No imaginário comum, o introvertido é aquela pessoa quieta, com poucos amigos e que, sempre que possível, escolhe o silêncio e a solitude (quase um antissocial). Já o extrovertido é visto como alguém que anda sempre com uma galera, nunca nega uma boa conversa — a vizinha, o motorista de aplicativo, o estranho do elevador, ninguém escapa — e não se intimida fácil com interações sociais.

Mas essas são visões bastante estereotipadas. A verdade é que introversão e extroversão funcionam mais como um espectro, e poucos de nós estamos em um dos dois extremos. Além disso, nosso estado de espírito, que muda a cada dia, e o momento de vida em que estamos, influenciam muito na nossa vontade de socializar ou não.

Identificando

A primeira pessoa a falar sobre esses conceitos de forma estruturada foi o psiquiatra suíço Carl Jung, no livro Tipos Psicológicos, de 1921. Na obra, ele define os extrovertidos como aqueles que direcionam a sua energia pessoal pro ambiente social, enquanto os introvertidos canalizam essa energia pro mundo interno, focando em fatores da própria personalidade. Jung também reforça que esses são polos de personalidade, e não categorias rígidas. Cada pessoa tem uma orientação predominante, mas as fronteiras não são absolutas.

Justamente por essa linha ser fluida, nas últimas décadas, ganhou destaque o termo “ambivertido”, usado pra definir quem se identifica com traços de extroversão e introversão, dependendo do contexto. Uma pessoa que adora conhecer gente nova, mas não abre mão de morar sozinha, por exemplo, pode ser considerada ambivertida. O mesmo vale pra alguém que, em momentos diferentes, se sente relaxado ou incomodado com a presença de outras pessoas.

Eu nasci assim?

A diferença entre esses dois perfis começa no funcionamento do sistema nervoso. Segundo um estudo publicado no The Journal of Neuroscience, pessoas que se consideram introvertidas apresentam um nível mais alto de excitação cerebral em repouso e, por isso, precisam de menos estímulo externo. Já uma pesquisa da Cornell University, nos EUA, indica que extrovertidos têm um sistema de recompensa cerebral mais sensível, reagindo com mais intensidade à liberação de dopamina.

Alguns estudos sugerem que a tendência à introversão ou extroversão é, em parte, herdada geneticamente — assim como outros traços que compõem a teoria dos Big Five, um modelo que classifica a personalidade humana em cinco dimensões: abertura à experiência, conscienciosidade, extroversão, amabilidade e neuroticismo. No entanto, a forma como somos criados, as experiências que acumulamos ao longo da vida e a cultura em que nos inserimos influenciam diretamente onde nos posicionamos neste espectro. Crianças que crescem em ambientes seguros, com incentivo ao diálogo e à expressão, por exemplo, podem desenvolver mais habilidades sociais, mesmo que tenham uma base introvertida.

Timidez # introversão

Apesar de muitas vezes serem confundidas, timidez e introversão são coisas diferentes. A timidez é uma resposta emocional, geralmente ligada ao medo de julgamento ou rejeição. Uma pessoa tímida pode até querer interagir, mas se sente insegura, ansiosa ou desconfortável em situações sociais. Qualquer um, até os mais extrovertidos, estão suscetíveis a esse sentimento. Já a introversão é um traço de personalidade. Pessoas introvertidas não evitam o contato social por insegurança, mas porque o excesso de estímulo externo é cansativo ou pouco prazeroso.

Qual é melhor?

Embora nem todo brasileiro seja extrovertido, nossa cultura tende a valorizar a espontaneidade, o contato físico e a convivência intensa. Por isso, comportamentos mais reservados muitas vezes são vistos como antipatia, frieza ou até falta de educação. Nessa lógica, a introversão acaba sendo tratada como um defeito a ser corrigido, quando, na verdade, é apenas uma maneira diferente de se relacionar com o mundo.

Isso não significa, porém, que não seja importante prestar atenção. Por se sentirem confortáveis na própria companhia, algumas pessoas introvertidas podem acabar, sem perceber, se afastando das conexões sociais. E manter vínculos, mesmo que em doses pequenas e no seu ritmo, é fundamental pro nosso bem-estar emocional, como mostram diversos estudos.

Não se trata de mudar a sua personalidade. Assim como praticar exercícios físicos ou tomar café sem açúcar, atuar de forma mais extrovertida de vez em quando é difícil no começo. Mas, com um pouco de treino, pode fazer um bem danado. Dá pra começar aos poucos: chamando um amigo próximo pra bater um papo, saindo com a turma mesmo que seja só pra ouvir, entrando em um grupo de corrida ou de leitura… sempre respeitando seus limites e sua bateria social.

Aprendizados e trocas

Diversas pesquisas realizadas ao longo das últimas décadas mostram que pessoas extrovertidas tendem a relatar níveis mais altos de bem-estar geral. Mas esse cenário mudou um pouco durante o isolamento social. Segundo um estudo publicado na revista científica PLOS One, o humor de quem tende à introversão foi significativamente menos afetado no período. Mais do que comparar qual personalidade leva vantagem, o momento escancarou algo essencial: ambos perfis podem aprender um com o outro.

Pra além de se abrirem a novas relações, pessoas mais introvertidas têm muito a ganhar ao exercitar a flexibilidade emocional — habilidade essencial pra lidar com situações inesperadas. Também vale praticar a arte de “vender seu peixe”, falando com naturalidade sobre suas ideias e qualidades, especialmente no trabalho. E que tal dividir planos pro futuro com amizades próximas? Estudos indicam que isso aumenta as chances de realizá-los e ainda traz mais felicidade.

Já quem é parte do time extrovertido tem a chance de aprender a valorizar o silêncio e a pausa, algo urgente em tempos de excesso de estímulos. Também pode fazer as pazes com momentos de solitude e, com isso, se reconectar ao próprio mundo interno. E, por fim (mas não menos importante), ouvir com atenção antes de falar — um passo fundamental pra construir relações mais profundas. Afinal, não adianta conhecer muita gente: é preciso ter trocas de qualidade.

Pra saber mais:

· O vídeo “Introverts and Extraverts”, do canal Casually Explained.
· A matéria “What Are the Big 5 Personality Traits?”, do portal Verywell Mind.
· O livro O poder dos quietos: Como os tímidos e introvertidos podem mudar um mundo que não para de falar (2019), de Susan Cain.
· Os episódios “How to act like an extrovert”, do podcast The Hapiness Lab with Dr. Laurie Santos; e “Introvertidos no trabalho: como usar suas qualidades pra crescer na carreira”, do CBN Comunicação e Liderança.

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Barcinski já entrevistou Scorsese, Rolling Stones, Courtney Love e Prince. Dirigiu o premiado doc Maldito, sobre Zé do Caixão, e escreveu o clássico Barulho, sobre a cena do rock americano nos anos 1990. Agora, no seu canal no YouTube, publica vídeos quase diários sobre música, cinema e livros. Sempre com curadoria afiada, crítica e memória.

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Uma das minhas metas pra esse ano (assim como muita gente que conheço) é reduzir o tempo de tela. E, durante a última semana, esse livrinho me ajudou demais nesse objetivo. Basicamente, ele conta com dicas e um passo a passo pra desenhar quase 80 espécies de animais. A Dandara criança que amava reproduzir o que via pela frente está realizada!

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Neste sábado e domingo, a Gengibrão realiza a 6ª edição da sua feira de arte e cerâmica, no Bom Retiro. Conhecida pela curadoria de artistas independentes no espaço da General Jardim, no Centro, a loja organiza uma programação recheada: tem workshops, palestras, música, comidinhas e, claro, muita arte. A entrada é gratuita e as atividades rolam durante todo o fim de semana.

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