

Cafona, no dicionário, quer dizer “aquele que se caracteriza pela falta de bom gosto, refinamento ou sofisticação”; alguém “exageradamente ostensivo, espalhafatoso”. Ou seja, poderia muito bem ser o adjetivo escolhido por Odete Roitman pra se referir a todos nós, brasileiros. Mas o problema desse termo é que, ao pé da letra, ele já vem cheio de julgamentos e preconceitos — o que é cafonérrimo, segundo os novos rumos que o termo tomou nos anos 2020. Afinal de contas, quem define o que é brega ou não?
É social
Muitas vezes, o cafona não é só uma questão de estética ou gosto pessoal — é uma forma velada de preconceito. Certos itens ou comportamentos são rotulados como bregas apenas por estarem associados a classes sociais historicamente marginalizadas. Também é comum que elementos antes considerados sofisticados passem a ser vistos como de mau gosto depois que se popularizam entre as classes mais baixas. Bons exemplos são as roupas e acessórios cobertos por logos de marcas de grife — não por acaso, em seu lugar, surgiu o tal do quiet luxury —, unhas longas e decoradas, pulseiras cheias de pingentes e por aí vai.

Longe do hype
Tanto o mundo quanto as tendências funcionam em ciclos. Nos anos 1970, vivenciamos o auge das estéticas hippie e disco. Já nos anos 1980, foi a vez do punk e das roupas de ginástica à la Jane Fonda tomarem conta dos guarda-roupas. Nos anos 1990, o grunge e o pop dominaram. Depois da virada do milênio, vieram o Y2K glam e o visual emo.
A diferença de lá pra cá é que, hoje, com as redes sociais, convivemos com muito mais exposição — julgando e recebendo julgamentos. Isso contribui pra construção de uma sociedade cada vez mais obcecada pela estética. Também graças à Internet, os modismos conquistam o mundo com uma velocidade impressionante. E, apesar de durarem menos tempo, viram quase regras: quem não acompanha, está errado, fora do lugar, é “cafona”.
Um bom exemplo é a tendência “clean girl”, que ganhou força a partir de 2021 e é marcada por elementos como peças lisas e de cores neutras, unha nude, acessórios discretos e pouca (ou nenhuma) maquiagem. Pra quem adota essa estética como verdade, tudo o que foge desse minimalismo — roupas estampadas, coloridas, cabelos volumosos, sapatos e acessórios chamativos — pode ser visto como brega.
Voz da razão
Na última coluna no jornal O Globo antes de sua morte, em 2019, a escritora, roteirista e atriz Fernanda Young falou sobre a cafonice como uma questão muito mais ampla do que regras de etiqueta ou de estilo, que define como mau gosto existencial. Podemos fazer desse material a nova referência?

Seguindo a linha de pensamento da roteirista e escritora, hoje o verdadeiro cafona é quem escolhe ser ignorante. É quem se orgulha de ser uma pessoa grosseira e adota um comportamento agressivo. É quem desrespeita o outro e expressa isso por meio de ideias racistas, classistas, xenofóbicas. É quem faz da mentira uma tática, despreza a arte e insiste em pensamentos ultrapassados. Conhece alguém assim?
A seguir, outras definições do que é (ou não) cafona hoje, segundo nossos seguidores:
“Seguir o modismo ao pé da letra, desprezando os traços de personalidade!”
Simone Deuzimar
“Ser arrogante, tratar as pessoas com rispidez, não dizer ‘bom dia’, ‘por favor’ e ‘obrigado’.”
Lucia Kretzmann
“Cafona é tudo que me machuca e machuca o outro! Fora isso, seja livre pra usar, escutar, amar! Lógico que alguns critérios sociais, políticos e ambientais devem ser observados.”
Adriana Erig
“Pais e mães que vão até a escola e, na frente de seus filhos e filhas, ofendem professores, direção e equipe pedagógica.”
Alessandra Deschamps
“Eu sinto falta de ‘casa cafona’, com cores, porta-retrato, planta pra tudo que é lado, pano de prato com crochê… Hoje tudo é tão asséptico, vindo de Pinterest. Na real, eu acho que cafona é querer ter tudo dentro de um molde.”
Mônica Gallon
“Morar nos EUA ou Europa e ficar criticando o Brasil diariamente nas redes sociais.”
Vitor Ramos
“É ficar no celular durante encontros sociais. É ouvir mensagens ou vídeos publicamente. É não ser gentil quando se pode ser. Não ter humildade.”
Nayla de Paiva
Brega não: autêntico
Em um mundo em que cada vez mais gente veste as mesmas roupas, faz os mesmos procedimentos estéticos e gosta das mesmas coisas, a palavra cafona também pode se transformar em um elogio, ao ser usada como sinônimo de autenticidade — característica que, justamente pelos motivos já listados, anda em falta nos dias de hoje.
Uma pessoa autêntica não se deixa guiar por opiniões alheias ou pelos algoritmos na hora de definir seus gostos e o jeito como leva a vida. Ela não tem medo de misturar estampas, expressar sentimentos em voz alta ou fazer qualquer coisa que possa ser considerada “brega”. Em tempos marcados pela tecnologia e pela inteligência artificial, a graça não está nas regras ditadas, mas no seu jeito único de ser, por mais cafona que ele pareça para os outros.
Pra saber mais:
· O episódio “O que é cafona e o que é chique?”, do podcast Estilo Possível.
· O livro A distinção: Crítica social do julgamento (1979), de Pierre Bourdieu.
· A matéria “‘Quiet luxury’: conheça o estilo em que a discrição custa caro, e que será encarnado por Odete Roitman em ‘Vale tudo’”, do jornal O Globo.
· Nosso post com itens das casas brasileiras que alguns podem até considerar cafonas, mas a gente ama!

ESTÁ PRECISANDO DE UM REFRESCO?

A gincana da vida adulta não dá trégua. E, na correria pra dar conta de boletos e demandas, a gente acaba ignorando os sinais de que precisa de um refresco. Sabe quando você esquece o celular na geladeira ou se irrita até com a sua avó? Junto com FYS, o refrigerante do Grupo HEINEKEN com mais sabor e menos açúcar, a gente lembra que atitudes simples podem deixar o seu dia mais leve. Um papo com um amigo, um carinho no seu pet, um refri gelado relaxando no sofá... Somados, esses momentos marcam a diferença entre a sensação de sobrecarga e uma rotina gostosa.

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texto: Dandara Fonseca | edição: Adriana Setti | arte: Eduardo Gayotto
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