Poucos anos após a popularização de ferramentas de geração de imagem e texto por IA, como ChatGPT, DeepSeek e Midjourney, já é possível afirmar que esse tipo de conteúdo entrou de vez no nosso cotidiano. Segundo dados da EveryPixel, mais de 15 bilhões de imagens foram criadas usando a tecnologia entre 2022 e 2023. Quando se trata de texto, a medição é mais nebulosa, mas os sinais são claros: a inteligência artificial já escreve (ou ao menos edita) parte considerável do que lemos na Internet hoje.

Nas últimas semanas, o avanço da IA ficou ainda mais evidente, graças à qualidade dos vídeos gerados no Veo 3, novo modelo de inteligência artificial do Google. De Noé guiando os animais até a arca à apresentadora fictícia Marisa Maiô, passando por um canguru de suporte emocional, o que parecia impensável agora beira o convincente. Diante disso, fica a dúvida: ainda dá pra saber se um conteúdo foi feito por uma pessoa ou por uma máquina?

ChatGPTismos

Basta rodar por alguns fóruns digitais pra perceber que a Internet descobriu uma forma “infalível” de identificar se um texto foi escrito por inteligência artificial: contar o número de travessões. Esse sinal gráfico, que existe desde o século 16 — no português, pelo menos — ganhou até um novo apelido nas redes: o “hífen-GPT”. Mas será que essa teoria faz sentido?

A resposta é: não exatamente. O travessão, por si só, não determina se algo foi escrito por IA. Mas, sim, o ChatGPT costuma criar textos com muitos travessões. Isso acontece porque a tecnologia foi treinada com materiais formais e editados, como artigos acadêmicos e livros, onde a pontuação é uma queridinha. Além disso, sem a sutileza humana, a inteligência artificial escolhe o caminho mais eficiente, que “serve pra tudo” — e, convenhamos, o tracinho é muito versátil. Aqui no The Summer Hunter, por exemplo, a gente sempre amou o travessão. E continua sendo uma equipe de seres humanos que produz os textos que você lê, ainda que a inteligência artificial faça parte das nossas ferramentas. Afinal de contas, estamos em 2025.

Mas, se nem mesmo as tecnologias conhecidas como “detectores de IA” conseguem dar certeza sobre a autoria de um texto (ainda), como descobrir se ele foi feito por um robô? Um bom caminho é prestar atenção na redundância. Além dos travessões, a inteligência artificial tende a repetir termos, expressões clichês, estruturas de frase e conexões de ideias. No caso de materiais mais informativos, lembre-se também do básico: checar as informações em outras fontes confiáveis segue sendo indispensável.

Que foto estranha

Em relação às imagens, comece verificando se há algum aviso de que aquele conteúdo foi feito com IA. Por aqui, sinalizamos nos créditos quando uma imagem ou ilustração foi criada com auxílio de inteligência artificial. Se não houver essa informação, ferramentas como a AI or Not podem ajudar. No entanto, elas ainda são limitadas, o que faz com que o olhar humano siga sendo valioso.

Quanto à aparência, analise se há pequenas distorções — como dedos a mais nas mãos, orelhas desalinhadas e sombras incoerentes — ou excesso de simetria em rostos, objetos e cenários. Conteúdos gerados digitalmente também não costumam apresentar dados como autoria, câmera e local. Por isso, cheque os metadados. A busca reversa de imagens ainda permite descobrir se a foto foi creditada em outros lugares e usada em sites confiáveis.

Em ação

Já no caso de conteúdos em vídeo, um elemento importante é a voz. Embora a IA tenha avançado muito nesse sentido, a entonação ainda costuma soar robótica em alguns momentos, assim como os movimentos da boca e do corpo. Repare também no que acontece ao redor da informação principal: se tudo estiver muito fixo, ou seguir um padrão repetitivo, desconfie.

No mais, se uma imagem ou vídeo causar desconforto, aquela sensação de que algo ali está errado — mesmo que você não consiga identificar exatamente o quê — há grandes chances de que o conteúdo tenha sido feito por um robô. Segundo um texto da Fast Company, isso acontece porque, embora os detalhes estejam bem construídos, o nosso cérebro é capaz de captar pequenas falhas ou incoerências.

Muitas questões

Há tempos, especialistas em tecnologia alertam sobre os riscos da inteligência artificial. Conteúdos que parecem reais demais já estão sendo usados pra espalhar fake news, manipular eleições, promover fraudes, bullying digital e inflamar discursos de ódio. E tudo isso traz implicações jurídicas e éticas urgentes.

Além disso, quando tudo pode ser criado artificialmente, fica difícil saber em quem ou no que acreditar. Essa incerteza vem nos levando a uma crise de confiança sem precedentes. Parece que a lógica se inverteu: antes, a IA precisava ser treinada pra parecer humana. Agora, somos nós que precisamos provar que não somos robôs pra conquistar a confiança de quem está do outro lado da tela.

Pra refletir

Nos últimos anos, a discussão sobre a regulamentação da inteligência artificial ganhou força, tanto no âmbito político quanto no meio acadêmico. Entre os principais fatores pontuados estão a definição de limites do que pode ou não ser feito com a IA, a transparência em conteúdos que utilizam essas ferramentas, a proteção de dados pessoais usados no treinamento de algoritmos e os direitos autorais do conteúdo que alimenta os robôs. Tudo pra garantir que a tecnologia seja usada de forma ética, segura e benéfica pra toda sociedade.

Mas não dá pra falar apenas de riscos. A inteligência artificial também expande, em proporções antes inimagináveis, a capacidade de inovação, além de democratizar a criação. Pessoas cheias de ideias, mas com poucos recursos, agora conseguem produzir conteúdos que antes exigiam estúdios, grana ou habilidades técnicas específicas. Por meio dessas produções, é possível entreter, questionar e até ironizar a forma como as coisas são feitas hoje.

Pra saber mais:

· As matérias “O ver para crer morreu”, do Uol Flash; e “Especialistas divergem sobre modelo regulatório de IA para Brasil”, do Teletime.
· O podcast Neural, da Folha de S.Paulo, apresentado por Patrícia Campos Mello e Ronaldo Lemos.
· Nosso post sobre a crise de confiança que vivemos atualmente, em parceria com a plataforma Bits to Brands.
· O perfil de Raony Phillips, que mostra como a IA pode ser usada pra revolucionar o entretenimento.

💬 Renata
🖥 Gaveta, no Youtube
Se você gosta de cinema, séries e audiovisual, precisa conhecer esse canal de YouTube, apresentado pelo próprio Gaveta. Ele faz resenhas, mostra bastidores e analisa tudo que está rolando na TV, no streaming e nos cinemas. O conteúdo é super massa e divertido de assistir. Recomendo demais!

💬 Ricardo
📺 Mountainhead, na HBO
Do criador de Succession, essa sátira ácida acompanha quatro bilionários da tecnologia isolados num retiro nos alpes de Utah, enquanto o mundo desmorona por causa de um software de deepfake criado por um deles. Acelerado, paranoico e absurdamente real, Mountainhead é um retrato inquietante do nosso tempo. Tente adivinhar quem é quem. É fácil!

💬 Adriana
📺 O Jogo da Viúva, na Netflix
O filme mais falado na Espanha ultimamente conta a história de um assassinato real com ingrediente cinematográficos — infidelidade, o lado obscuro da “esposa perfeita” e manipulação. E mais: é dirigido por Carlos Sedes, do excelente O Caso Asunta, outro true crime dos bons.

💬 Fabiana
🎵 Portrait, de Samara Joy
Lançado no ano passado, neste álbum a cantora norte-americana, que tem um quê de Sarah Vaughan, mostra todos os seus talentos. Dessa vez, além da voz, ela é responsável por arranjos, algumas letras e também é co-produtora, ao lado do trompetista premiado Brian Lynch. Vá ouvindo e se preparando: Joy fará shows em julho e agosto, em São Paulo e no Rio de Janeiro.

💬 German
📚 Santos da Casa, de Luiz Antonio Simas
No dia de Santo Antônio, a dica é de fé, festa e brasilidade. Nesse livro, o professor Simas mergulha nas crenças e celebrações populares que fazem parte do nosso cotidiano. Se você está no Rio, ele dá uma aula hoje na Bienal do Livro sobre santos juninos e quadrilha literária. Legal, né? Vale muito ir.

💬 Duda
📺 Meu Amigo Pinguim, no Prime Video
Provavelmente todos já ouviram a história do pescador brasileiro (José Pereira) que resgatou um pinguim (DimDim) na Ilha Grande e ficaram amigos. Mas o filme do diretor brasileiro David Schurmann narra de maneira envolvente essa história incrível, com Jean Reno interpretando José Pereira.

💬 Dandara
🖼️ Teatro Experimental do Negro nas fotografias de José Medeiros
Estreia amanhã, no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, a exposição que percorre a história do Teatro Experimental do Negro (TEN), fundado na década de 40 por Abdias Nascimento. Com mais de 100 itens, entre fotografias e documentos, a mostra evidencia a importância do movimento não só no teatro, mas também na afirmação da identidade negra nas artes e na esfera pública.

💬 Manu
✉️ A Hortaliça, de Vanessa Barbara
Uma das newsletters mais divertidas que eu assino é a da jornalista Vanessa Barbara (sim, ela, do fatídico episódio da Rádio Novelo que explanou um caso terrível envolvendo toda a elite do mercado editorial). Às vezes uma vez na quinzena, às vezes uma vez no mês, chega um apanhado de citações tiradas de contexto, trocadilhos e imagens toscas e textos aparentemente bobos — pro bom leitor e observador, inteligentíssimos.

💬 Fernanda
📺 Drop: Ameaça Anônima, no Prime Video
Depois de superar um relacionamento abusivo, uma mulher decide se abrir pra um novo encontro. Mas, durante o jantar em um restaurante, começa a receber ameaças anônimas: se não obedecer a ordens misteriosas, sua irmã e seu filho serão mortos. Com uma boa fotografia e trama que se passa quase toda e um único ambiente, tem um antagonista surpreendente.

Você lembra da última vez que alguém novo entrou na sua vida? Por que isso anda tão difícil de acontecer? No terceiro e último episódio do Desenrola gravado dentro do C6 Fest, a convite do Apple Podcasts, a gente conversa sobre o que deixamos de viver quando nos fechamos para os outros. E como a música pode abrir espaço pra que esses encontros aconteçam de um jeito mais leve. Nossos convidados são a jornalista, apresentadora e escritora Cris Guterres e o criador de conteúdo, roteirista e diretor audiovisual Matheus Sodré. Ouça agora!

🚨Alerta de spoiler: Na próxima segunda-feira (16/6), vai ao ar o último episódio da terceira temporada do Desenrola. Nele, convidamos o antropólogo Michel Alcoforado pra refletir sobre o crescente interesse dos jovens pela fé e, especialmente, pelo cristianismo. O que isso revela sobre essa geração? Os comportamentos mais conservadores observados na juventude de hoje têm origem na fé ou em outro lugar? Já segue o podcast pra não perder esse papo!

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