

De tempos em tempos, uma palavra é tão repetida pelas pessoas — e pelas marcas — que acaba perdendo o seu sentido original. Foi assim com empoderamento (que de tanto ser usada perdeu o poder), autocuidado (que hoje vai de terapia a propaganda de vela aromática) e, mais recentemente, empatia.
A empresa foi “empática” ao oferecer um desconto na mensalidade. O chefe é considerado “empático” por escutar as reclamações da equipe. Gente ensinando os benefícios da “venda empática”. Será que tudo isso contém empatia mesmo? Aqui, a gente resgata o significado desse termo.
Na teoria
Segundo definição da School of Life, empatia é a capacidade de adentrar nos desejos secretos, nas necessidades não reveladas e nas dores de outras pessoas. É uma habilidade que se apoia no autoconhecimento, na imaginação e nas nossas experiências de vida pra ampliar o entendimento sobre o outro e se colocar no lugar dele.
Alguns estudiosos classificam a empatia em diferentes tipos. A cognitiva envolve a habilidade de entender o que a outra pessoa sente e pensa. A somática acontece quando você experimenta fisicamente o que o outro está vivendo, criando um vínculo corporal e emocional. Já a compassiva vai além: é quando a compreensão e a conexão se transformam em ação, no intuito de aliviar o sofrimento alheio.
Ainda que caminhem lado a lado, empatia não é sinônimo de simpatia ou gentileza. Também não é simplesmente saber ouvir o outro, ou ter compaixão — estado mental que envolve a preocupação com o sofrimento do outro, mas não cria proximidade real.
Tempos de crise
A verdade é que a própria ideia de empatia anda desgastada, em parte porque vivemos um período de escassez dessa habilidade. A urbanização e o ritmo das grandes cidades, a crença de que felicidade e sucesso dependem apenas do esforço individual, a falta de momentos de socialização e de vínculos profundos, o discurso de que não devemos depender de ninguém… Tudo isso reforça o individualismo e enfraquece o senso coletivo — algo essencial pra que a gente possa se conectar com os sentimentos ao redor.

Muitas vezes, em vez de nos sensibilizar, a avalanche de tragédias nos noticiários e de pedidos de ajuda nas redes sociais provoca uma espécie de estado anestésico. E isso nem sempre é por indiferença: pode ser um mecanismo de defesa pra seguir em frente. O problema começa quando essa barreira passa do limite e nos fecha completamente pro sofrimento do outro. Soma-se a isso a polarização social e política, que nos aprisiona em bolhas e reduz a capacidade de olhar pro “outro lado”.
Quem tem mais?
Medir o nível de empatia de alguém ou algum grupo não é simples, mas pesquisadores já tentaram — e, como nação, o Brasil não se saiu bem. Em um comparativo entre 63 países divulgado em 2016 pela Universidade Estadual de Michigan, nos Estados Unidos, ficamos na 51ª posição do ranking. Um resultado que pode soar contraditório pra um país conhecido pela fama de ser hospitaleiro.
Outro levantamento, conduzido por pesquisadores da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, com dados de pouco mais de 300 mil pessoas, mostrou que as mulheres tendem a apresentar níveis mais altos de empatia cognitiva — a capacidade de imaginar o que o outro está sentindo e compreendê-lo — do que os homens. As razões apontadas vão de fatores sociais a biológicos, como a diferença de tamanho do lobo frontal de cada sexo, mas são necessárias mais pesquisas.
Falsa preocupação
Também pode acontecer de acharmos que estamos sendo empáticos quando, na verdade, só estamos nos projetando em quem consideramos semelhante. Em entrevista ao UOL Tab, o psicanalista Christian Dunker chama isso de uma “democracia customizada”, válida apenas para os iguais, e aponta esse como um dos principais motivos pelos quais o Brasil, país tão marcado pela desigualdade, não apresenta altos índices de empatia. “Posso me achar muito empático porque estou me identificando com o outro, mas não necessariamente sendo empático com ele.”
Já segundo o pesquisador Chezare A. Warren, empatizar exige uma capacidade elevada de domar o nosso ego, pra não permitir que ele domine a forma como enxergamos o mundo. Isso nos ajuda a entender porque, diante de sua absoluta falta de empatia, o bilionário ególatra Elon Musk a define como “a fraqueza elementar da civilização ocidental”.

Aprimorando
Várias atitudes podem nos ajudar a aprimorar a nossa capacidade de empatizar. Uma delas é simples — mas não tão fácil assim: ouvir de verdade. Isso significa não apenas prestar atenção pra responder, mas se abrir pra compreender o mundo interno do outro, por mais diferente do nosso que ele seja. Perguntas significativas e pontuais também ajudam a aprofundar o diálogo.
No dia a dia, a habilidade de se conectar com o outro também pode envolver tomar atitudes concretas. No entanto, não podemos presumir que agimos corretamente porque tivemos “boa vontade”. A empatia real passa por exercitar a humanidade e guiar as nossas ações futuras pelo feedback recebido.
Também existem métodos menos óbvios. Um estudo da Maximilian University of Würzburg, na Alemanha, publicado no Journal of Experimental Psychology: General, mostrou que o hábito de ler ficção pode aumentar de forma significativa nossa capacidade de empatizar. Isso porque, muitas vezes, mergulhamos em histórias de personagens com realidades e personalidades extremamente diferentes das nossas e, mesmo assim, pela conexão emocional criada, conseguimos compreendê-lo.
Pra saber mais:
· O episódio “Empatia, por Leandro Karnal”, do podcast Rádio Literal.
· O vídeo “Empatia salva? Ser bom não é ser bonzinho”, de Christian Dunker.
· Os livros Empathy: Why It Matters, and How to Get It (2014), de Roman Krznaric; e A Hora da Estrela (1977), de Clarice Lispector, ótimo pra despertar a empatia.
· A matéria “Empathy Is The Most Important Leadership Skill According To Research”, da Forbes.

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No episódio dessa semana, o médico geriatra Milton Crenitte e o gerontólogo Edson Moraes refletem sobre o desafio de cuidar de pais idosos — e dar conta de todo o resto da vida ao mesmo tempo. De um lado, a sobrecarga, o cansaço e a culpa. Do outro, a perda de autonomia, a angústia de dar trabalho, o medo da finitude. Como atravessar esse momento de um jeito que seja bom pra todo mundo? Ouça agora!
texto: Dandara Fonseca | edição: Adriana Setti | arte: Eduardo Gayotto
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