

Sair correndo por aí com os amigos, inventar mundos inteiros usando só a imaginação, ter bonecas, dinossauros ou qualquer outro objeto que desperte interesse... Na infância, a gente se sente livre pra brincar e explorar o lado lúdico sem medo do julgamento. Mas, à medida que a vida adulta se aproxima, cresce a pressão pra abandonar esse tipo de prazer e adotar uma postura mais séria. Além disso, em meio a rotinas aceleradas, reservar um tempo pra brincadeira não só é difícil, como muitas vezes parece uma perda de tempo.
Nos últimos anos, no entanto, a ciência vem mostrando que esse hábito pode trazer diversos benefícios à saúde, além de tornar a vida mais leve e plena. E, especialmente na tentativa de escapar do stress cotidiano, cada vez mais gente tem redescoberto a delícia que é juntar os amigos pra jogar, ou então reservar um tempo pra desenhar e pintar. Aqui, a gente fala sobre o assunto — e convida você a brincar também, do jeito que preferir.
No reino animal
De acordo com pesquisadores, a brincadeira desempenha um papel fundamental na vida de muitos mamíferos. Em algumas espécies, ela ajuda os filhotes a desenvolver o controle sobre o corpo e a se adaptar ao ambiente. No caso dos lobos, essas atividades ainda podem ser uma forma de testar e reconhecer quem é confiável dentro da matilha. Isso porque, durante a dinâmica, é preciso jogar limpo e controlar o próprio estado emocional — caso contrário, vira briga.
Os lobos também estão entre os animais que continuam brincando mesmo depois de adultos, assim como golfinhos, corvos, macacos e, em teoria, nós, seres humanos. A diferença é que, ao longo da vida, aprendemos a reprimir esse impulso, seja por olhares de reprovação e frases como “isso não é coisa de adulto”, seja por normas sociais tão profundas que raramente paramos pra questionar.
Raiz do problema
Brincar pode ser definido como qualquer atividade de lazer sem um objetivo prático ou compromisso com a performance. Segundo o psiquiatra norte-americano Stuart Brown, autor de Play: How it Shapes the Brain, Opens the Imagination, and Invigorates the Soul, os altos índices de melancolia que vivemos hoje — refletidos no aumento de transtornos como depressão e ansiedade — estão diretamente ligados à forma como suprimimos esse nosso instinto natural.

De acordo com um relatório da Lego de 2022, 93% dos adultos afirmam se sentir estressados regularmente. E, entre eles, 86% dizem que brincar ou interagir com brinquedos ajuda a aliviar a tensão. Durante esses momentos, as preocupações do trabalho e da rotina ficam em segundo plano, e exercitamos algo cada vez mais raro: a atenção plena. Ao nos conectarmos com o presente, também conseguimos escutar melhor nós mesmos — com mais calma, leveza e presença.
Quando feito em grupo, o ato de brincar pode ser um antídoto contra a solidão. E mais: fortalece os laços sociais. Afinal, muitas vezes, durante essas atividades lúdicas, aprendemos a compartilhar, negociar, lidar com regras, respeitar o espaço do outro e resolver conflitos — habilidades essenciais pra convivência.
Segundo Brown, brincar ainda é uma forma eficiente de desenvolver a adaptabilidade, a inteligência, a criatividade e a capacidade de resolução de problemas. Pra ele, em tempos difíceis, precisamos disso mais do que nunca, pois reforça nossa aptidão de lidar com o inesperado.

Os kidults
Se você ainda acha que as brincadeiras de adulto se limitam a jogos de mesa ou de quadra, precisa conhecer os kidults. Junção das palavras “kid” (criança) e “adult” (adulto), o termo é usado hoje pra definir os adultos que compram, colecionam e se envolvem com brinquedos, personagens e itens que normalmente seriam voltados pro público infantil.
E esse universo está cada dia mais longe de ser um nicho pequeno. De acordo com dados da WGSN, o mercado dos brinquedos colecionáveis foi estimado em US$ 12,5 bilhões em 2021, e pode chegar a US$ 35,3 bilhões até 2032. Só nos Estados Unidos, pessoas entre 19 e 99 anos representaram 17,3% das vendas de brinquedos em 2023, segundo a Business Insider.
Mais do que passatempo, os brinquedos oferecem refúgio. Em tempos de burnout e sobrecarga emocional, funcionam como uma ponte de volta aos momentos leves da infância — e, por isso, têm ganhado espaço em um mercado cada vez mais guiado pela nostalgia. Filmes como Barbie e Lilo & Stitch são apenas alguns exemplos dessa tendência.
Entre os favoritos dos kidults, estão clássicos como os bonecos Funko, as peças de Lego e as famosas action figures. Mas também existem novidades, como os monstrinhos Labubu e os bebês reborn que, embora não sejam tão recentes, voltaram a chamar atenção recentemente. Pelúcias continuam em alta: uma pesquisa de 2018 apontou que 4 em cada 10 adultos nos Estados Unidos ainda mantêm um bicho de pelúcia com o qual interagem, segundo a BBC.
Hora de brincar
Em entrevista ao The New York Times, a professora Meredith Sinclair, autora do livro Well Played: The Ultimate Guide to Awakening Your Family’s Playful Spirit, sugere um jeito simples de reencontrar o prazer de brincar: lembrar do que fazia você feliz na infância. Pode ser algo tão simples quanto massinha de modelar, jogar stop com amigos ou correr atrás de uma bola no parque. O importante é deixar de lado a preocupação com o olhar alheio.

Brincar também passa por fazer algo sem a intenção de postar ou de gerar engajamento — algo que, convenhamos, anda cada vez mais raro. Embora compartilhar nas redes o que tem feito você se divertir seja legal, inclusive pra inspirar outras pessoas, viver uma experiência só pra si pode ser um exercício bem poderoso.
Na vida adulta, brincar raramente acontece por acaso. Por isso, vale reservar um tempo na agenda. Dedicar alguns minutos do dia a algo leve, só por prazer, pode ser justamente o que falta pra sua rotina ficar um pouco mais solar.
Pra saber mais:
· O livro O brincar e a realidade (1971), de D. W. Winnicott.
· O TEDx “Why you should take yourself less seriously”, de Paul Osincup.
· O estudo “The Playful Advantage: How Playfulness Enhances Coping with Stress”, de Lynn Barnett.
· O episódio “Brincar na vida adulta: o que os bebês reborn têm a ver com isso?”, do podcast Mamilos.

QUEM É VOCÊ QUANDO NINGUÉM ESTÁ OLHANDO?

Tem coisa mais libertadora do que passar o dia inteiro sem ter que dar bom dia animado pra ninguém? Sem parecer eficiente, sem pensar nos likes ou em agradar os outros? É nesse tempo realmente seu — sem plateia e totalmente sem filtro — que mora a sua versão mais honesta. Junto com FYS, o refrigerante do Grupo HEINEKEN com todo sabor e menos açúcar, a gente incentiva você a pensar em um jeito de incluir mais momentos só seus na rotina. Porque é longe dos rótulos e das expectativas sociais que conseguimos expressar quem realmente somos.

💬 Ricardo
📖 Análise, de Vera Iaconelli
A Vera já esteve no nosso podcast, na nossa newsletter, no nosso feed. É alguém que a gente gosta de ouvir pra escutar o mundo com mais atenção e delicadeza. Neste livro, um misto de ensaio e memórias, ela narra sua trajetória como analisanda e psicanalista, costurando memórias, dor, afeto e reflexão. Um convite pra gente pensar — e sentir — a nossa própria história.
💬 Adriana
📺 Nação Zumbi — No Movimento Das Marés, no Canal Brasil
Com quatro episódios de 25 minutos, essa série documental relembra a trajetória da banda que se formou em Recife e varreu o Brasil como um furacão nos anos 1990 — desde os primórdios do Manguebeat, com Chico Science, até hoje. Novos episódios às sextas-feiras, 19h30.
💬 Renata
📺 Muito esforçado, no Prime Video
Tava procurando uma série bobinha e leve pra descansar a mente e acabei me divertindo com essa aqui. Produzida pela Charli XCX e escrita pelo Benito Skinner — que também interpreta o personagem principal — a história gira em torno da amizade entre Benny, que tenta esconder sua orientação sexual, e Carmen, que busca aceitação na nova faculdade. Ótima pra passar o tempo.
💬 Dandara
🌞 Flip e HackTown
Neste fim de semana, o The Summer Hunter marca presença em dois eventos especiais: a 23ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty e o Festival de Criatividade e Inovação de Santa Rita do Sapucaí. Além de comandar talks sobre assuntos como desacelerar e escrita em tempos de IA, vamos publicar conteúdos que você pode acompanhar em tempo real lá no nosso Instagram.
💬 Fernanda
🎵 Santa Jam e Luísa Caetano tocam Johnny Cash & June Carter
Nos dias 01 e 02 de agosto, vai rolar esse som gostosinho no Bona Casa de Música, em São Paulo. Pra você que aprecia um lugar aconchegante e com boa música — neste caso, música de altíssimo nível e de vanguarda —, vale muito ir. Aproveite e peça a Limonada Thai pra acompanhar sua noite, um absurdo.
💬 Manu
🎧 Desculpa alguma coisa, com Claudia Quintana Arantes
Cuidados paliativos, eutanásia, fé, dignidade na vida e na morte: esses são apenas alguns dos temas abordados no último episódio do vídeocast da Tati Bernardi. Arantes é médica paliativista, escritora e um dos nomes mais influentes quando o assunto é o fim da vida. Na conversa, compartilha histórias pessoais e reflexões sobre como navegar por um assunto ainda cercado de tabus.
💬 Duda
📖 Literatura infantil: Cartas ao filho, de Alejandro Zambra
Bem de acordo com a minha fase de vida, estou tentando ler este livro sobre os primeiros momentos da paternidade. O relato autobiográfico de Alejandro mistura poesia com contos e crônicas, e tem me dado muita vontade de ler. Quem sabe até meu filho fazer 3 anos eu consigo terminar.
texto: Dandara Fonseca | edição: Adriana Setti | arte: Eduardo Gayotto
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