Pratos ultra cremosos escorrendo queijo, sobremesas que derretem ao toque de caldas quentes, cortes de carne suculentos exibidos em close, câmera lenta e som amplificado. Há cerca de dez ou quinze anos, esse era o tipo de conteúdo, chamado popularmente de “food porn”, que dominava as redes sociais quando o assunto era gastronomia. Hoje em dia, no entanto, boa parte desse apelo visual foi substituída por receitas fitness e outros conteúdos que categorizam os alimentos de acordo com seus nutrientes.

Pra muita gente, comer virou algo puramente funcional, quase uma equação: gramas de proteína por refeição, calorias controladas, macronutrientes em planilha. Saber o que vai no prato e por quê é importante, claro. Mas e o papel social, cultural e afetivo da alimentação, onde fica? Em um momento no qual medicamentos pra inibir o apetite estão em alta e rotinas alimentares seguem metas rígidas, o tesão pela comida ainda tem espaço?

Alta performance, pouco prazer

Uma das grandes tendências do pós-pandemia foi a busca por uma vida mais saudável. A questão é que, em vez de encontrar um equilíbrio, muita gente mergulhou em rotinas marcadas por performance, disciplina e cobrança. Não basta se exercitar ou manter uma alimentação balanceada: é preciso superar objetivos, render mais, conquistar o shape ideal. Nesse cenário, vale tudo pra bater as quantidades diárias de proteína, fibra ou macronutrientes, de dúzias de ovos cozidos a frango com aveia, passando por shakes com creatina. O sabor? Virou detalhe.

O ato de comer foi se tornando técnico. Não à toa, o pão virou “carboidrato” e, a picanha, “proteína com gordura”. Essa forma de classificar os alimentos, focando apenas em nutrientes isolados e seus supostos efeitos no corpo, tem nome: nutricionismo — termo criado pelo pesquisador Gyorgy Scrinis, da Universidade de Melbourne, na Austrália, e popularizado pelo jornalista norte-americano Michael Pollan — ambos críticos dessa visão reducionista.

Como explica a chef e apresentadora Rita Lobo em seu site, o Panelinha, essa lógica foi incorporada pela indústria dos ultraprocessados, que a amplifica pra vender mais produtos. “Esses novos produtos, que alardeiam promessas falsas de uma saúde melhor, influenciam a escolha do consumidor, que aos poucos foi se contaminando por essa lógica”, afirma.

Saudável até demais

Nesse clima de vigilância alimentar, ganha espaço também o movimento conhecido como “clean eating”, que se baseia na ideia de consumir apenas alimentos “puros”, naturais e saudáveis, deixando de lado ultraprocessados, aditivos, glúten e outros elementos considerados prejudiciais.

À primeira vista, parece saudável. Mas é preciso tomar cuidado: esse padrão pode evoluir pra um comportamento obsessivo conhecido como “ortorexia nervosa”. Nomeada pela primeira vez em 1997 pelo médico Steven Bratman, a condição se caracteriza por uma fixação patológica em “comer certo”, marcada por regras rígidas, perfeccionismo e ansiedade.

Uma estimativa feita há dez anos indicava que 6,9% da população geral poderia apresentar sinais do distúrbio. Embora mais estudos ainda sejam necessários, uma revisão recente afirma que a ortorexia — que ainda não foi reconhecida oficialmente como um transtorno alimentar — está em ascensão. E, em um mundo onde comer virou sinônimo de controle, disciplina e culpa, não é difícil entender por quê.

De olho no corpo

A pressão estética não é novidade, especialmente para as mulheres. Mas, no cenário atual de superexposição e comparação constante, ganhou contornos ainda mais cruéis. Nesse ambiente, promessas de transformação corporal por meio da alimentação voltam a circular com força: dietas restritivas e jejuns ressurgem como atalhos pro “shape ideal”, e qualquer comida que fuja das poucas calorias permitidas é rotulada de “besteira”, “lixo” ou “tentação”.

Também não dá pra falar sobre nossa relação com o corpo e a comida hoje sem mencionar os medicamentos injetáveis usados pra emagrecer, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro. Só em junho de 2025, esses remédios representaram mais de 10% do faturamento das grandes redes de farmácia no estado de São Paulo.

As chamadas “canetinhas” imitam a ação do hormônio GLP-1, desacelerando o esvaziamento do estômago e diminuindo os sinais de fome enviados ao cérebro. Ou seja, embora seu uso possa ser útil pra vários grupos de pessoas, elas também ajudam a reduzir o nosso interesse pela comida — e, consequentemente, nossa libido alimentar.

Hmmmm, que delícia!

Em meio a tantos discursos restritivos, vale lembrar: comer pode — e deve — ser uma experiência prazerosa, nem que seja de vez em quando. Do ponto de vista biológico, a comida libera neurotransmissores como a dopamina e a serotonina, que ativam os centros de recompensa no nosso cérebro. É uma forma do corpo dizer: “você está cuidando de mim”. Mas o prazer de se alimentar vai muito além da sobrevivência.

A comida une as pessoas. Um almoço de família, um jantar entre amigos, um café da manhã compartilhado com quem se ama — todos esses momentos são uma forma de aprofundar a relação. Muitos alimentos também se transformam em memórias: o bolo da avó, a sopa da mãe, o chá com poderes curativos (e quase milagrosos) da infância. Sabores que carregam histórias e sentimentos.

Pra saber mais:

· O episódio “Terrorismo Nutricional”, do podcast Vai se Food.
· Nosso post sobre a dor e a delícia de comer só — e como isso está mudando a forma como nos alimentamos.
· Os livros Nutricionismo: a ciência e a política do aconselhamento nutricional (2021), de Gyorgy Scrinis; e O peso das dietas: Faça as pazes com a comida dizendo não às dietas (2018), de Sophie Deram.
· A matéria “‘I was scared to even eat the vegetables in my fridge’: the eating disorder that focuses on food purity”, do The Guardian.

Quer receber conteúdos do The Summer Hunter todo dia no seu e-mail?

Assine a Drops Solares, nossa nova newsletter diária. Todas as manhãs, direto na sua caixa de entrada, conteúdos aprofundados com dicas, ideias e reflexões que inspiram um jeito mais leve de viver. Informação confiável, inspiração boa e serviços úteis — ideal pra quem deu um tempo das redes ou cansou de ser refém do algoritmo. Inscreva-se agora e nos acompanhe no seu próprio ritmo.

💬 German
🎵 A Lua Que Foi Meu Lençol, de Bagum
Single novo dessa banda massa de Salvador! Tem groove, tem peso, tem calor. Eles misturam tudo sem medo: jazz, rock, psicodelia, ritmos afro-baianos. E fazem isso com uma identidade muito própria. Nasceu pro palco, mas funciona demais no fone também. Tô no aguardo do álbum novo, que chega em agosto.

💬 Ricardo
📖 Educação Sentimental do Vampiro, de Dalton Trevisan
Organizada por Caetano Galindo e Felipe Hirsch, esta antologia da Todavia é a porta da frente pro mundo brutal e conciso do Vampiro de Curitiba, que morreu em 2024 aos 99 anos. Um dos meus autores favoritos, Trevisan percorre a cidade, o sexo, a violência e os absurdos da vida. Obsessivo e inquieto, ele era conhecido por reescrever até contos já publicados em busca de mais precisão e impacto.

💬 Duda
📺 Revelações pré-históricas, na Netflix
Segunda temporada desta série, onde o jornalista Graham Hancock traz luz aos recentes estudos sobre o homem nas Américas, com diversos contrapontos às antigas teorias de uma migração "recente” e única.

💬 Dandara
🎵 Virgin, de Lorde
Tenho ouvido bastante o quarto e novo álbum da Lorde, lançado há algumas semanas. Com batidas intensas e vocais limpos, a neozelandesa mergulha em temas complexos e sensíveis, como gênero, transtornos alimentares e a sensação persistente de inadequação. Como antecipa o Raio X estampado na capa, a cantora faz uma viagem crua e transparente por dentro de si.

💬 Renata
📖 Arte e Medo, de David Bayles e Ted Orland
Finalmente terminei de ler esse livro, que fala sobre como podemos lidar com nossos medos pra criar e não desistir do ato criativo. Um clássico underground pra quem quer criar e também pra quem usa a arte como ferramenta de autoconhecimento. Pros que curtem esse tipo de assunto, recomendo acompanhar a Seiva, que lançou o livro no Brasil, mas também é uma plataforma de cursos e inspirações artísticas.

💬 Fefê
🎧 Imposturas Filosóficas
Venho aqui com certo receio de vocês descobrirem que 90% do que eu falo vem deles. O podcast, do projeto Razão Inadequada, é conduzido por dois Rafaéis. Juntos, eles fazem o quase impossível: discutir Kant, Spinoza, Butler e cia. numa linha tênue entre a mesa de boteco e a sala de pós-doc. Sem papo cabeçudo nem discurso de auto-ajuda. O cuidado com a linguagem e a maneira como aproximam pensamento e cotidiano fazem deste um dos meus cantinhos favoritos da internet.

☀️
Nós somos o The Summer Hunter, uma plataforma de conteúdo que acredita que o verão é mais do que uma estação do ano; é um estado de espírito. Nos siga no Instagram, onde publicamos conteúdo inédito diariamente, sempre às 7h30 da manhã. Ouça também nosso podcast, o Desenrola, e coloque um pouco de música na sua rotina com as nossas playlists em parceria com a Tecla Music. Também explore a nossa linha de acessórios desenvolvida em collab com a Allcatrazes. E pra se manter atualizado sobre as novidades do TSH e ter acesso a conteúdos e benefícios exclusivos, faça parte de nossa comunidade no WhatsApp!

Continue lendo

Ver mais
caret-right