É bem possível que, de vez em quando, você reclame de ser brasileiro ou brasileira. Mas também é provável que já tenha defendido o país com unhas e dentes quando ouviu alguém — especialmente quem não é daqui — falando mal. A verdade é que, apesar de todas as dificuldades e complexidades, o Brasil é muito bom. E não somos só nós que dizemos isso. De tempos em tempos, o Brasil viraliza nas redes sociais, e o mundo inteiro resolve nos amar. O que explica tanta popularidade?

O hype do hype

O Brasil já viveu várias ondas de encantamento global. Nos anos 1960, a Bossa Nova conquistou plateias ao redor do mundo. Já na década de 1970, foi a vez da Tropicália reverberar, com nomes como Caetano, Gil, Gal e Tom Zé. Em 1990, o país brilhou com o futebol-arte, as supermodelos e Michael Jackson com Olodum em pleno Pelourinho. E, nos anos 2000, o boom das commodities, o filme Cidade de Deus e a expectativa de sediar a Copa do Mundo e as Olimpíadas reforçaram essa presença internacional.

Mais recentemente, em 2022, ganhou força a tendência de moda conhecida como “brazilcore”. Impulsionado pelas redes sociais e por celebridades gringas como Bella Hadid, Dua Lipa e Hailey Bieber, esse estilo se destacou pelo uso de elementos ligados à estética brasileira — como roupas e acessórios nas cores da bandeira e a camisa da seleção. Também levou para os holofotes a estética que vem das periferias.

Pouco tempo depois, o Brasil parece estar surfando uma nova onda de popularidade: filmes como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto ganhando destaque internacional, homenagem de “País Criativo do Ano” no Cannes Lions 2025, COP30 em Belém, estética brazilcore novamente nas campanhas de moda, fast fashion chinesa copiando marca brasileira, Rabanne rendendo tributo ao funk. E segue.

Mente fértil

O Brasil é uma potência criativa forjada na mistura — de povos, ritmos, saberes e jeitos de viver. Nossa cultura pulsa da periferia ao mainstream, atravessa fronteiras e ganha o mundo. Dos memes à tecnologia, passando pela música e pelo cinema, outros países olham pro Brasil em busca de frescor, movimento e originalidade. E encontram.

Essa riqueza, no entanto, não se limita ao entretenimento ou à inovação: está presente em todos os elementos da nossa cultura. A culinária brasileira, por exemplo, é um espetáculo à parte. Pão na chapa, tapioca, cuscuz, pão de queijo, doce de leite, uma variedade absurda de frutas... Em que outro país se começa o dia com tanta coisa gostosa? Com o real desvalorizado, o turista se esbalda.

Ponto de paz

Basta assistir ou ler o noticiário pra se deparar com centenas de notícias sobre guerras, disputas territoriais e crises humanitárias. Em meio a um cenário tão bélico, o Brasil oferece uma ilusão de harmonia — o país que, ao menos no imaginário coletivo, “não quer guerra com ninguém”. Outro problema contemporâneo também parece encontrar uma trégua por aqui: a dificuldade de construir conexões genuínas. Nosso jeito expansivo e acolhedor abre espaço pra encontros, conversas e risadas altas.

De acordo com o relatório “Global Soft Power Index”, da consultoria Brand Finance, entre 2021 e 2022, o Brasil subiu cinco posições no ranking mundial de influência cultural. Desde então, permanece no 31º lugar. O país se destaca por atributos como “calor humano”, “expressividade” e “diversidade cultural”, qualidades que ajudam a explicar por que seguimos tão magnéticos aos olhos do mundo.

We love Internet

O brasileiro é o fã mais voraz. E essa devoção aparece tanto em shows e jogos de futebol quanto nas timelines. De acordo com uma reportagem da Wired, as fan accounts brasileiras — perfis dedicados a compartilhar conteúdos e notícias sobre celebridades — continuaram ativas mesmo durante o bloqueio da plataforma X no Brasil, utilizando VPNs e redes internacionais pra manter a conexão. Esse engajamento intenso se expressa também na popularização da frase “please, come to Brazil”, que virou símbolo do desejo do fã brasileiro de ser incluído e visitado por artistas internacionais.

Toda essa energia não só faz a Lady Gaga chorar, como gera engajamento. Ou seja, muitas das pessoas e marcas que vêm falando sobre o Brasil até curtem o país, mas curtem mais ainda nossos likes, comentários e compartilhamentos. No meio de tanto ruído digital, a atenção do brasileiro virou ativo cobiçado.

Dá trabalho!

O novo hype vem em um momento decisivo pro Brasil no cenário mundial, com o país voltando ao centro das conversas globais, ao mesmo tempo que lida com um conjunto de paradoxos, a começar por sua crescente imagem de vilão ambiental em pleno ano de COP Belém. Tem crise, sim. Mas tem também reconstrução, carisma e uma cultura popular imbatível.

Pra saber mais:

· O episódio “Como é ser gringo no Brasil?”, do Desenrola, nosso podcast.
· O artigo “Brasilidade em debate”, publicado na Globo Gente.
· O livro Almanaque Brasilidades – Um inventário do Brasil popular, de Luiz Antônio Simas.
· Os documentários Tropicália, na Prime Video; e Coisa Mais Linda: Histórias e Casos da Bossa Nova, no YouTube.

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💬 Ricardo
📺 Raul Seixas: Eu Sou, no Globoplay
Nunca fui seguidor de Raul Seixas. Até a estreia desta série em oito episódios. Ela acompanha sua trajetória da infância na Bahia à fama e ao alcoolismo, que o levou cedo, aos 44 anos, em 1989. Descobri que, antes da fama como cantor, Raul já era um produtor respeitado, com hits de Jerry Adriani, Odair José e Sérgio Sampaio. Nos anos 1970, misturava rock com baião, guitarra com berimbau. Com Ravel Andrade no papel principal, a série também mostra seu encontro com Paulo Coelho, parceiro musical e peça-chave no sucesso do maluco beleza.

💬 Dandara
🎵 Carrie & Lowell (10th Anniversary Edition), de Sufjan Stevens
Há cerca de um mês, o cantor norte-americano Sufjan Stevens lançou uma edição comemorativa de dez anos do álbum dedicado à sua falecida mãe. A nova edição inclui sete faixas bônus gravadas lá em 2015, incluindo demos de sucessos como Death with Dignity, Fourth of July e Mistery of Love. Pra dar play e se deixar levar pela profunda sensibilidade, melancolia e beleza presentes em cada frase.

💬 Renata
📺 Teerã, na Apple TV
Comecei a assistir essa série por curiosidade, querendo entender o conflito entre Israel e Irã por outra perspectiva. A história acompanha Tamar, uma espiã israelense enviada em uma missão secreta para Teerã, no Irã. Lá, ela é descoberta e não consegue mais deixar o país. O plot twist é que, na verdade, Tamar é iraniana, mas foi criada em Israel desde pequena. Ao ser forçada a viver em seu país de origem, ela começa a mudar sua visão sobre a guerra.

💬 Manu
📖 Orbital, Samantha Harvey
Vencedor do Booker Prize 2024, entrou na minha lista no minuto em que a editora, a DBA, anunciou. A trama se passa numa Estação Espacial Internacional, onde uma equipe de astronautas realiza experimentos e coleta dados meteorológicos. Lá de cima, a Terra surge em toda sua beleza e fragilidade, e levanta reflexões sobre a relação entre o planeta e quem o habita.

💬 Adriana
📱 @conradodallago, no Instagram
No mood “saudades do que não vivi”, o designer Conrado Dallago reimagina fatos do passado com inteligência artificial. Seu vídeo sobre a visita do Bob Marley ao Rio de Janeiro em 1980 é uma delícia, assim como o do show do Queen no estádio do Morumbi em 1981, com direito a cenas de bastidores no mítico hotel Maksoud Plaza.

💬 German
🎭 Sonho Elétrico, da Companhia Brasileira de Teatro
Com texto e direção do incrível Marcio Abreu, a peça costura memória, desejo e delírio em cena, com Jesuíta Barbosa de volta aos palcos após seis anos. Tudo é pensado nos mínimos detalhes: o figurino é lindíssimo, contemporâneo e expressivo; e a luz e a cenografia criam uma atmosfera pulsante, que amplifica a força do texto e das atuações. Em cartaz no Teatro Antunes Filho (Sesc Vila Mariana).

💬 Fefê
📱 @eutededico, no Instagram
Coletânea de dedicatórias resgatadas de livros — algumas combinam perfeitamente com a obra, outras nem tanto, mas todas têm o poder de me curar de ressacas literárias que pareciam fatais. É muito mais eficaz do que qualquer lista de jornal famoso: ali você vê os critérios mais íntimos e subjetivos que alguém usou pra presentear o outro com um livro. Vale a visita, seja pra decidir qual a próxima leitura ou pra aprender a arte de escrever bilhetinhos de amor.

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