Em 2023, a joalheria Tiffany lançou o “aplicativo da alegria”, Tiffany Joy, com o objetivo de incentivar os funcionários a postar momentos felizes dentro da empresa. No entanto, em pouco tempo, o que deveria ser uma ferramenta motivacional se transformou em uma cobrança por parte dos superiores, e o app ganhou o apelido de “Forced Joy” — alegria forçada. O termo vem sendo aplicado pra descrever uma estratégia adotada por várias empresas mundo afora, que engloba desde a implantação de escritórios “superdivertidos” pra justificar a volta ao presencial, a casos extremos, como o da rede de supermercados japonesa AEON, que, desde o ano passado, monitora o sorriso dos empregados por IA.

Esses exemplos ilustram uma tendência crescente: empresas tentando transformar a felicidade em tarefa. Em vez de apenas entregar um produto ou serviço, agora os funcionários também devem performar... emoção. Ou seja, não basta ter um bom desempenho; é preciso demonstrar engajamento, inspiração e motivação. Mesmo quando tudo o que você quer é fazer seu trabalho, pagar os boletos e viver a sua vida.

Novos patamares

É verdade que trabalhar sempre exigiu certa dose de atuação. Especialmente no setor de serviços e hospitalidade, o alto-astral — espontâneo ou não — é parte do jogo. Sorrimos pra clientes, pra ter carisma no Zoom, pra demonstrar entusiasmo em apresentações etc. Independentemente do que estamos vivendo na vida pessoal, em muitas empresas, a regra é clara: no ambiente de trabalho, é preciso reprimir os sentimentos e performar.

Em 1983, a socióloga norte-americana Arlie Russell Hochschild introduziu o termo “trabalho emocional” pra descrever os momentos em que “parecer amar o trabalho se torna parte do trabalho”, no livro The Managed Heart. O que acontece agora, com o avanço da inteligência artificial, é que a demanda por emoções humanas se torna ainda mais exacerbada.

É tudo mentira

Segundo uma matéria da Bloomberg, os empregadores estão exigindo positividade e paixão dos funcionários porque, no momento, esses sentimentos não estão surgindo de forma espontânea. E os dados reforçam essa realidade. Uma pesquisa da Gallup de 2024 mostrou que estamos vivenciando um dos menores níveis de engajamento no trabalho dos últimos dez anos. Apenas 31% dos trabalhadores norte-americanos se sentem engajados — especialmente entre aqueles com menos de 35 anos de idade. Outro estudo, conduzido pela plataforma de bem-estar corporativo Gympass, descobriu que mais de 80% dos brasileiros consideram a felicidade profissional tão importante quanto o salário, mas 28% deles estão infelizes no ambiente profissional.

Odeio meu trabalho

A lista de motivos que explicam a infelicidade de grande parte das pessoas com o trabalho atualmente é extensa — e costuma valer até mesmo pra quem ganha dinheiro com o que ama. A pressão extrema por resultados, imposta pelos superiores, somada à autocobrança típica da modernidade, leva muitos colaboradores a trabalharem mais e constantemente ansiosos. O resultado? Uma sobrecarga e exaustão que não podem ser recuperadas nos dois dias de “pausa” do fim de semana. Muitos desses funcionários também sentem que seus esforços não são valorizados nem reconhecidos pelas empresas — especialmente no que diz respeito à remuneração —, o que pode gerar desânimo e desmotivação.

Durante a pandemia, muitos trabalhadores descobriram os benefícios do home office, como não ter que passar horas no transporte público e ter horários mais flexíveis. No entanto, nos anos que se seguiram, muitas empresas decidiram retornar ao modelo presencial. De acordo com uma pesquisa realizada pela Swile Brasil, em 2025, 33% das empresas operam 100% no presencial e 32% adotam o modelo híbrido. O lobby imobiliário, a cultura de monitoramento e a falta de novos parâmetros pra medir o desempenho à distância são alguns dos fatores que estão por trás dessa tendência.

Pão e circo?

Percebendo o descontentamento de grande parte dos funcionários, algumas empresas têm tentado compensar a volta ao presencial com escritórios “superdivertidos”: shows com grandes atrações, mesa de sinuca, comidinhas, atividades de wellness… tem até escorregador e piscina de bolinhas.

Embora algumas dessas alternativas possam gerar um nível de entusiasmo em certos colaboradores, elas não solucionam os problemas estruturais que levam ao descontentamento — e podem até desviar a atenção de questões primordiais, atuando como a famosa política do “pão e circo”. Por exemplo: não adianta criar um espaço de descompressão se a cultura da empresa não estimula pausas durante o expediente. Oferecer algumas cervejas após um dia cansativo? Pode ser uma boa, mas seria mais interessante não obrigar os trabalhadores a responderem mensagens de WhatsApp fora do expediente.

Na raiz do problema

Construir um espaço de diálogo em que todos os trabalhadores possam compartilhar suas experiências e sugerir melhorias é um passo importante pra que o trabalho traga algum nível de realização, assim como oferecer uma remuneração justa e garantir direitos trabalhistas.

E falando em realização, estudiosos do assunto afirmam que as pessoas se sentem mais satisfeitas quando enxergam um sentido nas atividades que desempenham — ou seja, quando trabalham com algo que corrobora com os seus valores e crenças. Mas vale lembrar que o trabalho não precisa ser sua maior fonte de felicidade ou seu grande propósito de vida.

Além disso, o clima organizacional tem um impacto direto no bem-estar. Estar em uma empresa que respeite o tempo e o ritmo de cada um, que não corrobore com nenhum tipo de abuso ou preconceito, e que não estimule a competitividade interna, é essencial. Pesquisas já comprovaram que a construção de relacionamentos saudáveis e respeitosos com colegas e gestores é um fator determinante pra felicidade no trabalho.

Por fim, quando os colaboradores têm autonomia pra tomar decisões sobre como executar seu trabalho e a flexibilidade necessária pra gerenciar suas responsabilidades, o senso de realização e pertencimento cresce, tornando o ambiente profissional muito mais estimulante.

Pra saber mais:

· A matéria “Welcome Back to the Office. Isn’t This Fun?”, do The New York Times.
· O episódio “Existe vida além do trabalho?”, do Desenrola, nosso podcast.
· O livro Dying for a Paycheck (2018), de Jeffrey Pfeffer.
· O vídeo “Realização profissional é um mito corporativo”, de Luiz Alberto Hanns pra Casa do Saber.

💬 Adriana
📺 The Pitt, na Max
Estou totalmente viciada nessa “série de hospital”, que ainda por cima é protagonizada por Noah Wyle, o Dr. Carter da boa e velha Plantão Médico. Tem cenas ultra realistas de cirurgias (ui!) e rola em tempo “real”, retratando um plantão médico hora a hora.

💬 German
🎥 Raízes e Ritmos: O Brasil de Luiz Antônio Simas, no CurtaENEM
Uma seleção de filmes que explora a cultura brasileira, a história social e as identidades que formam o país. Além de ótimos recursos pra quem estuda ou ensina História e Sociologia, são um convite pra enxergar o Brasil com mais profundidade e sensibilidade.

💬 Ricardo
📖 Careless People, de Sarah Wynn-Williams
Ex-diretora de políticas públicas do Facebook, Sarah Wynn-Williams guardou por anos esse relato bombástico sobre os bastidores da big tech. Em tom ácido e cheio de histórias inacreditáveis, o livro expõe a conivência da empresa com regimes autoritários e a vaidade desmedida de seus líderes.

📺 The Studio, na Apple TV+
Seth Rogen vive o chefe de um estúdio em crise numa sátira genial e melancólica sobre o declínio de Hollywood. Tem episódio gravado todo em película, outro em plano-sequência de 24 minutos e uma porção de participações especiais, de Olivia Wilde a Martin Scorsese.

💬Dandara
📖 Na voz dela, de Alba de Céspedes
No livro recém-lançado aqui no Brasil pela Companhia das Letras, a escritora ítalo-cubana — autora do maravilhoso Caderno Proibido — conta a história de Alessandra, uma mulher que desafia o papel de submissão imposto às mulheres em plena Itália devastada pelo fascismo.

Construir conexões mais profundas, deixar de lado a busca pela perfeição, reconhecer os próprios limites… Ser vulnerável é um ato de coragem que traz vários benefícios. Mas, em alguns momentos, expor os sentimentos sem filtro pode ser um tiro no pé. No episódio mais recente do Desenrola, a gente reflete sobre esse equilíbrio, com a ajuda do psicólogo e terapeuta Alexandre Coimbra Amaral. Ouça agora!

🚨 Alerta de spoiler: na próxima segunda-feira (7/4), refletimos sobre como, mesmo com o passar do tempo, seguimos sendo a mesma pessoa de sempre — com os mesmos sonhos, as mesmas paixões e a mesma fome de mundo de quando éramos mais novos. E o nosso convidado pra essa conversa é o cantor, compositor e saxofonista Maurício Pereira. Já segue o Desenrola na sua plataforma de áudio preferida pra não perder nenhuma novidade!

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