No início do mês, a gigante chinesa ByteDance, proprietária do TikTok, anunciou que está expandindo sua editora 8th Note Press pra incluir edições impressas. A partir de 2025, a empresa pretende lançar livros voltados a gêneros populares entre leitores das gerações Millennial e Z, como romance, fantasia romântica e ficção, surfando no crescimento da comunidade #BookTok.

Essa decisão surge em um momento no qual várias revistas icônicas voltam às bancas ao redor do mundo, como Vox, Nylon, Saveur, Sports Illustrated e Vice. E não é apenas de revivals que a indústria vive: segundo a The News, pelo menos 70 novas publicações impressas foram lançadas no mercado norte-americano neste ano, superando os números da pré-pandemia.

O The Summer Hunter tem tanto apego ao papel que produz a sua própria revista — a sétima edição chega neste verão! Aqui, a gente reflete por que, em um mundo cada vez mais digital, o impresso continua encontrando seu lugar ao sol.

A volta dos que não foram

Não há como negar que a tecnologia afetou o mercado impresso. No entanto, o fim que muitos previam nunca chegou. Mesmo com o crescente interesse nas obras digitais, em 2023, os livros físicos ainda representavam 92% do mercado editorial brasileiro, segundo a 23ª edição da Pesquisa Global de Entretenimento e Mídia. Além disso, um estudo da Two Sides realizado em diversos países revelou que, no mesmo ano, 64% dos consumidores preferia títulos impressos — em 2021, esse número era de 37%.

As revistas enfrentaram desafios ainda maiores com a ascensão do digital. Muitas publicações não conseguiram se adaptar e encerraram suas atividades na última década. No Brasil, o exemplo mais marcante foi o desmanche da Editora Abril, responsável por dezenas de títulos icônicos que ficaram restritos ao digital e/ou desapareceram. Apesar disso, em 2021, mais de 7 mil revistas físicas ainda estavam em circulação globalmente, sustentando um mercado que movimentava mais de US$ 120 bilhões por ano.

Na prateleira

Nos últimos anos, itens que marcaram décadas passadas, como vinis e câmeras analógicas e digitais, voltaram a fazer parte do cotidiano de muita gente. As publicações impressas também surfam nessa onda de nostalgia, impulsionada por fatores como o conforto emocional. Em tempos de incertezas, esses objetos e produções — incluindo séries e filmes que evocam outras épocas — se tornam um refúgio, sendo capazes de despertar boas emoções e memórias afetivas.

Nesse contexto, revistas e outros itens impressos conquistam o status de objetos colecionáveis. Ou seja, não é apenas a informação que importa, mas o projeto editorial, a experiência de folhear suas páginas etc. Não por acaso, muitas revistas deixaram de lado as chamadas apelativas e passaram a investir em capas mais minimalistas, com foco na estética. Algumas são quase peças de decoração, como versões efêmeras de coffee table books.

Isso é meu!

Até os anos 2000, gostar de uma banda significava comprar os seus CDs. Aquele objeto “morava” na sua casa. As coisas que a gente mais gostava nos tomavam tempo e espaço. E elas eram nossas. Na era do acesso instantâneo, nossos gostos estão a poucos cliques de distância, mas o controle que temos sobre eles é mínimo — as plataformas acrescentam e removem títulos dos seus catálogos a todo momento, por exemplo. Essa reflexão foi trazida pela estrategista de marcas Beatriz Guarezi na edição #254 da sua newsletter, a Bits to Brands.

Um artigo publicado no Journal of Consumer Research reuniu vários estudos que vão ao encontro dessa ideia. Um deles apontou que as pessoas estão dispostas a pagar mais caro por coisas físicas — como livros e fotos impressas — não apenas por acreditarem que o custo de produção é mais alto, mas porque sentem que esses objetos são mais “seus”.

Além disso, em um mundo cada vez mais digital, o que escolhemos manter fisicamente em nossas casas se torna ainda mais significativo. Esses objetos passam a dizer muito sobre quem somos e o que gostamos, e ainda servem pra serem compartilhados, estreitar laços e trocar ideias.

Exaustão digital

Na era do scroll infinito e das notificações incessantes, focar e se aprofundar está cada vez mais difícil. Nesse mar de distrações, parar pra ler um livro físico, por exemplo, é como se agarrar a uma boia de salvação — uma atividade que nos convida a desacelerar e se concentrar em uma única tarefa por vez.

Você também já deve ter notado como é difícil acessar um site e ler uma matéria sem ser bombardeado por diversos anúncios e pop-ups. As revistas resgatam a experiência de uma curadoria mais limpa e direcionada, longe dos algoritmos que levam você a caminhos que não pretendia percorrer. Elas constroem uma narrativa que tem o seu próprio compasso: a cada página, a informação vai fluindo em um ritmo suave.

Da mesma forma, as empresas parecem reconhecer que as mídias off-line ainda são uma poderosa ferramenta pra anunciar seus serviços e produtos. Assim como o conteúdo, a publicidade impressa em uma revista é menos efêmera do que a digital. Fixa em uma página, ela também é percebida, hoje em dia, de uma forma menos invasiva (e irritante).

Lugar pra tudo

O bom disso tudo é não precisar escolher radicalmente entre um ou outro, mas deixar que os dois formatos, físico e digital, coexistam no seu dia a dia, aproveitando o melhor de cada mundo. E, se você está em busca de inspiração, aqui vão algumas novas revistas impressas gringas pra ficar de olho:

The Cut: a versão impressa da plataforma homônima.

AFM: sobre sexo e afins, publicada pelo app de relacionamentos Feeld.

Harper’s Bazaar Interiors: novo título sobre interiores da Bazaar francesa.

Enthousiasmos: publicação temática baseada em uma grande entrevista com um nome de peso. A primeira edição foi com o diretor Luca Guadagnino.

OPEN Tennis: sobre o universo do tênis, idealizada pelo cofundador da revista Racquet, David Shaftel.

Tummy Ache: produzida pela marca homônima britânica de slow fashion, com a colaboração de voluntários da sua comunidade.

Saiba mais:

O livro A vingança dos analógicos: Por que os objetos de verdade ainda são importantes (2017), de David Sax.
O episódio Por que sentimos nostalgia?, do podcast NaruHodo.
Nosso post sobre o prazer das coisas palpáveis.
A matéria The Print Magazine Revival of 2024, da Bloomberg.
O documentário The September Issue (2009), disponível no Prime Video.

No episódio mais recente do Desenrola, nosso podcast, o tema foi maturidade emocional. O que define se alguém é emocionalmente maduro ou não? Quais comportamentos sinalizam esse amadurecimento? E mais importante: como podemos avançar nesse processo? Conversamos com especialistas e ouvimos relatos de membros da nossa comunidade e pessoas nas ruas pra responder essas e outras perguntas. Ouça aqui!

🚨 Alerta de spoiler: Na próxima segunda-feira (25/11), o papo é sobre viajar solo. Conversamos com viajantes de diversos perfis pra entender quais são as dores e as delícias de explorar o mundo na própria companhia. O episódio ainda conta com algumas dicas pra quem quer embarcar na primeira viagem individual. Já segue o Desenrola na sua plataforma de áudio preferida pra não perder nada!

☀️
Nós somos o The Summer Hunter, uma plataforma de conteúdo que acredita que o verão é mais do que uma estação do ano; é um estado de espírito. Nos siga no Instagram, onde publicamos conteúdo inédito diariamente, sempre às 7h30 da manhã. Ouça também nosso podcast, o Desenrola, e coloque um pouco de música na sua rotina com as nossas playlists em parceria com a Tecla Music. Também explore a nossa linha de acessórios desenvolvida em collab com a Allcatrazes. E pra se manter atualizado sobre as novidades do TSH e ter acesso a conteúdos e benefícios exclusivos, faça parte de nossa comunidade no WhatsApp!

Continue lendo

Ver mais
caret-right