grande, mesmo cercada de gente. Quero voltar? Não. Os motivos que me fizeram vir ainda são reais. Quero aprender de novo, me curar, repensar uma vez mais, ter coragem, abandonar as culpas, me perdoar. Aprender a ter a vida que vim buscar, validar as coisas que deram certo. Muitas camadas.”
@carolmartiin

Pra saber mais:

· O post no qual a gente reflete: viajar resolve seus problemas?
· O livro Americanah (2013), em que Chimamanda Ngozi Adichie usa da ficção pra falar sobre a complexa experiência de ser imigrante, entre outros temas.
· O filme Nomadland (2020), sobre partir pra se reencontrar e recomeçar.
· O podcast História de Imigrante, que aborda desde histórias engraçadas a temas mais delicados.

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