

Com mais de 32 milhões de pessoas acima dos 60 anos e a expectativa de vida no Brasil subindo, segundo dados do IBGE, há cada vez mais gente precisando de cuidados. E, na ausência de políticas públicas eficazes, quem costuma assumir essa responsabilidade são os filhos — sobretudo as filhas. Esse senso de obrigação tem até nome: responsabilidade filial.
O artigo 229 da nossa Constituição Federal estabelece que “os pais têm o dever de assistir, criar e educar os filhos menores, e os filhos maiores têm o dever de ajudar e amparar os pais na velhice, carência ou enfermidade”. Ou seja, não se trata apenas de uma escolha. É lei.
Mas cuidar dos pais é bem diferente de cuidar dos filhos. Afinal, estamos falando de pessoas que viveram grande parte da vida de forma independente — muitas vezes garantindo o nosso bem-estar — e que possuem valores e personalidade muito bem definidos. Os problemas de saúde que surgem com o tempo intensificam ainda mais o turbilhão de sentimentos — angústia, medo, raiva, tristeza — que afloram de ambos os lados nesse processo, o que costuma gerar conflitos. Será que existe uma maneira mais leve de atravessar esse momento?
Cenário atual
De acordo com um levantamento do G1, com base em dados do Censo 2022, 35% dos brasileiros fazem parte da chamada “geração sanduíche”: com os pais vivendo mais e mulheres tendo filhos mais tarde, essas pessoas se veem responsáveis por cuidar de crianças e idosos quase na mesma proporção, o que pode gerar uma sobrecarga brutal.
O número de famílias com filho único também vem crescendo no Brasil — a taxa de fecundidade caiu de 2,32 filhos por mulher em 2000 pra 1,57 em 2023. Isso significa que o cuidado com os pais na velhice tende a se tornar uma experiência ainda mais solitária e desgastante. Tem o lado bom, de não ouvir os palpites de ninguém sobre suas decisões? Sim. Mas a ausência de irmãos pra dividir tarefas e angústias pesa. E mesmo quando há irmãos, se existe uma mulher entre eles, é bem provável que a responsabilidade acabe recaindo sobre ela.
Outro fator que agrava esse cenário é o aumento dos problemas de saúde mental na velhice atrelado ao aumento da expectativa de vida, especialmente doenças cognitivas como demência e Alzheimer. A projeção da Organização Mundial da Saúde (OMS) é que os diagnósticos de Alzheimer tripliquem até 2050, chegando a mais de 150 milhões de casos. Ao mesmo tempo, estudos vêm avançando no mapeamento dos principais fatores de risco associados a essas condições — o que pode ajudar tanto na prevenção quanto no cuidado.
Barril de pólvora
Se você cuida de uma pessoa idosa, provavelmente já reclamou da suposta “teimosia” que parece aflorar com a idade — e, na mesma medida, já ouviu que está avançando o sinal e querendo mandar demais. Nessas horas, tente respirar fundo e lembrar que, por mais que o envelhecimento possa ser encarado de forma leve, ele é um processo complexo. Muitas vezes, nossos pais sabem que precisam de cuidados, mas resistem a aceitar que estão perdendo parte da autonomia e do controle sobre a própria vida.
Faz parte da jornada do cuidador, também, aceitar que, por mais que existam diversos recursos pra mitigar os efeitos do envelhecimento — praticar exercícios físicos, estimular a mente etc. —, nem sempre a pessoa idosa está disposta a fazer tudo isso, ou se sente infeliz com as limitações que podem surgir pelo caminho.

Ao cuidar de alguém mais velho, é importante prestar atenção em certos comportamentos que, embora bem-intencionados, podem carregar traços de etarismo — como impor regras a quem ainda possui plena capacidade de tomar decisões ou infantilizar o idoso na intenção de demonstrar carinho. Além disso, em vez de criticar a maneira como nossos pais lidam com a própria velhice, é mais saudável tentar compreender o que está por trás disso: medo, frustração, orgulho etc.
Quem cuida de quem cuida?
Essa frase não ficou famosa à tôa. Há dificuldades emocionais, práticas e financeiras envolvidas no cuidado de pais idosos, e quem está desse lado deve lembrar que também precisa de ajuda. Cuidar de alguém não significa anular a si mesmo ou abrir mão de viver a própria vida. Buscar apoio em outros familiares, amigos e terapia, além de não deixar a própria saúde (física e mental) de lado, é sobrevivência.

Mas nem tudo são dores. Há quem consiga aproveitar o lado bom dessa situação — o que pode ajudar a viver melhor essa fase. Embora os cuidadores se sintam preocupados pelo lado financeiro e sobrecarregados pela responsabilidade, 91% se dizem gratos por poder ajudar familiares em necessidade e retribuir todo o cuidado que eles tiveram, segundo pesquisa da ONG American Association of Retired Persons (AARP).
Se você é jovem ainda
Ter conversas sinceras sobre envelhecimento com a família é uma ótima forma de preparar todos pra essa fase da vida. Quais são seus maiores medos sobre envelhecer? Você já pensou onde gostaria de morar caso precise de ajuda — em casa, com um cuidador ou em uma instituição bacana? Como estão suas finanças pra velhice? Perguntas como essas ajudam a reduzir a culpa e as incertezas que costumam surgir quando esse momento chega.
Também é fundamental cobrar políticas públicas que garantam cuidado digno para os idosos — afinal, não dá pra seguir colocando todo o peso sobre as famílias. Com o envelhecimento da população acontecendo em ritmo acelerado, essa já nem é mais uma opção viável, inclusive do ponto de vista financeiro.
Nos países nórdicos, por exemplo, o bem-estar dos idosos é tratado como responsabilidade do Estado. Além de sistemas públicos e universais de cuidado, há acesso a serviços domiciliares gratuitos ou subsidiados — como alimentação, higiene, medicação e transporte. Até mesmo o Japão, país em que o cuidado com os pais é tradicionalmente visto como um dever moral dos filhos, vem investindo cada vez mais em redes públicas de apoio.
Pra saber mais:
· O livro É sempre hora da nossa morte, amém (2021), de Mariana Salomão Carrara.
· O vídeo “Envelhecimento dos pais”, da psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva.
· Os episódios “Cuidar dos pais”, do podcast É nóia minha?; e “Como envelhecer bem”, do Desenrola, nosso podcast.
· A matéria “Nearly half of dementia cases could be avoided or delayed by tackling 14 risk factors”, da CNN.

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💬 Renata
🖥 Instruments of a Beating Heart, no Youtube
Esse doc concorreu ao Oscar de Melhor Curta Documental deste ano e mostra Ayame e seus colegas de uma escola de Tóquio ensaiando uma música de boas-vindas aos novos alunos. Difícil assistir sem derramar uma lagrimazinha ou querer abraçar a Ayame e dizer: “você consegue”. Fofo demais.
💬 Ricardo
📖 Batida Só, Giovana Madalosso
Depois de Tudo Pode Ser Roubado e Suíte Tóquio, a escritora curitibana volta com a história de uma jornalista que desmaia na rua e descobre uma doença no coração. Agora, cada emoção pode ser um risco — e ela precisa decidir o que sentir. Lançamento em 9/6, pela Todavia.
💬 Dandara
🎧 Z da questão, do Museu Itamar Assumpção
É o videocast do MU.ITA, museu digital que celebra a memória, a vida e a obra de Itamar Assumpção — aliás, vale a visita. A cada conversa, a obra do artista serve de ponto de partida pra reflexões sobre arte, música, cultura, memória e muito mais. No episódio de estreia, os convidados são Dexter 8º Anjo e Jup do Bairro. O papo tá muito legal!
💬 Adriana
📺 Close Errado, na DiaTV
Nem começou, mas já estou rindo por antecipação com o novo programa da Camila Fremder, podcaster e roteirista, e da empresária Jana Rosa, que estreia dia 26/05, às 19h, e vai ao ar semanalmente às segundas-feiras. Pra começar bem a semana com essas amigas hilárias falando (absurdos) sobre o que dá na telha.
💬 Duda
🖥 Ron Carter: Finding the Right Notes (2022), no Youtube
Documentário sobre um dos maiores contrabaixistas do planeta — que tem título do Guinness Book com o maior número de participações em gravações. O doc segue o fio de perguntas de Jon Batiste, alternando com depoimentos de peso como Herbie Hancock, Sonny Rollins e imagens históricas e atuais deste ícone da música.
💬 German
🎧✨ Começa hoje o C6 Fest, em SP, e uma das atrações mais aguardadas é o duo francês Air, que toca neste sábado, na íntegra, o clássico álbum Moon Safari. E, pra entrar no clima do french touch — aquele som cool, elegante e atemporal — vale (re)assistir As Virgens Suicidas (1999), filme da Sofia Coppola com trilha assinada por eles. Superchic!
💬 Manu
Lista das melhores comédias românticas, pela Vanity Fair
Sim, eu sou viciada nesse gênero de filmes. A problemática fica pra depois, porque agora descobri essa lista das 42 melhores comédias românticas de todos os tempos. Pra mim, ficou faltando Uma Linda Mulher (1990) entre os classificados. De resto, vale guardar pra quando faltarem opções na sessão da tarde de domingo.

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texto: Dandara Fonseca | edição: Adriana Setti | arte: Eduardo Gayotto
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