

Basta dar uma passada de olho em qualquer lista de livros mais vendidos dos últimos anos pra encontrar títulos cuja premissa principal é refletir sobre nossos comportamentos e, a partir disso, apontar caminhos pra viver melhor. Podcasts, vídeos e perfis com a mesma proposta também estão espalhados pelas redes sociais, acumulando visualizações e likes. Aqui mesmo, nesta newsletter, já trouxemos temas como “o poder de dizer não”, “a importância de impor respeito de uma forma saudável” e “a liberdade de não precisar agradar todo mundo”.
A questão é que, por mais que a maior parte dessas mudanças de comportamento seja individual, elas acabam impactando diretamente quem está ao nosso redor. E aí surge a dúvida: será que, ao colocar sempre o nosso bem-estar em primeiro lugar, não estamos esquecendo que também temos alguma responsabilidade pelo bem-estar do outro? Ou, indo mais direto ao ponto: será que o excesso de conteúdos sobre autoconhecimento e limites pessoais pode estar nos transformando em pessoas mais rudes e egoístas?
Olhar pra dentro
O culto ao autoconhecimento não é novidade. Na Grécia Antiga, filósofos já se debruçavam sobre nossos desejos e virtudes. O mesmo acontecia em filosofias orientais milenares, como o budismo e o taioismo. Mas foi a partir do século 20 que esse campo começou a se misturar com a psicologia, a terapia, e, mais tarde, com a indústria da autoajuda.
Hoje, o autoconhecimento pode ser definido como a capacidade de olhar pra si com mais clareza, reconhecendo como funcionamos internamente e como nos conectamos com o mundo. Por ser um conceito amplo, cabe muita coisa dentro desse “guarda-chuva” — inclusive conteúdos que prometem soluções fáceis pra sentimentos e situações complexas, o que pode gerar desconfiança.
Reflexo dos tempos
Alguns historiadores acreditam que os best-sellers funcionam como um espelho do momento social em que vivemos. Por exemplo: o clássico Como fazer amigos e influenciar pessoas, de Dale Carnegie, surgiu em 1936, durante uma grande dificuldade social e econômica. Hoje, diante de crises políticas, conflitos globais e depois de uma pandemia, não é difícil entender por que surgem cada vez mais livros sobre olhar pra dentro. É como se quiséssemos, pelo menos, consertar nosso mundo interior.
Nessa nova leva de títulos, muitos autores incentivam os leitores a não se preocuparem tanto em agradar os outros e, em vez disso, focarem na própria satisfação — um conjunto de ensinamentos tentador pra quem já está acostumado à linguagem da terapia sobre estabelecer limites e cortar pessoas “tóxicas”. Nas redes sociais, também é comum topar com frases como “proteja sua paz” e “dizer ‘não’ não torna você uma pessoa má”.

Olhar pra fora
Segundo a psicologia e a filosofia moral, não somos responsáveis por tudo que o outro sente, nem pelo bem-estar dele como um todo. Mas isso não nos isenta de responsabilidade: nossas atitudes, palavras e até ausências têm impacto direto em quem está ao nosso redor.
Por exemplo: tudo bem não querer bater papo com o motorista de aplicativo. Mas um “bom dia”, um “tudo bem?” ou uma resposta às clássicas perguntas de elevador não exigem muito esforço e já mostram respeito. Há também situações mais profundas: segurar a barra de um amigo que está passando por um momento difícil, mesmo quando a vontade inicial era se afastar do problema, pode ser um gesto de amor e conexão.
Outra dimensão na qual essa responsabilidade aparece é na vontade de agradar. Quando colocamos sempre os desejos e necessidades dos outros acima dos nossos, o resultado costuma ser acúmulo de frustração, irritação e até desgaste. Ao mesmo tempo, toda convivência envolve negociar: ceder aqui, chegar a um consenso ali. Afinal, uma boa relação não se resume a evitar conflitos, mas também a cultivar momentos em que a felicidade do outro importa.

Parando pra pensar
Da mesma forma que não é benéfico ultrapassar os nossos limites pessoais pra colocar o outro como prioridade, viver pensando somente no que vai nos fazer bem pode se tornar prejudicial pra convivência. Vale se questionar: será que minhas práticas de autoconhecimento estão me tornando uma má companhia?
Uma pessoa querida convidou você pra um evento ao qual não está muito a fim de ir, ou que vai acontecer em um final de semana cheio de compromissos? Antes de disparar um “não” automático, reflita sobre o quanto aquele encontro significa pro outro. Às vezes, uma passadinha rápida já faz diferença. Não se trata de anular sua vontade, e sim de reconhecer que pequenos gestos de atenção podem equilibrar a balança da relação.
O mesmo vale pra situações do dia a dia: dar uma carona que tira você um pouco do caminho, mas facilita muito a vida de alguém; ficar um pouco mais no trabalho pra ajudar um colega sobrecarregado; topar um programa que não era exatamente sua escolha, mas que significa muito pra certa pessoa. Em tempos de senso coletivo em baixa, uma busca individual mal dosada contribui pra nos afastar ainda mais do espírito de comunidade. Saber se impor sem se tornar egoísta é algo essencial pra viver bem.
Pra saber mais:
· A matéria “Why self-help might be making you feel worse”, da Vox.
· O episódio “Como Estabelecer Limites Saudáveis”, do podcast Psicologia na Prática.
· O livro Promise Land: My Journey through America's Self-Help Culture (2014), de Jessica Lamb-Shapiro.
· O vídeo “How to know if you're selfish (and whether or not that's bad)”, do canal TED-Ed.

O The Summer Hunter Vozes é o podcast que chega no lugar do Desenrola. Mas a essência continua a mesma: toda semana, convidados e convidadas discutem temas atuais que mexem com o nosso dia a dia, em conversas leves e gravadas ao vivo.
No episódio da semana, gravado diretamente do Rio Innovation Week 2025, Ricardo Moreno, fundador do The Summer Hunter, conversa com a cantora, compositora e instrumentista Julia Mestre e com o jornalista, produtor de conteúdo e curador musical Pietro Reis sobre como a Inteligência Artificial vem influenciando o cenário musical. Quando o processo de criação de uma música é compartilhado com uma máquina, quem é o autor? O que ganhamos e perdemos com a facilidade de produzir uma faixa em minutos? Ouça agora!
texto: Dandara Fonseca | edição: Adriana Setti
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