De acordo com o Guia Alimentar para a População Brasileira, desenvolvido pelo Ministério da Saúde, uma alimentação saudável vai muito além de consumir diferentes grupos alimentares e ingerir a quantidade certa de nutrientes. Envolve também saber cozinhar, comer com atenção, considerar o impacto ambiental da produção e distribuição dos alimentos e, principalmente, priorizar ingredientes in natura e evitar ao máximo os ultraprocessados — produtos industrializados compostos principalmente por substâncias artificiais que não usamos pra cozinhar em casa, como aromatizantes, conservantes e aditivos químicos. Como regra geral, é o famoso: “descascar mais, desembalar menos”.

Diversas pesquisas já demonstraram que uma boa alimentação contribui pra prevenção de doenças crônicas, como diabetes, hipertensão e problemas cardiovasculares. Além disso, no livro Eat to Beat Depression and Anxiety, o professor Drew Ramsey, da Universidade de Columbia, nos EUA, apresenta evidências de que comer bem pode auxiliar no tratamento de condições como ansiedade, depressão e até insônia. A questão é que, nos dias de hoje, ter uma alimentação saudável pode ser um desafio, especialmente pra quem vive nas periferias das grandes cidades.

Situação BR

Segundo o Relatório das Nações Unidas sobre o Estado da Insegurança Alimentar Mundial (SOFI), em 2022, 17,2 milhões de brasileiros enfrentavam uma insegurança alimentar severa. Em 2023, esse número caiu pra 2,5 milhões — uma redução de 85%. Apesar desse grande avanço, é importante lembrar que uma parcela significativa da população brasileira ainda possui uma renda mensal limitada, que não permite fazer muitas escolhas no mercado. Ou seja, pra muitos, ter comida na mesa já é um desafio.

Em relação à qualidade da alimentação, dados do Vigitel 2023 mostram que apenas 21,4% dos brasileiros consomem a quantidade diária de frutas e hortaliças recomendada pela OMS — pelo menos 400 gramas. Por outro lado, em uma pesquisa nacional da Organis, realizada no mesmo ano, 46% da população relatou consumir produtos orgânicos nos seis meses anteriores à pesquisa — o que, apesar de positivo, não significa que esse consumo seja regular.

Alerta: ultraprocessados

O consumo de alimentos ultraprocessados no Brasil aumentou 5,5% entre 2008 e 2018, conforme estudo divulgado pela Revista de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. Entre os adolescentes, esses alimentos representam cerca de 28% do total ingerido, segundo a UFMG.

Em uma abrangente revisão de estudos publicada este ano, os cientistas relacionaram os alimentos ultraprocessados a 32 problemas de saúde — entre os principais, estão doenças cardíacas, diabetes tipo 2, obesidade e problemas gastrointestinais.

Além disso, estudiosos estão começando a entender melhor os processos fisiológicos que fazem com que os ultraprocessados passem fatura na saúde. Pesquisas mais aprofundados ainda são necessárias, mas é provável que os picos de açúcar no sangue provocados por esses alimentos possam danificar as artérias. Certos aditivos alimentares também têm sido associados a disfunções hormonais, redução na absorção de nutrientes pelo intestino e desequilíbrios no microbioma intestinal.

Sem opção

Você sabia que o seu endereço influencia diretamente a qualidade da sua alimentação? Um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) publicado na edição de março dos Cadernos de Saúde Pública revelou que moradores de periferias brasileiras enfrentam maiores dificuldades de acesso a alimentos saudáveis e consomem mais ultraprocessados. Por isso, ao se deparar com dados como o do crescimento no consumo de alimentos orgânicos, é essencial refletir sobre quem realmente está conseguindo comprar esses produtos.

Supermercados, lojas de conveniência e cadeias de fast food utilizam estratégias com base em dados pra determinar onde instalar os seus negócios, o que também tem uma influência direta nos nossos hábitos alimentares. Muitas vezes, grandes supermercados ainda acabam eliminando pequenos negócios locais, como hortifrutis e lojas de comida artesanal, deixando comunidades dependentes. Se um deles fecha, isso pode criar “desertos alimentares”, onde o acesso a alimentos frescos e saudáveis torna-se extremamente limitado. Em certos bairros, lojas de conveniência acabam sendo as únicas opções.

Outras questões

Além da dificuldade de acesso, o preço influencia diretamente os hábitos alimentares. Se antes ir à feira era uma opção mais acessível, nas últimas décadas os alimentos frescos e orgânicos ficaram bem mais caros, enquanto os ultraprocessados baratearam.

A rotina exaustiva de muitas pessoas — marcada por jornadas de trabalho longas, horas no trânsito e responsabilidades com a casa e a família — também faz dos ultraprocessados uma opção prática e conveniente. O avanço da urbanização e da tecnologia facilitaram a aquisição de comida pronta, o que estimula o consumo de fast-food e outros alimentos menos saudáveis.

Várias saídas

Pra reverter essa situação, são necessárias políticas públicas. Um exemplo recente adotado pelo Brasil é a rotulagem nutricional frontal. Desde outubro de 2022, produtos que excedem os limites de açúcares adicionados, sódio ou gorduras saturadas devem incluir esse aviso na frente da embalagem. Mas essa é apenas a pontinha do iceberg. Aqui, listamos outras medidas que podem promover uma alimentação mais saudável:

· Ampliação de equipamentos de segurança alimentar e nutricional, como hortas, feiras, hortifrutis e supermercados com preços mais acessíveis.

· Redução do preço de frutas, legumes e verduras por meio de incentivos fiscais e subsídios pra produtores locais.

· Aplicação de impostos adicionais em bebidas com alto teor de açúcar e alimentos ultraprocessados. No México, um imposto sobre refrigerantes, néctares e sucos açucarados reduziu significativamente o consumo.

· Proibir a venda de ultraprocessados em escolas e incluir conteúdos sobre alimentação saudável no currículo escolar, inclusive aulas práticas em hortas.

· Subsidiar os custos de transporte de alimentos frescos pra comunidades remotas.

· Promover a conscientização sobre os riscos do consumo de ultraprocessados e os benefícios de alimentos in natura ou minimamente processados.

Enquanto medidas como essas não se concretizam, algumas atitudes individuais podem fazer a diferença na sua alimentação. Aprender a ler rótulos, por exemplo, é um ótimo começo. Aplicativos como o Desrotulando ajudam a decifrar aqueles ingredientes com nomes complicados e a fazer escolhas mais conscientes. Outra dica prática é dedicar um dia pra preparar marmitas pra semana ou, pelo menos, deixar alguns alimentos lavados, picados e porcionados na geladeira. Isso facilita o preparo de refeições rápidas e saudáveis no dia a dia, reduzindo a tentação de recorrer aos ultraprocessados.

Saiba mais:

· Nosso post sobre o possível poder aditivo dos ultraprocessados.
· Essa matéria que expõe como a Nestlé vende produtos piores nos países do sul global.
· O livro This Is Your Brain on Food (2020), de Uma Naidoo MD.
· O episódio Ultraprocessados, uma relação tóxica, do podcast Prato Cheio.

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