Atire a primeira pedra quem nunca cedeu à tentação de falar mal de alguém ou, no mínimo, dar corda pra quem despeja informações ácidas sobre outras pessoas. “Eu até gosto dela, mas…”; “Eu nem queria falar nada, só que…”; “Você viu o que fulano fez?” — frases como essas são um convite quase irresistível. Fofocar é parte da natureza humana e praticamente todo mundo sucumbe a esse “vício” com mais ou menos frequência.

De acordo com um estudo de 2004, dedicamos até dois terços do nosso tempo batendo papo sobre pessoas que não estão presentes. Já uma meta-análise publicada em 2019 na revista acadêmica Social Psychological and Personality Science estimou que passamos, em média, 52 minutos por dia fofocando. A maior parte dessas conversas tem um teor neutro. Mas, quando envolvem julgamentos, a tendência é que pesem mais pro lado negativo. Por que a gente é assim? Dá pra evitar falar mal dos outros?

Não é só maldade

A fofoca está tão ligada à natureza humana que teve até um papel na evolução da espécie, como forma de passar informações adiante. No passado, ajudava a identificar quem era confiável no grupo e quem agia de forma desonesta ou não cooperava, por exemplo. Do ponto de vista cerebral, fazer — ou ouvir — uma fofoca ativa nosso mecanismo de recompensa, despejando no cérebro substâncias relacionadas ao prazer. Por isso, tem essa conotação meio “viciante”.

Falar mal dos outros também pode ajudar a fortalecer os laços dentro de um grupo. É bonito? Não. Mas quando pessoas compartilham opiniões negativas sobre alguém, encontram pertencimento — quem nunca se aproximou de um colega de trabalho assim?

No livro Sapiens: Uma Breve História da Humanidade, o historiador Yuval Noah Harari argumenta que a fofoca ajudou os primeiros Homo sapiens a formar grupos maiores e mais estáveis. Sua ideia se apoia na tese do famoso antropólogo e psicólogo britânico Robin Dunbar, que foi além: pra ele, a fofoca substituiu o “grooming” — ato de se limpar mutuamente, comum em primatas — como principal forma de criar laços sociais.

Falar mal de alguém ainda é uma forma de controlar a atenção do outro — algo difícil em tempos nos quais parece que ninguém mais sabe ouvir, seja pelo excesso de estímulos digitais, seja pelo ritmo acelerado da vida. Você pode tanto atrair os holofotes ao dizer coisas maliciosas sobre terceiros, como usar esse “recurso” pra desviar o foco dos seus próprios aspectos negativos.

Tô de olho

As redes sociais — e a Internet como um todo — elevaram a fofoca a um novo patamar. Nunca foi tão fácil observar e julgar a vida alheia, tanto de famosos como de pessoas anônimas que conhecemos. Essa exposição constante também intensifica a comparação e, nesse cenário, diminuir o outro pode funcionar como um atalho pra se sentir melhor.

No entanto, o ambiente digital também interfere no tom e na privacidade da fofoca, além de aumentar a probabilidade das coisas saírem do controle. Mandar um print comprometedor pra pessoa errada? Responder um story falando mal de alguém pra ela mesma? O menu de gafes é vasto.

Coisa séria

De acordo com o que o psicanalista Christian Dunker explicou em um vídeo em seu canal no YouTube, criticar os poderosos é uma resposta dos que estão sendo oprimidos. Ou seja, falar mal do governo, dos mais ricos, das celebridades ou do chefe surge como uma tentativa de equilibrar as relações de poder.

No entanto, é preciso lembrar que a fofoca também pode conter crueldade, propagar preconceitos, alimentar discursos de ódio e até ser enquadrada em crimes como calúnia, injúria e difamação. Em casos extremos, tem consequências duradouras, levando a demissões, términos de relacionamentos e ao desenvolvimento de quadros depressivos. Essas repercussões se tornam ainda mais sérias em um mundo no qual as informações se espalham num piscar de olhos e tomam proporções antes inimagináveis.

Desamor à primeira vista

Muitas vezes, fazemos comentários ácidos sobre pessoas que nunca nos prejudicaram. Essa sensação de antipatia instantânea, sem um motivo concreto, pode ter diferentes explicações. Uma delas é a semelhança — na aparência, no tom de voz, no jeito de agir etc. — com alguém que nos marcou negativamente no passado. Em outros casos, o incômodo surge porque ela apresenta características que rejeitamos em nós mesmos e temos dificuldade em reconhecer.

Momento de reflexão

Antes de falar mal de alguém, vale exercitar a compaixão. Em um texto pra Psychology Today, a psicóloga Hannah Rose conta que, sempre que sente aquela pontada interna de adrenalina ao estar prestes a fazer um comentário ácido, se faz três perguntas: “Isso é verdade? É bom? É útil?”. Se a resposta pra alguma delas for negativa, ela tenta — nem sempre consegue, e tudo bem — se segurar e ficar calada.

Fofocar também pode ser um tiro no pé, tanto nas relações pessoais quanto no trabalho. E, pra isso, você nem precisa ser quem dá início aos comentários negativos — só endossar ou repassar já pode gerar problemas. Além disso, é mais difícil confiar e se abrir com alguém que está sempre falando mal dos outros. Se a pessoa critica todo mundo pelas costas, qual a chance de não estar fazendo o mesmo sobre você?

Quem fofoca demais ainda pode acabar prisioneiro da própria língua. O medo do que os outros vão comentar pode se tornar um freio, impedindo atitudes espontâneas e naturais. Por isso, se não for trazer nada de bom pra ninguém, quase sempre é melhor respirar fundo e deixar quieto.

Pra saber mais:

· O vídeo “The Sociology of Gossip”, de Elaine Lui.
· O estudo The envious brain: the neural basis of social comparison.
· O livro The Secret Life Of Secrets (2022), de Michael Slepian.
· Os episódios “Por que é tão bom falar mal de si mesmo?”, do podcast Grande Surto; e “Por que expressamos tanta raiva nas redes sociais?”, do podcast Naruhodo.
· A matéria “Por que não vamos com a cara de algumas pessoas sem conhecê-las?”, do El País.

A ACADEMIA É A NOVA BALADA?

Luzes coloridas, DJs, ambiente na penumbra, som bombando: balada ou treino? As duas coisas. As academias estão reinventando o jeito de se jogar na pista, refletindo um estilo de vida focado em bem-estar. E, ao passo que a saúde ocupa uma posição cada vez mais central na vida das novas gerações, os centros de fitness estão se consolidando como novos espaços de socialização urbana, assumindo o papel — e a estética — de bares e casas noturnas. Essa transformação reflete uma mudança cultural: no foco das discussões sobre saúde mental e burnout, a Geração Z está bebendo menos, quer dormir melhor e busca experiências que gerem mais “energia” e conexão com outras pessoas na mesma vibe. Quer se jogar nesse novo tipo de “pista”? Na Netshoes você encontra tudo o que precisa pra treinar e socializar na academia.

💬 Adriana
📖 O sentido das Águas, de Drauzio Varella
Em ano de COP Belém, o novo livro do Dr. Drauzio, lançado pela Companhia das Letras, é essencial. Em sua 20ª obra literária, ele narra suas vivências no Rio Negro, em mais de 30 anos de viagens pela Amazônia. E, se você perdeu o Roda Viva com ele esta semana, vale assistir! amzn.to/3Y15Ncz | bit.ly/43UE9lj

📺 Amor no Espectro, na Netflix
Chegou a nova temporada desse reality que narra, de forma delicada e didática, a jornada de pessoas com autismo no aprendizado sobre dates e relacionamentos. Recomendo também assistir à versão australiana, que tem duas temporadas. bit.ly/42zrkup

💬 German
📖 Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro
Como estou em Itaparica, não tem como não lembrar de João Ubaldo Ribeiro, o filho mais ilustre da ilha. Bateu vontade de reler Viva o Povo Brasileiro. É um livraço. Uma viagem alucinada, crítica e bem-humorada pela história do Brasil. Claro que algumas partes envelheceram (como tudo, né?), mas ainda é uma obra que provoca, diverte e faz pensar. Vale demais a releitura. amzn.to/4cIyMYU

📺 Bembé do Mercado, Educação Patromonial
Essa semana, a Beija-Flor anunciou o enredo pro Carnaval 2026: o Bembé do Mercado, maior Candomblé de rua do mundo, que acontece há 136 anos na minha querida Santo Amaro, no Recôncavo Baiano. É lindo, é potente, é Brasil. E se quiser entender mais sobre essa celebração e sobre a cultura afro-brasileira, recomendo essas vídeo-aulas feitas pela Associação Beneficente do próprio Bembé. bit.ly/42i6UHh

💬 Manu
📺 Black Mirror, na Netflix
Está de volta a série de terror mais real dos streamings, ao que tudo indica, com os episódios mais perturbadores até agora, elenco de peso e temas como gaslighting, memória, vínculo com IA… Difícil saber se é ficção ou uma apurada previsão do futuro. bit.ly/3RnIUwc

📖 Deslumbramento, de Richard Powers
Um pai astrobiólogo e seu filho de nove anos, um garoto peculiar, atravessam um mundo em crise enquanto lidam com a perda da mãe. Juntos, imaginam planetas e narrativas pelo cosmos e tentam desvendar os mistérios da origem da vida. Um delicado convite a reconsiderar nossa relação com a natureza. amzn.to/42hc6eA

💬 Renata
📧 PunkYoga
Projeto literário do escritor e jornalista Nathan Fernandes, editor do portal Ciência Psicodélica. A cada quinze dias, ele entrega reflexões que cruzam ciência, filosofia e viagens da mente, misturando Olodum com cultura egípcia e budismo com David Bowie. bit.ly/3Y0J0xC

💬 Ricardo
📚 O Novo Agora, de Marcelo Rubens Paiva
Autor de Feliz Ano Velho (1982) e Ainda Estou Aqui, que inspirou o filme vencedor de um Oscar, o escritor, dramaturgo e jornalista Marcelo Rubens Paiva fecha sua trilogia de memórias com O Novo Agora (Companhia das Letras). No livro, reflete sobre paternidade, crises e as transformações do Brasil e da própria vida. amzn.to/3Dzziv2

🎤 Andrés Calamaro, ao vivo no Cine Joia
Neste sábado, 19/4, o argentino Andrés Calamaro sobe ao palco do Cine Joia, em SP, com seu repertório que cruza décadas. Ex-integrante dos Abuelos de la Nada e do grupo Los Rodríguez, é um dos nomes mais influentes do pop rock latino. Meio Lou Reed, meio Dylan portenho, segue atual e provocador. No setlist, faixas como Flaca e Te Quiero Igual. bit.ly/3Y1ouwP

Em um momento em que cada vez mais pessoas se sentem desmotivadas no âmbito profissional, empresas exigem que seus funcionários demonstrem alegria e engajamento — custe o que custar. No episódio mais recente do Desenrola, nosso podcast, junto com a TEDx Speaker, consultora e pesquisadora Renata Rivetti, fundadora da Reconnect Happiness At Work, e com a empreendedora digital Andrea Janér, fundadora e CEO da Oxygen, a gente questiona: a gente tem mesmo que ser feliz no trabalho? E mais: o que precisa mudar pra que isso realmente aconteça? Ouça agora!

🚨 Alerta de spoiler: Na próxima segunda-feira (21/4), num papo especial pro Dia da Terra e oferecido pela Stanley, a gente reflete sobre como a moderação pode simplificar a vida. Em uma era marcada por excessos, ela surge como uma alternativa pra quem quer uma vida com mais propósito, mas sem abrir mão do prazer. Nosso convidado é o especialista em design pra sustentabilidade, palestrante, consultor, apresentador e escritor André Carvalhal. Já segue o podcast na sua plataforma de áudio preferida pra não perder nada.

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