Ter um emprego com “carteira assinada” já foi motivo de orgulho — e até um marco da vida adulta. Mas as gerações mais novas parecem ter uma visão bem diferente sobre esse sistema de trabalho. De uns tempos pra cá, apareceram nas redes sociais vídeos e notícias de crianças e adolescentes “ofendendo” coleguinhas de escolas dizendo que o futuro deles é “ser CLT”.

A lógica por trás é: ser contratado por uma empresa, como símbolo de ter um emprego formal, significa ganhar pouco, passar horas no transporte público e ser obrigado a obedecer a outras pessoas. Mas de onde vem isso?

Pra relembrar

Criada em 1943, durante o Estado Novo, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) unificou a legislação trabalhista vigente e passou a regulamentar as relações de trabalho no Brasil. Segundo historiadores, a medida tinha três objetivos principais: atrair mão de obra para as cidades — já que, no início, os direitos previstos se aplicavam quase exclusivamente aos operários da indústria —, conter os conflitos entre as classes sociais e reprimir a chamada “ameaça comunista”. Tanto que, em sua versão original, a CLT restringia a criação de sindicatos e proibia greves.

Com o tempo, a CLT foi ampliando seu alcance até incluir todo tipo de trabalhador. Mas foi só em 1988, com a nova Constituição, que muitas das garantias previstas ali ganharam força de lei constitucional, sendo reconhecidas oficialmente como direitos sociais.

Outras formas de trabalho

Mas de onde vem essa ideia de que “ser CLT” é sinônimo de “ser perdedor”? Em parte, da Internet. Se você convive com crianças e adolescentes, provavelmente já percebeu que muitos dos seus ídolos hoje são influenciadores digitais — figuras que exibem rotinas cheias de viagens, mimos e liberdade. Esse estilo de vida glamouroso acaba parecendo muito mais atraente do que a realidade de quem trabalha com carteira assinada. Não por acaso, uma pesquisa realizada em 2022 pela startup INFLR mostrou que 75% dos jovens brasileiros sonhavam em ser influenciadores.

Nos últimos anos, também se multiplicaram nas redes perfis de crianças e adolescentes “ensinando” a ganhar dinheiro com cursos on-line. Frequentemente, os “coaches mirins” — como ficaram conhecidos — desdenham de quem pretende prestar o ENEM, fazer faculdade e seguir uma carreira tradicional: tudo a ver com a visão pejorativa sobre o trabalho formal. Muitos deles se inspiram no chamado “empreendedorismo de palco”, movimento em que empreendedores aparentemente bem-sucedidos defendem que qualquer um pode fundar sua startup e prosperar.

Esse estímulo pra “ser o seu próprio chefe” não se limita ao ambiente digital. No Novo Ensino Médio, por exemplo, o PEI (Projeto de Empreendedorismo e Inovação) busca desenvolver habilidades empreendedoras nos estudantes, como pensamento inovador, criatividade e a capacidade de identificar oportunidades de negócio.

Prós e contras

Ser um profissional autônomo ou ter seu próprio negócio pode, sim, trazer algumas vantagens — como maior controle sobre seus horários, desafios diferentes a cada novo projeto e a liberdade de trabalhar de onde quiser. Mas não se engane: o peso também é grande. Especialmente no início, é comum acumular diversas funções ou ter que lidar com muitos projetos ao mesmo tempo, o que pode levar à sobrecarga. Isso sem falar na aventura de viver sem saber o quanto e quando vai receber. Além disso, administrar uma empresa não é tarefa fácil. Pra cada admirador do Mark Zuckerberg que se dá bem, muitos vão à falência: no Brasil, 60% das empresas fecham antes de completar cinco anos, segundo dados do IBGE.

O que isso significa? Estimular habilidades empreendedoras entre os jovens pode ser positivo, mas deve ser feito de forma realista e responsável — o que, infelizmente, não acontece em muitos dos conteúdos sobre o assunto que circulam nas redes sociais. Caso contrário, esse discurso sedutor e simplista pode levar muitos a decisões impulsivas, como abandonar os estudos.

Outro ponto que merece atenção é a associação entre o mundo da criação de conteúdo e a ideia de riqueza instantânea. De acordo uma pesquisa realizada pela plataforma Influency.me em parceria com a Opinion Box, 33,2% dos influenciadores brasileiros ganham entre R$ 500 e R$ 2.000 mensais, e apenas 1,5% ultrapassam a faixa de R$ 50.000 por mês. Ou seja, fazer sucesso na Internet exige dedicação e talento, mas também uma boa dose de sorte. Apostar nesse caminho como única opção pode ser uma cilada.

Igual, só que diferente

Tem mais: hoje, ter o próprio negócio ou ser autônomo não significa, necessariamente, mais liberdade. Isso porque muitas pessoas jurídicas — ou seja, com um CNPJ ativo — prestam serviços fixos pra outras empresas e cumprem as mesmas obrigações de um funcionário formal (como jornada definida, subordinação a chefes e obediência às regras da empresa), mas sem ter os mesmos direitos garantidos. Essa prática é conhecida como pejotização.

Nos últimos anos, muitos trabalhadores aceitaram esse tipo de contrato — seja por falta de vagas formais em suas áreas, seja pela promessa de salários mais altos. Mas, aos poucos, parte desses profissionais vem sentindo saudades da CLT, como mostra uma reportagem da Folha de S.Paulo. Os motivos vão desde os altos custos com plano de saúde e previdência privada até a ausência de direitos como férias remuneradas e pagamento de horas extras — fatores que podem, inclusive, levar ao esgotamento físico e mental.

Tudo depende

No fim das contas, trabalho é trabalho — seja com crachá ou CNPJ. O que não vale é transformar uma modalidade em sinônimo de sucesso e a outra em piada pronta. A CLT, com todas as suas limitações e burocracias, ainda é o que garante estabilidade e direitos pra milhões de brasileiros. Já o empreendedorismo, e suas inúmeras possibilidades, pode cobrar um preço alto de quem escolhe esse caminho sem entender os riscos.

Pra saber mais:

· O estudo “Vibes do Trabalho”, da Float Vibes.
· O episódio “A pejotização em debate no supremo”, do podcast O Assunto.
· A matéria “‘Estude pra ser pobre’: crianças desdenham da escola e dizem lucrar na web”, da jornalista Sofia Pilagallo pra Uol.
· O livro “Uberização, trabalho digital e indústria 4.0” (2020), organizado por Ricardo Antunes.

O HIDRATE-SE É O NOVO CUIDE-SE

“Bebe um copinho d’água!” Quantas vezes alguém que ama você — a começar pela sua mãe — já disse isso em um momento crucial? Cuidar da hidratação das pessoas que estão ao nosso redor é demonstrar carinho e atenção. E a forma como a gente bebe água também pode dizer muito sobre autocuidado, estilo de vida e prioridades em relação ao meio ambiente. Junto com a Everest, que leva bem-estar pra casa dos brasileiros com purificadores de alta qualidade, a gente pergunta: o que o seu jeito de consumir água diz sobre a sua maneira de encarar a vida? Vale lembrar que, em tempos de crise climática, ter um purificador de água na cozinha significa cuidar de você, do planeta e de quem está ao seu redor. Ah, e corre pro site pra conferir a promoção que está rolando neste dia das mães!

Já parou pra pensar em quanta vida existe na Amazônia?

Nas raízes das árvores, nas curvas dos rios, nos sons que vêm da floresta e nas vozes de milhões de pessoas que fazem dela o seu lar, existe ali um saber ancestral poderoso. E com a atenção global voltada pra COP30, que rola em Belém neste ano, o Greenpeace precisa da ajuda de todos pra assinar a petição que cobra das lideranças globais o verdadeiro respeito pela Amazônia. Vem com a gente?

💬 Adriana
📺 Seus Amigos e Vizinhos, na Apple TV
Quem adora ver os ricos dos subúrbios americanos passando vexame e fazendo coisas absurdas pra manter as aparências? Protagonizada por Jon Hamm — o eterno Don Draper de Mad Men — a série narra as aventuras de um bonitão do mercado financeiro que vai à luta na subversão depois de ficar numa pior.

💬 German
🎥 Cine Queerioca
Se tem uma dica quente no Rio, é o Cine Queerioca — que rola toda terça, às 18h30, no Centro de Referência de Arte e Cultura Queer. Inspirado no formato dos cineclubes, o projeto traz uma curadoria afiada e celebra a diversidade e a memória queer. Os ingressos têm preços populares, e os filmes deste mês são vintage chic: na próxima terça, 13/5, tem Amor Maldito (1984), e na seguinte, 20/5, Espelho de Carne (1985).

💬 Ricardo
🎧 Novela, Fito Páez
Fito está na lista dos artistas que me fazem chorar de emoção. É, talvez, o maior nome vivo da música argentina. Em Novela, projeto que começou a escrever há mais de 30 anos, ele junta canções e personagens como se estivesse roteirizando um filme ou escrevendo um livro. Tem magia, política, amores improváveis, realismo fantástico e circo. Um álbum pra escutar como quem lê um romance ou assiste um longa.

💬 Renata
🖼 Andy Warhol: Pop Art!, no MAB Faap
Uma retrospectiva inédita de Andy Warhol acaba de chegar ao MAB Faap — e é a maior já vista fora dos Estados Unidos! São mais de 600 obras, incluindo pinturas icônicas, filmagens, fotografias, desenhos, estampas e até vestidos criados pelo artista. A exposição fica em cartaz até 30 de junho.

💬 Manu
🎧 Mano a Mano, nova temporada, no Spotify
O Mano Brown está de volta! Dessa vez, num papo reto com o humorista, roteirista e apresentador Paulo Vieira. Na nova temporada, além de áudio, os episódios ficam disponíveis em vídeo, sempre às quintas. E tem uma lista de gigantes confirmados, como Erika Hilton, Monique Evelle e Renato Noguera. Já sei o que vou maratonar enquanto lavo louça pelas próximas semanas.

💬 Duda
📺 Fall of Civilizations, no Youtube e Spotify
Criada pelo historiador Paul Cooper, a série, que soma centenas de milhões de visualizações, narra de maneira envolvente a trajetória de diversas civilizações e o que as fizeram colapsar — além de mergulhar no que deve ter sido a vida em cada uma delas. Pra opções legendadas em português, vá ao YouTube. Em breve, também em livros!

💬 Dandara
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Podcast narrativo que revela as cicatrizes deixadas pelas enchentes que aconteceram no Rio Grande do Sul em 2024. A partir de relatos de quem viveu o desastre e análises de especialistas, faz refletir: ainda dá pra salvar o planeta? Com uma escuta imersiva e ótima apuração, tem episódios novos todas as quartas — os dois primeiros já estão no ar.

Suco detox, yoga, musculação e alimentação balanceada. Depois, pista de dança, comida boa e drinks — tudo isso sem culpa. No episódio mais recente do Desenrola, a gente conversa sobre como dá, sim, pra cuidar da saúde sem abrir mão dos prazeres mundanos. Nossos convidados são Nathalia Fuzaro, jornalista, triatleta e cofundadora da plataforma Inspira e Transpira, e Bruno Bocchese, publicitário e fundador da marca de roupas de corrida Bad Running. Ouça agora!

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