O azul inigualável do Mediterrâneo; a transparência surreal do Oceano Índico banhando as areias alvíssimas das Maldivas e de Zanzibar; a vibe selvagem do Oeste da Austrália; a cultura de surf do Havaí. É claro que a gente sabe que há muita vida lá fora quando o assunto é litoral. Mas tem coisa que — sorry, resto do mundo — a gente só vê por aqui.

No Brasil, praia não é apenas um lugar. É um acontecimento, uma usina de criatividade, um celeiro de empreendedorismo com muita malemolência, uma vitrine na qual o brasileiro mostra que veio ao mundo pra fazer diferente. Mas não foi sempre assim. Aqui, contamos um pouco mais dessa história e listamos algumas coisas que provam que ninguém entende mais de cultura de praia do que a gente.

Antes, um pouco de história

Apesar de vários povos indígenas ao redor do mundo terem cultivado uma relação saudável com o litoral ao longo dos séculos, a transformação da praia em um destino turístico e de lazer, nos moldes que temos hoje, é relativamente recente. Isso porque, para os colonizadores europeus, o mar era um território inóspito: era por lá que chegavam novos invasores, piratas, pragas e doenças.

A virada aconteceu entre os séculos 18 e 19, quando médicos europeus, especialmente britânicos, começaram a recomendar banhos de mar como tratamento pra diversos males. Com o tempo, surgiram casas de banho elegantes em balneários como Biarritz, na França, e San Sebastián, na Espanha, que caíram nas graças da aristocracia.

Apesar de vários historiadores acreditarem que os indígenas brasileiros tinham uma boa relação com o litoral, a popularização da praia no país seguiu um caminho parecido. A teoria mais aceita é a de que, infestado de carrapatos, Dom João VI inaugurou os banhos de mar no Rio de Janeiro em 1810, carregado por pessoas escravizadas.

Ao longo dos anos, a nossa cultura de praia foi se desenvolvendo e ganhando particularidades maravilhosas. Aqui, a gente cita algumas.

Só tem no Brasil

Alta gastronomia praiana

Do açaí à esfiha, da tapioca ao caldinho, passando por pastel, salada de fruta, milho-verde e uma infinidade de laricas: quando o assunto é gastronomia praiana, o céu é o limite pro brasileiro. E pra oferecer tantas opções sem que as pessoas precisem sair da areia, surgiram invenções que deixariam até os engenheiros da NASA de boca aberta: o carrinho de milho circulando na areia com um botijão de gás bombando; a lata cortada que vira uma churrasqueira de queijo coalho; a geladeira velha acoplada a um chassi de carriola transformada em carrinho de coco... e por aí vai.

Os serviços

Por muitos anos, a praia foi vista como um ponto de comércio, e o brasileiro faz jus a essas raízes. O vendedor ambulante de cerveja que fornece um baldinho com gelo e o cara que aluga cadeira e guarda-sol são apenas o nível um. Basta se acomodar na areia pra encontrar uma variedade de ambulantes oferecendo óculos de sol, cangas, caixinhas de som, chapéus, artesanato… Se você quer ainda mais opções de produtos, é só encontrar aquele carrinho com um guarda-sol sendo usado como mostruário de vestidos. Ah, e um detalhe importante: ROLA PAGAR COM CARTÃO! DE CRÉDITO! Brasil: o único país do mundo em que você resolve sua vida na praia.

A moda

O biquíni não foi inventado no Brasil, mas nós tivemos (e ainda temos!) um papel crucial na sua evolução. A primeira mulher a ser registrada de biquíni nas praias cariocas foi… uma alemã: a estilista, modelo e artista plástica Miriam Etz, em 1948. Mas foi só ao longo dos anos 1960 que a roupa de banho de duas peças saltou de um pequeno grupo de vedetes e mulheres destemidas ao grande público. Uma das responsáveis por desproblematizar a barriga de fora foi Helô Pinheiro, a eterna garota de Ipanema.

Nos anos 1970, uma revolução chamada tanga invadiu as praias cariocas, na pele da modelo Rose di Primo. Na mesma época, Leila Diniz, ícone do feminismo, sacudiu o Brasil com o seu glorioso barrigão à mostra. Nos anos 1980, os biquínis passaram a caber na palma da mão e o Brasil se firmou mundialmente como ícone da vanguarda praiana. De fio-dental asa-delta, Monique Evans e Magda Cotrofe traduziam o espírito da época e provocavam enfartes por onde passavam.

Nos anos 1990, a moda praia já era uma indústria gigantesca no Brasil e as tendências mudavam mais rápido que as batidas do Technotronic. Duas peças que marcaram essa época foram os “sunquinis” e os tops tomara-que-caia — em cores fluorescentes, claro. De lá pra cá, pintam novidades a cada temporada, a exemplo do biquíni de fita isolante, que se tornou uma marca registrada das técnicas de bronzeamento brasileiras, e da estética Brazilcore.

Os esportes

Além de ditar tendência na moda, a gente tem o dom de transferir pra praia todo tipo possível de atividade física. Treino funcional, corrida, yoga, futebol — tudo parece melhor perto do mar! Mas não é só isso: também usamos a nossa criatividade pra inventar novas modalidades que ganharam o mundo. Um exemplo é o futevôlei, nascido nas areias cariocas nos anos 1960. Outro é o frescobol, que, assim como vários elementos icônicos da cultura praiana, nasceu em Copacabana. Sem falar dos esportes que permanecem mais regionais, como o tamboréu, em Santos, e o futsac, em Curitiba.

Temperatura certa

Fora isso, graças às dimensões continentais do Brasil, é sempre verão em algum lugar do país. Independente da estação do ano, haverá um lugar com pouca chuva e termômetros acima de 25ºC pra manter a vitamina D em dia. E com uma cerveja trincando ou um coco gelado esperando por você.

Saiba mais:

· O livro Fim, de Fernanda Torres.
· A matéria O biquíni brasileiro aumentou?, da Gama.
· A nossa playlist Pra ouvir perto do mar, feito em parceria com a Tecla Music Agency.
· O documentário Estou me guardando para quando o carnaval chegar (2019), de Marcelo Gomes.

Eu sei o que você fez no verão passado

Rosto queimado só de um lado, ombro em chamas, nariz descascando, a marca da camiseta estampada no braço: quem nunca? A paixão pelo bronzeado e pelas atividades ao ar livre são parte da cultura de praia do Brasil. Não é à toa, portanto, que a gente tenha algumas histórias tragicômicas pra contar sobre verões passados — especialmente quem viveu nas décadas de 1980 e 1990, quando os riscos de se expor ao sol sem proteção ainda não eram tão conhecidos. Aproveitando que a estação mais quente do ano está a pleno vapor, junto com Cenoura & Bronze, a gente reforça: o protetor solar salva a sua pele de todos esses perrengues!

Na próxima segunda-feira (13/01), o nosso podcast está de volta! No primeiro episódio do ano, a gente vai refletir sobre como anda a nossa relação com o álcool. Isso porque, enquanto um grupo de pessoas anda exagerando na quantidade consumida, outro vem decidindo reduzir ou até parar de beber. Mas por quê? Quais são os benefícios e os desafios relatados por quem decidiu tornar o consumo de álcool mais intencional? Já segue o Desenrola pra não perder!

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