Ser latino é transformar pouco em muito, e o caos em poesia. É existir entre camadas de culturas entrelaçadas, em um continente marcado por contradições, complexidades e riquezas. Carregamos nas costas histórias de resistência, criatividade e sobrevivência — tudo isso com uma estética própria, que mistura tradição e reinvenção.

Em meio a tensões globais e discursos excludentes — como os que marcam o governo Trump e sua política de fronteiras —, a América Latina tem voltado o olhar pra si e chamado a atenção do mundo: da música à moda, parece que ser latino é o novo cool.

Afinal, o que significa ser latino?

Segundo estudiosos como o argentino Walter Mignolo, a noção de latinidade surgiu por volta da década de 1850, e foi formulada por intelectuais franceses como parte de um projeto imperialista que buscava justificar a influência da França nas Américas. Com o tempo — especialmente a partir da segunda metade do século 20 — essa ideia foi ressignificada por pensadores latino-americanos como ferramenta pra construir uma identidade regional e promover uma noção de unidade cultural e política entre os países do continente.

Hoje, ser latino é uma identidade múltipla, marcada por uma série de fatores: falar (ou ter herança de) línguas latinas como espanhol e português; carregar marcas da colonização europeia, dos povos originários das Américas e, em muitos países, da presença africana forçada pela escravidão; viver identidades entrecruzadas, nem sempre reconhecidas nos discursos dominantes e, por fim, compartilhar experiências de marginalização e resistência em escala global. Ou seja, é sobre como se vive, se expressa e se resiste.

Brasil e latinidade

A relação dos brasileiros com a identidade latina é complexa. Embora o país faça parte da América Latina do ponto de vista geográfico e compartilhe heranças coloniais e sociais com as nações vizinhas, o fator linguístico costuma ser um divisor simbólico importante. E não é só isso: produções norte-americanas ainda costumam associar a latinidade à cultura — ou aos estereótipos — hispânicos. Dada a forte influência cultural dos Estados Unidos no Brasil, não é de se estranhar que muita gente aqui não se identifique com o termo “latino”.

Professor do Departamento de Relações Internacionais e do Programa de Pós-Graduação em Geografia da PUC Minas, Rodrigo Corrêa Teixeira afirma que o Brasil passou décadas de costas para os seus vizinhos, retomando o diálogo regional apenas após a redemocratização, nos anos 1990. Ainda assim, Rodrigo observa que, curiosamente, “mesmo não havendo um sentimento de união entre as ditaduras sul-americanas, aparecia no imaginário brasileiro essa relação com a América Latina”. Exemplos marcantes disso são a canção “Soy Loco Por Ti, América”, de Caetano Veloso, e “Sangue Latino”, álbum de estreia dos Secos e Molhados.

Nos últimos anos, artistas contemporâneos vêm resgatando e atualizando essa identidade latino-americana. Um exemplo marcante é Anitta, que em 2022 se tornou a primeira artista solo latina a alcançar o Top 1 global do Spotify com a música Envolver. Cantando em espanhol, e mesclando ritmos como funk e reggaeton, a cantora contribui pra que o país se sinta, por fim, mais latino.

Hype latino

Este ano, o planeta se curvou a DtMF, álbum do portorriquenho Bad Bunny que toca em temas como colonialismo e gentrificação. Mais do que música, tanto ele quanto artistas como Anitta fazem afirmações políticas, estéticas e culturais — que reposicionam a latinidade como potência criativa e de resistência global.

Mas o hype latino vai muito além da música. Vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional e indicado a Melhor Filme, Ainda estou aqui e Fernanda Torres, claro, chamaram a atenção do mundo pro legado audiovisual da região que, em 2024, também produziu sucessos como a série colombiana 100 anos de solidão (Netflix).

Já na moda, cada vez mais marcas latino-americanas abandonam as referências eurocentristas pra criar coleções inspiradas em traços culturais do continente, a exemplo da colombiana Agua; da Luar, de origem dominicana, e da Farm Rio, indicadas ao Latin American Fashion Awards no ano passado — a marca carioca, aliás, está na mira de fashionistas do Hemisfério Norte e vem colocando o Brasil no mapa da moda internacional.

Por fim, com o euro e o dólar nas alturas, ganha força também o turismo regional em um continente que tem praias no Atlântico, no Pacífico e no Caribe; paisagens que vão da Amazônia ao Deserto do Atacama; metrópoles vibrantes como Rio de Janeiro, Buenos Aires, Bogotá e Cidade do México; comidas variadíssimas e deliciosas e — acima de tudo — gente calorosa sempre pronta pra hablar portuñol.

Pra saber mais:

· O canal de YouTube “Teoria Social Latino-Americana”, de Raphael Seabra.
· Os livros A invenção da América (1992), de Edmundo O’Gorman; História da América Latina (2014), de Maria Ligia Prado e Gabriela Pellegrino; e As veias abertas da América Latina (1971), de Eduardo Galeano.
· Os episódios “¿Ser brasileño es ser latino?”, do podcast O clube do play; e “Vira-lata exportação”, do podcast CaosCast.
· As matérias “De Maluma a Bad Bunny, los ‘latin lovers’ han conquistado el mundo”, do El País; e “Untangling the Knotty Politics Behind Reggaeton’s Rise in Spain”, da Pitchfork.

BORA ADERIR AO MOVIMENTO AXILAS LIVRES?

A gente levanta os braços pra dançar, pra reivindicar, pra torcer pelo nosso time e pra se exercitar. E quer fazer isso sem constrangimento. Todas as axilas são reais. E nenhuma deveria limitar os seus movimentos. Pelos, manchas, asperezas e suor são apenas parte do corpo humano. Mas foram transformados em tabu, especialmente no corpo feminino. E se a gente desse menos atenção à pressão estética e naturalizasse a diversidade? Por acreditar que toda axila merece ser cuidada com carinho, Dove Brasil desenvolveu a nova linha Desodorante Creme Sérum, com três opções pra tratar essa região: pra hidratação profunda e reparação diária (tampinha azul), prevenir o escurecimento, com niacinamida (rosinha), ou com fórmula hipoalergênica pra peles sensíveis (verde).

💬 Fabi
🎧 Luiz Bonfá Plays Great Songs
Neste álbum de 1967, está a faixa Seville, que a rapper Doechii usa como sample no hit das redes Anxiety. O álbum é todo instrumental, com Bonfá tocando clássicos no violão. Tem um quê de música de elevador, perfeito pra deixar rolando numa manhã de domingo. bit.ly/42sQn3l

💬 Duda
📺 Con Mum, na Netflix
Pra quem não cansa de assistir os golpes da vida (dos outros, é claro), o documentário narra o encontro de um renomado chef inglês com uma senhora que vive uma vida luxuosa em restaurantes e hotéis ao redor do mundo. bit.ly/44P68Da

💬 Dandara
🎥 Marina Guaragna, no YouTube
Você provavelmente já foi impactado por algum vídeo da Marina Guaragna no Instagram, mas vale explorar também seu canal no YouTube. Lá, a viajante apresenta destinos muitas vezes cercados de estereótipos — como China, Cuba e Jamaica — de forma leve, mas muito responsável. bit.ly/4jXltpJ

💬 Adriana
📺 100 Feet Wave - The Odyssey Continues, na Max
Uhuu! Estreia neste feriado a terceira temporada do melhor documentário sobre surf de todos os tempos. Mais do que retratar de forma muito íntima a vida dos malucos que enfrentam as ondas de Nazaré, é uma viagem sobre os limites da obsessão, da resistência e da superação do medo. bit.ly/44eptgZ

💬 Ricardo
🎭 Avenida Paulista, da Consolação ao Paraíso
A peça de Felipe Hirsch segue em cartaz no Sesi-SP até junho e agora tem trilha lançada nas plataformas. Com direção musical de Maria Beraldo e faixas inéditas de Juçara Marçal, Arnaldo Antunes, Tim Bernardes e Jards Macalé, o projeto é um mergulho musical na minha amada SP. bit.ly/42D4dAg

💬 German
🗣️ Palestras do WebSummit Rio 2025
O Web Summit Rio terminou, e o The Summer Hunter marcou presença em painéis que discutiram os rumos da produção de conteúdo e da cultura digital. Se você perdeu ou quer rever algumas das discussões mais importantes desta edicao, as palestras do palco central estão no YouTube. Nossa dica: assista ao papo entre Ronaldo Lemos e o ministro Luís Roberto Barroso sobre IA e democracia. bit.ly/44RR0oB

Até pouco tempo atrás, a gente se limitava a desejar — e invejar — as coisas e feitos de pessoas ao nosso redor. Com as redes sociais, passamos a nos comparar com muito mais gente, o tempo inteiro. No episódio mais recente do Desenrola, convidamos a psicanalista Vera Iaconelli pra refletir sobre as consequências que o excesso de comparação pode nos trazer e pensar em formas de lidar melhor com a admiração e a inveja que sentimos em relação a outras pessoas. Ouça agora!

🚨 Alerta de Spoiler: Na próxima segunda-feira, 05/01, o nosso papo é sobre o equilíbrio entre vida saudável e hedonismo. Nos últimos tempos, cada vez mais gente vem entendendo que não é preciso abrir mão dos prazeres da vida pra cuidar da saúde. Pelo contrário: misturar os dois pode ser uma ótima ideia. Nossos convidados são Bruno Bocchese, da marca de corrida Bad Running, e Nathalia Fuzaro, da plataforma Inspira e Transpira. Já segue o Desenrola na sua plataforma de áudio preferida pra não perder nenhuma novidade!

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