Vivemos em uma sociedade que valoriza a otimização do tempo ao extremo. Acordar às cinco da manhã, correr, alongar, levar as crianças na escola, trabalhar, resolver as funções domésticas e ainda ter o skincare em dia. Dar conta desse ritmo não é apenas um desafio, mas uma meta a ser alcançada. Em meio a esse frenesi, surge um novo símbolo de status: ter tempo livre.

Você até tem uma grana guardada pra viajar, companhia pra ir no restaurante sobre o qual todo mundo está comentando e os novos episódios da sua série favorita já estão disponíveis no streaming. Mas quando? Como encaixar tudo isso na agenda, entre prazos, notificações e a eterna sensação de que há sempre algo mais urgente pra fazer?

Em números

De acordo com uma pesquisa do Instituto Locomotiva divulgada pela CNN, seis em cada dez brasileiros afirmam não ter nenhum momento de ócio ou tempo livre durante a semana. O estudo também investigou como gastamos as poucas horas que restam. O uso das redes sociais lidera a lista, com 79% dos participantes dedicando parte do dia a essa atividade.

Mas o tempo livre — ou a falta dele — não é distribuído de forma igual pra todos. A experiência temporal das pessoas é atravessada por marcadores sociais como classe, raça, gênero, região e geração. Pense em duas pessoas que trabalham no mesmo lugar: uma mora perto do serviço, não tem filhos e conta com ajuda para as tarefas domésticas; a outra é uma mãe solo, que enfrenta horas de transporte público e precisa dar conta de tudo sozinha. Entende como, na prática, nem todos temos as mesmas 24 horas?

Ostentação on-line

Jóias, carros, hotéis de luxo, mansões, roupas de grife. Durante muito tempo, esses bens materiais foram sinônimo de ostentação. No entanto, em um mundo onde a otimização da rotina é quase uma obsessão, o verdadeiro luxo é menos tangível: um estilo de vida sem amarras. Ter horários flexíveis, poder trabalhar de qualquer lugar, recusar projetos que não valem a pena e, acima de tudo, viver sem pressa. A liberdade e o controle sobre o próprio tempo se tornaram um novo símbolo de status.

Nas redes sociais, essa nova ostentação se traduz em pessoas cuja capacidade de ganhar dinheiro está diretamente ligada à forma como vendem essa estética de facilidade e leveza. Elas parecem ter tempo pra tudo o que você gostaria de fazer, mas não consegue: passar horas cuidando do cabelo, ler vários livros por mês, fazer massagens, encontrar os amigos no meio da semana e, principalmente, não fazer nada.

Em uma série de vídeos no Instagram, o estrategista de marca australiano Eugene Healey apontou outros comportamentos que, segundo ele, são símbolos de status hoje. Entre eles, estão não se expor muito nas redes sociais, estudar profundamente sobre um nicho específico — como vinhos ou cinema iraniano — e ter muitos filhos, mas ainda se manter uma pessoa cool e antenada.

E agora?

Enquanto uma pequena parcela da população consegue desacelerar, a maioria vive em um ritmo extremamente exaustivo. Em pesquisa do Datafolha de 2023, 43% dos brasileiros afirmaram viver na “velocidade 2x” pra conseguir cumprir as obrigações diárias. Já um estudo feito pelo mesmo instituto de pesquisas em 2024 revelou que 19% da população se sente cansada ou sem energia o tempo todo.

Nesse cenário, o desafio é criar condições pra que o tempo livre seja acessível a mais pessoas. Pra isso, é essencial repensar nossa relação com o trabalho. Nos últimos anos, a discussão sobre a escala 6x1 ganhou força no Brasil. Em 2024, uma petição pelo fim desse modelo recebeu mais de 1,3 milhão de assinaturas, mas a proposta ainda enfrenta resistência no Congresso.

No mesmo ano, a 4 Days Week Brasil testou a semana de trabalho de quatro dias. Os resultados foram animadores: 73% dos participantes notaram redução na sensação de exaustão e 87% relataram aumento de energia pra realizar tarefas do dia a dia. Outras alternativas, como o home office e horários mais flexíveis — que ganharam força na pandemia, mas perderam fôlego nos últimos tempos — também podem contribuir pra um cotidiano menos desgastante.

Pequenos luxos

Enquanto essas mudanças estruturais não acontecem, cabe a nós encontrar maneiras de valorizar o pouco tempo livre disponível. Pequenos luxos como dormir um pouco mais no fim de semana, reservar uma horinha pra caminhar ao ar livre, ou simplesmente se permitir uma pausa pra um café sem pressa são formas de resistência.

Também vale avaliar se você realmente não tem tempo livre ou se ele está sendo consumido em atividades pouco intencionais, como horas de scroll infinito nas redes sociais. Criar o hábito de reservar momentos de descanso e lazer na agenda pode ser um primeiro passo pra equilibrar melhor a rotina. E, por fim, mandar embora a culpa. Ter tempo livre é essencial pro nosso bem-estar.

Pra saber mais:

· O livro O direito à preguiça (2016), de Paul Lafargue.
· O TED “How to gain control of your free time”, de Laura Vanderkam.
· A matéria “Mais de 7 horas livres por dia podem causar infelicidade”, do Metrópoles.
· O livro How to Do Nothing: Resisting the Attention Economy (2020), de Jenny Odell.
· O episódio “Semana de quatro dias de trabalho, você quer?”, com Renata Rivetti, do podcast Jornada da Calma.

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