

Pessoas organizadas custam a acreditar que há quem possa viver no meio da desordem. Por outro lado, se você é uma pessoa considerada bagunceira, com certeza já se incomodou com amigos e familiares pedindo pra você arrumar suas coisas — ou, pior, guardando e mudando tudo de lugar sem nem avisar. A verdade é que cada um de nós tem uma relação única com a organização, e são vários os fatores que levam a essa diferença.
A bagunça é relativa
Pesquisas como essa publicada no jornal Psychological Science indicam que parte das pessoas consegue manter o foco em suas atividades sem que o ambiente ao redor afete diretamente o seu desempenho. Por isso, pra elas, um espaço desorganizado não causa tanto stress. Já outras têm mais dificuldade de lidar com isso, e precisam de um ambiente organizado pra seguir executando suas tarefas. O estudo ainda sugere que o primeiro grupo tende a ser mais criativo, enquanto o segundo apresenta mais facilidade em seguir regras e fazer escolhas saudáveis.
Pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) que estuda os significados da bagunça e da organização nas casas brasileiras, Carolina Ferraz afirma que a organização também tem uma forte ligação com a atenção. Ela, que compartilha suas análises no perfil @ondeeudeixei, explica que as pesquisas sobre o tema apontam pra dois perfis principais: os fillers e os pillers. Os fillers conseguem interromper o que estão fazendo pra lidar com pequenas demandas, como guardar um papel na gaveta, sem perder o foco. Já os pillers preferem deixá-lo em cima da mesa, pois se pararem pra organizá-lo, correm o risco de se desconcentrar da tarefa principal.

Social e cultural
Muitos estudiosos e estudiosas brasileiras, como as historiadoras Lilia Schwarcz e Lorena Féres da Silva Telles, relacionam a valorização cultural do brasileiro por manter a casa limpa e organizada ao legado do período escravocrata, no qual mulheres negras escravizadas eram obrigadas a realizar as tarefas domésticas. As mulheres brancas, por sua vez, ficavam encarregadas de supervisionar esse trabalho. Ou seja, apesar do enorme privilégio, parte da sua energia e atenção também era direcionada ao cuidado da casa.
Com o fim da escravidão, o trabalho doméstico manteve características de exploração. Muitas empregadas domésticas passaram décadas vivendo nas casas dos patrões, sem acesso a direitos trabalhistas. E, mesmo com os avanços da última década — em especial a chamada PEC das Domésticas —, em dezembro de 2023, dos 6 milhões de trabalhadores domésticos no Brasil, 4,3 milhões ainda não possuíam carteira assinada, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios.
De acordo com Carolina, esse fator cultural é um dos principais motivos pelos quais, até hoje, a limpeza e a organização são vistas como símbolos de status e poder social. Não por acaso, a desordem e a bagunça — num sentido que vai além da organização de objetos — são frequentemente relacionadas às classes sociais mais baixas.
Carolina também destaca a expressão popular “não repara na bagunça”, frequentemente usada por pessoas de classes sociais mais baixas pra se referir a ambientes que, na verdade, estão organizados. Pra ela, esse pedido não reflete necessariamente uma falta de ordem, mas sim uma percepção de simplicidade do ambiente, ou o desejo de reforçar que ele está, sim, arrumado. “A mulher brasileira, quando a casa está suja ou desorganizada, nem cogita receber alguém. Ela sabe, mesmo que de forma inconsciente, que o seu valor como indivíduo será julgado”, afirma a pesquisadora.
Sem certo ou errado
Em excesso, a desordem realmente pode causar problemas no cotidiano, como a perda de objetos importantes, um menor aproveitamento do tempo e conflitos com quem divide o mesmo teto. Em alguns casos, um ambiente pessoal excessivamente bagunçado ainda pode ser um sinal de que alguém está enfrentando questões de saúde mental.
No entanto, ser uma pessoa extremamente organizada também tem seu lado ruim. A busca por deixar tudo impecável o tempo todo pode intensificar sentimentos como stress, autocobrança e frustração, além de levar a problemas de convivência e a uma má distribuição do tempo.
A questão é que a organização tornou-se uma verdadeira obsessão nos tempos atuais — e um exemplo disso são os incontáveis produtos organizadores que dominam o mercado, indo de itens pra mesa do escritório a soluções pra geladeira. Isso acontece principalmente porque vivemos em uma sociedade que celebra e valoriza a produtividade e, consequentemente, qualquer forma de otimizar o tempo e aumentar a produção.

Convivendo em harmonia
Mas e quando pessoas organizadas e bagunceiras precisam conviver sob o mesmo teto? Como manter a harmonia? O primeiro passo é entender que sair arrumando as coisas alheias pode gerar ainda mais conflito do que soluções. Conviver com diferenças é parte de qualquer relacionamento. Por isso, vale economizar energia e focar no que realmente importa. Se o que tira você do sério é a toalha molhada em cima da cama, tenha uma conversa sobre isso. Em troca, releve coisas menores.
Outra dica é definir zonas de convivência e combinar quais ambientes precisam ser mantidos arrumados e quais podem ser mais flexíveis. Melhor ainda: divida a casa em territórios, com espaços individuais, como armários e gavetas. Assim, cada um tem um lugar pra ser como é. Facilitar a organização, com caixas organizadoras, ganchos extras ou estantes com etiquetas, também pode ajudar bastante.
Por fim, é fundamental reconhecer os esforços, mesmo os pequenos, de ambos os lados. A bagunça não vai desaparecer da noite para o dia, assim como a obsessão pela organização. O segredo é negociar pequenas metas ao longo do tempo.
Saiba mais:
· O episódio Você pira na arrumação?, do Desenrola, nosso podcast.
· A matéria Você é bagunceiro? Fique tranquilo, a ordem inibe a criatividade, do El País.
· Este vídeo em que Carolina Ferraz explica porque algumas pessoas são organizadas no trabalho e desorganizadas na vida pessoal.
· O livro Eu, empregada doméstica: a senzala moderna é o quartinho da empregada (2019), de Preta Rara.

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texto: Dandara Fonseca | edição: Adriana Setti | arte: Eduardo Gayotto
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