

Você tenta conversar com alguém e percebe que o interlocutor está ali, só que não. Ou então, o contrário acontece: você ouve a pessoa por cima, murmurando um “ahã” aqui e acolá e, no fim do papo, nem lembra direito o que ela disse. Quem nunca?
Entre notificações incessantes, feeds infinitos e a cabeça dando voltas com um monte de pensamentos ao mesmo tempo, parece que estamos perdendo a capacidade de escutar com atenção. E, segundo estudiosos, essa dificuldade pode estar na raiz de muitos dos problemas que enfrentamos hoje: conexões superficiais, aumento dos divórcios, conflitos armados, polarização, solidão… Como resgatar a arte de ouvir?
Por que não escutamos de verdade?
Apesar da tecnologia muitas vezes facilitar a conexão, ela também tem um papel fundamental na atrofia da nossa capacidade de ouvir. Além de incentivar interações mais rápidas e superficiais, o celular tornou mais fácil adiar conversas pra um momento de maior disposição e interesse — algo impossível no contato olho no olho. No ambiente digital, também é comum ver diálogos se transformando em duelos de quem grita mais alto pra defender seu ponto de vista.
Ao mesmo tempo, o ritmo acelerado da vida moderna, somado ao excesso de estímulos digitais, tem sequestrado a nossa atenção. A cultura do multitasking, por exemplo, nos dá a falsa sensação de produtividade, mas, na realidade, enfraquece nossa capacidade de focar em uma única tarefa por longos períodos. Uma pesquisa da Microsoft de 2015 apontou que nossa atenção média caiu pra apenas oito segundos — um a menos que a de um peixe-dourado.
Parece óbvio demais, mas até o fato de vivermos em um mundo cada vez mais barulhento nos impede de exercitar a arte da escuta. Em meio a tantos estímulos sonoros, buscamos refúgio em fones de ouvido com cancelamento de ruído, criando bolhas individuais nas quais ninguém está realmente disposto a ouvir — ou sequer perceber — quem está à sua volta.
Fugindo do silêncio incômodo
Algumas vezes, o medo de ter que lidar com alguns segundos de silêncio nos leva a formular mentalmente uma resposta enquanto a outra pessoa ainda fala. Mas ouvir de verdade vai além de aguardar o momento certo de opinar. É estar presente, perceber os detalhes, captar as entrelinhas.
Além disso, apesar de serem incômodas, as pausas na comunicação são necessárias em certas situações. Algumas conversas exigem tempo pra refletir e processar. Nesse sentido, o silêncio pode ser valioso, permitindo que os argumentos sejam analisados com mais consideração. Em alguns casos, essas lacunas também abrem espaço pra que a outra pessoa diga um pouco mais.
O que perdemos
Quando escutamos com atenção, demonstramos à outra pessoa que nos importamos com ela — e isso gera trocas que realmente fortalecem laços e criam conexões profundas. Sem uma escuta atenta e envolvimento verdadeiro, conversas se resumem a trocas de informações. Ouvir também é o primeiro passo pra compreender o outro. Não por acaso, William Ury, cofundador do Programa de Negociação de Harvard, considera essa habilidade a ferramenta mais poderosa na resolução de conflitos.

Educação com escuta
Na nossa sociedade, é comum ignorarmos as crianças, desconsiderando o que elas querem ou sentem. Isso não apenas impede que elas aprendam o valor de ouvir, mas também as ensina, silenciosamente, que seus sentimentos não importam. Se não as escutamos, mesmo quando parecem “difíceis”, as emoções negativas que elas vivenciam não desaparecem — elas apenas deixam de compartilhá-las conosco.
Barulho interno
Segundo um estudo da Universidade de Harvard, nossa mente passa quase 47% do tempo pensando em coisas que não estão acontecendo no presente. Isso significa que, muitas vezes, quando alguém fala, estamos fisicamente presentes, mas mentalmente em outro lugar — pensando em tarefas a fazer, preocupações com o futuro ou até relembrando situações do passado.
Por isso, um dos primeiros passos pra ouvir de forma verdadeira o outro é ouvir a si mesmo primeiro. Isso significa reconhecer como estamos nos sentindo e o que está nos afligindo antes de abrir espaço para os sentimentos alheios. Ao praticar essa escuta interna, conseguimos reduzir o barulho mental, organizar nossas emoções e, assim, direcionar o centro da atenção em quem estamos conversando.
Uma questão de treino
Primeiro, é importante escutar atentamente o que o outro está dizendo — sem responder aquela mensagem de WhatsApp ou pensar na comida que está estragando na geladeira ao mesmo tempo. Além de fazer pequenas pausas pra refletir quando necessário, é bom mostrar interesse fazendo perguntas. Por exemplo: se seu parceiro disser que está triste, questione desde quando ele vem se sentindo assim, quais outras emoções estão mais intensas nesse momento, se você poderia fazer algo pra ajudar etc.
Durante uma conversa, é natural lembrar de situações semelhantes que você ou pessoas próximas já viveram. Se compartilhadas de forma breve, essas histórias podem oferecer acolhimento, reforçar o que foi dito e até inspirar soluções. No entanto, é preciso equilíbrio: se estender demais ou recorrer a esse hábito com frequência pode desviar o foco do outro e colocá-lo sobre você. Aqui, a regra é simples: ouvir mais e falar menos.
Por fim, evite interromper. Esse é um gesto simples, mas poderoso: dar espaço pra que a outra pessoa conclua seu pensamento permite que ela se expresse com clareza e segurança, criando um diálogo mais equilibrado e respeitoso.

Pra saber mais:
· O TED 5 maneiras de escutar melhor, de Julian Treasure.
· O livro A arte da escuta: Desenvolvendo a criatividade pela prática da atenção (2022), de Julia Cameron.
· O episódio “Conversas corajosas: a arte de encarar o não dito, com Elisama Santos”, do podcast Bom dia, Obvious.
· A matéria “Hold That Thought! Here’s Why Being Interrupted Is So Irritating” do The New York Times.
A importância do tempo de qualidade com a família e os amigos
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🚨 Alerta de spoiler: Na próxima segunda (31/3), nosso papo é sobre vulnerabilidade. Mostrar as nossas fragilidades é o que permite que a gente se aproxime de outras pessoas e crie laços profundos. Mas se expor em excesso também pode ser um tiro no pé. Então fica a dúvida: até que ponto vale ser vulnerável? Quem nos ajuda a refletir sobre o assunto é o terapeuta e mestre em psicologia Alexandre Coimbra Amaral. Já segue o Desenrola na sua plataforma de áudio preferida pra não perder nenhuma novidade!
texto: Dandara Fonseca | edição: Adriana Setti | arte: Eduardo Gayotto
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