

Nas últimas décadas, o número de filhos únicos cresceu bastante no Brasil e no mundo. Segundo dados do IBGE, de 1960 pra 2023, a taxa de fecundidade no país caiu de 6,3 filhos por mulher, em 1960, pra 1,6 em 2023. No cenário global, vários países, como China, Estados Unidos, Chile e Alemanha, também registraram essa tendência, que é impulsionada por fatores como urbanização, mudanças nos padrões de vida, custo elevado pra criar crianças e maior participação das mulheres no mercado de trabalho.
Ser a única criança da casa costuma trazer mais alegria do que tristeza: não dividir atenção, brinquedos, guloseimas ou espaço. Mas, com o tempo, o silêncio do “não ter com quem” vai ganhando mais ou menos peso, conforme a etapa da vida. Aqui, a gente reflete sobre essa experiência, com a ajuda dos (vários) filhos únicos da equipe do The Summer Hunter, e de relatos dos nossos seguidores compartilhados nesse post sobre o assunto.

Lado bom
Filhos únicos tendem a desenvolver mais autonomia e aprendem a resolver problemas sem depender tanto dos outros — o que é uma habilidade que serve pra todas as áreas (e fases) da vida. A ausência de irmãos pode ainda incentivar a busca por laços fora da família, o que muitas vezes resulta em amizades mais profundas e duradouras.
O lado financeiro também favorece. É provável que um filho único tenha mais possibilidades financeiras, o que pode resultar em mais qualidade de vida, uma educação reforçada, mimos extras etc. Caso os pais deixem alguma herança, pode ser uma bela vantagem não ter que dividi-la com ninguém.

Lado ruim
Na infância, crescer sem irmãos às vezes significa não ter companhia para as brincadeiras — ou alguém que defenda você nas tretas escolares e familiares. Também pode trazer uma dificuldade na hora de lidar com frustrações e aprender a compartilhar. Ainda assim, a ciência não sustenta a ideia de que filhos únicos são mais egoístas ou têm menos empatia. Isso depende muito mais da forma como foram criados do que da ausência de irmãos.
Na vida adulta, em momentos de crise — como doenças ou perdas —, a ausência de uma rede familiar mais próxima pode acentuar a solidão. Muitos filhos únicos também acabam assumindo sozinhos a responsabilidade pelo cuidado dos pais na velhice, o que costuma ser bastante exaustivo, especialmente do ponto de vista emocional.

Muitas nuances
Tem quem ame, tem quem sinta falta e tem quem só perceba o peso (ou a delícia) com o tempo. No nosso post sobre o assunto, muitos seguidores que cresceram sem irmãos — ou que são pais de filhos únicos — compartilharam seus desabafos e histórias. A gente selecionou alguns deles:
“Eu amo ser filha única! Nunca estive sozinha, sempre fui rodeada de amigos, mas as responsabilidades são só minhas. No último ano, o cuidado com meus pais se intensificou, meu pai faleceu há um mês e meio e aí o bicho da responsabilidade pegou. Mas, pra sair do fundo do poço, contei com o apoio de muitos amigos.”
Ive Guedes (@iveguedes)
“Filha única. Gostei tanto que tive três 😂.”
Ana Maria (@anamariamir)
“Filho único aqui. Mãe já falecida, pai vivo, com 69 anos, aposentado e trabalhando, vida tranquila. Se precisar, vou ser o responsável pelos cuidados dele. Fiz uma vasectomia pra não ter filhos, sou casado, tenho 35 anos. Fim da minha família :).”
Fernando Carneiro (@feercarneiro)
“Por ser filha única, decidi ter mais de um filho. Cabe a mim e ao meu marido criarmos nossas filhas com cuidado e atenção, pra que se sintam valorizadas e sejam amigas. Eu amaria ter tido uma irmã e amiga. Se seríamos? Não sei. Mas, como mãe, me esforço pra que as minhas sejam. E sobre cuidar dos pais na velhice, me preocupo. Não tem como não ser minha responsabilidade — acho que é até questão de humanidade.”
Cristiane Freschi (@cristianefreschi)

“Temos uma única filha. Já disse aqui: quando for a hora, me coloque em um asilo bacaninha e venha me visitar.”
Gisela Biacchi (@contos_de_fome_e_de_sangue)
“Acho que o principal ponto negativo é não ter alguém pra ajudar você a entender as sombras dos seus pais e elaborar isso. Afinal, ninguém vai sentir os efeitos das debilidades deles como pais a não ser os próprios filhos.”
Lívia Madero (@liviamadero)
“Filhos únicos convivem em um mundo com mais adultos ao redor e, por essa razão, tendem a desenvolver precocemente mais maturidade, além de um bom senso de observação e análise sobre pessoas e situações.”
Karen Gallo Fadel (@karengallo)
“Caso estejam em dúvida sobre dar ou não irmãos aos seus filhos, façam as seguintes perguntas a vocês mesmos: tenho condição de oferecer a mesma atenção a essa nova criança? Me sinto pronto pra abdicar de ainda mais tempo pessoal em prol desse novo filho? Digo isso porque é melhor ter um filho com uma educação atenciosa dos pais do que vários filhos crescendo com certas faltas.”
Camilla Malheiros (@camillamalheiros)
Pra saber mais:
· O episódio “Filho Único”, do videocast Mil e Uma TrETAS.
· O livro We Should Get Together: The Secret to Cultivating Better Friendships (2020), de Kat Vellos.
· O filme Lady Bird: A Hora de Voar (2017), de Greta Gerwig.
· A matéria “Filhos únicos: qual o impacto sobre as crianças, segundo a ciência”, da BBC.

💬 Adriana
📺 Depto. Q, na Netflix
Mal chegou e já causou. A série sobre a qual todo mundo está falando esta semana, do mesmo diretor de Gambito da Rainha, tem aquele tipo de protagonista antipático e irresistível: um policial brilhante, mas problemático, que mergulha em casos misteriosos em uma Edimburgo sombria.
💬 Ricardo
🎬 Bono — Histórias de “Surrender”, na Apple TV+
Filmado em preto e branco, este retrato íntimo do cantor irlandês mistura performances ao vivo, narração pessoal e imagens inéditas. Bono relembra a morte precoce da mãe, o casamento com Ali — sua parceira desde 1982, ano em que entrou pro U2 — e uma reconciliação póstuma com o pai, feita numa pequena capela na França. Depois disso, diz ele, até sua voz mudou.
🖼️ Quando o Imaginário e a Fé Vão às Ruas, de Bruno Jungmann
O fotógrafo pernambucano estreia sua primeira exposição individual após anos registrando festas como a Missa do Vaqueiro e o Maracatu Rural. Em cartaz a partir de 11/6 no Espaço Oscar Niemeyer, em Brasília, a mostra retrata 12 manifestações populares num Brasil que dança, reza e resiste. É de Bruno, também, a matéria de capa da última revista do The Summer Hunter.
💬 Manu
📖 Dias lentos, encontros fugazes, de Eve Babitz
Comecei a ler e não consigo largar. São dez contos sobre o glamour e a decadência da Los Angeles dos anos 60 e 70, narrados por quem viveu (e muito) os bastidores da época: dos porres aos amantes, os artistas, as ruas. É tanta graça e charme na escrita que você termina cada conto com vontade de viver (de preferência em LA).
💬 Renata
📺 Efeitos Colaterais, no Prime Video
A série acompanha a história de um ecologista que descobre um cogumelo que pode curar praticamente qualquer doença — mas é claro que uma descoberta assim não seria tranquila. Daí rola de tudo: perseguição, conspiração, indústria farmacêutica... Pra quem ama animação, a série tá linda demais.
💬 Fabiana
📺 Noir escandinavo, na Netflix
Não é uma série ou filme, mas um estilo. Tramas de suspense, como a dinamarquesa A Reserva, nova no streaming, que se passa na Dinamarca, é mais uma representante dessas histórias passadas nos países nórdicos. As tramas são boas, mas o mais satisfatório são as imagens: estradas entre florestas de pinheiros (um clássico dessas séries), lagos gelados e aquela arquitetura que já se tornou um ícone. Outros representantes: Trapped, Equinox e O Domo de Vidro.
💬 German
🎧 Susobrino, no Spotify
Se você ainda não ouviu falar desse músico boliviano, prepare-se pra uma viagem sonora daquelas. Radicado na Bélgica, ele mistura batidas eletrônicas com percussões e samples da América Latina, criando um som hipnótico, ritualístico e completamente fora da curva. Sou suspeito pra falar — afinal, sou boliviano e me amarro em tudo que vem de lá.

São João, festivais, megashows em Copacabana, Carnaval... Mesmo com toda a força do digital, os eventos presenciais seguem reunindo e mobilizando milhões de pessoas. No segundo episódio do Desenrola gravado em um estúdio dentro do C6 Fest, a convite do Apple Podcasts, convidamos a jornalista e criadora de conteúdo Clara Novais e o ex-secretário de cultura da cidade de São Paulo Alê Youssef pra refletir sobre o que só o olho no olho consegue entregar, e por que isso importa tanto. Ouça agora!
🚨Alerta de spoiler: Na próxima segunda-feira (9/6), vai ao ar o último de três episódios gravados diretamente do C6 Fest, em que falamos sobre conhecer pessoas. No meio da correria do dia a dia — e de tantos estímulos digitais — construir novas relações não é uma tarefa fácil. Dá pra subverter essa lógica? A música pode facilitar a aproximação? Nossos convidados são Cris Guterres, jornalista, apresentadora e escritora; e Matheus Sodré, criador de conteúdo, roteirista e diretor audiovisual. Já segue o Desenrola no Apple Podcasts pra não perder nada!
texto: Dandara Fonseca | edição: Adriana Setti | arte: Eduardo Gayotto
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