

Com os avanços tecnológicos das últimas décadas — e especialmente dos últimos anos —, a inteligência artificial já escreve, revisa, faz contas, monta planilhas e realiza um monte de outras tarefas com mais precisão que a maioria de nós, seres humanos. Mas isso não significa que a IA vai ocupar todos os espaços, como as manchetes mais alarmistas afirmam. O que muda, na verdade, é a relevância do que permanece insubstituível.
Em um mundo com robôs cada vez mais inteligentes, o diferencial migra pra nossa capacidade mais humana: a de criar conexões. Mais do que o QI — quociente de inteligência — entra em cena o quociente relacional (QR), ou seja, o nível de inteligência aplicada aos relacionamentos que cada um de nós possui. O problema é que, aos poucos, estamos deixando de exercitar essa habilidade essencial.
Aqui, a gente reflete sobre esse assunto, com base na discussão do primeiro The Summer Hunter Vozes na Soho House São Paulo, que contou com a participação de Marcella Brito Franco e Luciane Paim, sócias da consultoria ACE. Você pode ouvir o papo completo no The Summer Hunter Vozes, nosso novo podcast.
Recurso escasso
Inteligência relacional é a capacidade de cultivar — de forma saudável — as relações que nos estruturam: ler o outro, sustentar atrito, combinar cuidado e limite, fomentar a confiança... Pessoas com alto “quociente relacional” inovam mais, erram sem colapsar e mantêm coesão em momentos difíceis. Também escutam com atenção, negociam divergências e criam segurança psicológica. Só por essa lista de características, já dá pra perceber que a habilidade anda em falta nos dias de hoje.
Cada vez mais, as nossas interações são mediadas por telas e algoritmos que favorecem conversas rápidas e fragmentadas. A qualidade do diálogo piora ainda mais quando replicamos o modo como interagimos com a inteligência artificial nas nossas relações. Estamos tão acostumados com robôs que respondem e fazem instantaneamente o que pedimos que esquecemos que, do outro lado da tela, existe uma pessoa de carne e osso, com sentimentos, limites e sua própria maneira de lidar com o tempo.
Mas a culpa não é só da tecnologia. Os anos de isolamento social enferrujaram a nossa capacidade de socializar; o JOMO (a alegria de não ir a alguns compromissos) trouxe benefícios, mas também acabou servindo de desculpa pra nos fecharmos em bolhas individuais; e a cultura da produtividade extrema reforçou a lógica do “cada um por si”, aumentando a individualidade.
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Leve até demais
Em meio a tantas interações superficiais, desaprendemos a lidar com o atrito — seja com quem está perto, seja com quem cruza nosso caminho no dia a dia. Não por acaso, são vários os conteúdos nas redes que celebram as “amizades de baixa manutenção” e os “relacionamentos leves”, como se qualquer esforço fosse sinônimo de peso. Mas a verdade é que vínculos humanos não existem sem tensões ocasionais. Relações saudáveis pedem dedicação, paciência e uma certa dose de trabalho de vez em quando.

Alerta: perigo
Da psicanálise à sociologia, a formação do eu depende de reconhecimento. Sem bons espelhos — família, amigos, pares —, a gente se desorganiza. Quando a presença é trocada por validação massiva em forma de likes e views, a base fica frágil. É nesse cenário que a fragmentação do eu ganha espaço: uma persona no trabalho, outra no feed. Segundo um estudo do ano passado encomendado pela Lenovo, 75% dos jovens da Geração Z relatam sentir uma desconexão entre suas vidas online e offline, o que alimenta sentimentos como solidão e ansiedade.
Sempre conectados por telas, as relações se transformam em vitrines, e as emoções, resumidas em dezenas de emojis, perdem nuance e empatia. Por fim, ao nos relacionarmos apenas com pessoas parecidas, nossa tolerância ao diferente diminui, empobrecendo o debate e esvaziando a experiência humana.

Como saímos daqui?
Reconectar passa por três eixos: presença, alteridade e responsabilidade. Presença significa não apenas ocupar o mesmo espaço físico das pessoas com quem nos relacionamos, mas também dedicar tempo de qualidade a elas. Alteridade é conviver com o diferente, reconhecendo perspectivas diversas sem tentar reduzir tudo à nossa própria visão. E responsabilidade é cuidar do laço, não apenas da opinião que temos sobre o outro.
Existem algumas formas de fortalecer esse “músculo relacional”. Reintroduzir atrito produtivo é essencial: conversar sobre temas difíceis respeitando acordos claros. Treinar a leitura de sinais sutis, como silêncios, microexpressões e ritmo da fala, permite entender melhor o outro. Estabelecer círculos de confiança, com pequenos grupos e encontros regulares, cria espaço seguro pra diálogos mais profundos. Também vale definir acordos digitais — limites de tempo de tela e canais específicos pra assuntos delicados — e valorizar a convivência analógica, por meio de rituais, refeições e projetos em comum.
Inteligência relacional não se baixa em app; se pratica. Não é só uma soft skill: é política do cotidiano — e o caminho pra voltarmos a existir uns nos outros.
Pra saber mais:
· O livro Relational Intelligence: The People Skills You Need for The Life Of Purpose You Want (2020), de Dharius Daniels.
· O episódio “Intimidades Sintéticas”, do podcast Vibes em Análise.
· O TED “The Power if Relational Intelligence”, de Esther Perel.
· Nosso post sobre a tendência de tratar pessoas como assistentes virtuais.

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texto: Dandara Fonseca | edição: Adriana Setti | arte: Eduardo Gayotto
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