

Segundo uma pesquisa da PoderData, 14% dos brasileiros afirma não ter amigos, enquanto 14% diz ter apenas um amigo próximo. Dados como esses ajudam a entender por que a solidão já virou uma questão de saúde pública. O que pega pra maioria de nós, no entanto, não é a falta de amizade, e sim a sensação de que, na vida atual, inúmeros fatores precisam se alinhar pra que encontros aconteçam.
“Vamos marcar”, “A gente se fala”, “Precisamos nos ver mais”. Quantas vezes dizemos isso da boca pra fora e acabamos não concretizando um encontro com uma pessoa querida? Aqui, a gente reflete sobre o assunto e ajuda você a pensar em formas eficazes de abrir espaço na agenda pra quem mais importa.
Por que você não tem visto seus amigos?
A rotina agitada costuma ser o principal motivo. Trabalho, compromissos e responsabilidades cotidianas acabam consumindo a maior parte do nosso tempo e da nossa energia. O excesso de notificações e demandas tecnológicas também contribui pro aumento da fadiga mental e emocional que faz com que, depois de um dia cheio, a gente só queira se jogar no sofá e descansar.
Outro obstáculo são os ciclos de vida diferentes, que causam um descompasso na rotina e, consequentemente, um conflito de horários. A distância geográfica também pesa, até mesmo pra quem mora na mesma cidade. E não dá pra ignorar as demandas familiares: cuidar de filhos ou parentes mais velhos ocupa boa parte do tempo que, em outro cenário, seria reservado aos amigos.
Um investimento
São vários os posts e conteúdos afirmando que os bons relacionamentos — sejam eles namoros ou amizades — são aqueles leves, que acontecem sem esforço. Mas a verdade é que construir e manter uma relação exige, sim, um certo nível de dedicação. Um estudo do departamento de comunicação da Universidade do Kansas, nos Estados Unidos, calculou que é preciso de cerca de 200 horas de convívio pra poder chamar alguém de “amigo próximo”. Mas esse é um empenho que vale a pena.
Uma pesquisa de 2017 realizada com mais de 270 mil pessoas em quase 100 países descobriu que passar tempo com amigos tem um impacto significativo no bem-estar e na felicidade, muitas vezes maior do que o tempo gasto com a família. Esses momentos estão fortemente associados a níveis mais elevados de satisfação com a vida, pertencimento e suporte emocional.
Já o estudo de longo prazo Harvard Study of Adult Development revelou que pessoas com fortes laços sociais, como amizades próximas, tendem a viver mais e ter melhor saúde física ao longo da vida. Além de reduzirem o estresse, as conexões genuínas diminuem o risco de doenças crônicas, como as cardíacas, e fortalecem o sistema imunológico.
Ampliando o foco
Quem nunca teve um amigo que, ao engatar um namoro, esqueceu das amizades? Ou talvez você já tenha feito isso? A nossa sociedade enxerga o casamento como a grande parceria da vida adulta — a que vai nos acompanhar até a velhice —, o que contribui pra esse fenômeno tão comum. Mas, em tempos nos quais as pessoas se divorciam mais e cada vez mais cedo, segundo dados do IBGE, essa visão já não faz tanto sentido.
São os amigos que, geralmente, estão com a gente ao longo das diferentes fases da vida. Eles também são as pessoas que nos ajudam a lembrar quem realmente somos nos momentos mais difíceis. Então, nada mais justo do que valorizar essas relações como verdadeiras parcerias amorosas e investir tempo de qualidade nelas.

Na prática
Muitas vezes, ficamos com a impressão de que todo mundo está tão atolado com as responsabilidades da vida adulta, que esquecemos de algo simples: propor um encontro. Seus amigos andam sumidos? Em vez de ficar esperando algum convite chegar, tome a iniciativa. Esse é um dos ensinamentos do livro The Joy of Connections, de Ruth Westheimer, a famosa terapeuta sexual que acabou se tornando uma embaixadora contra a solidão nos Estados Unidos. Pra ela, é uma questão prática: “seu objetivo no final do dia é se cercar de pessoas com quem realmente deseja estar”. É você que faz acontecer na maioria das vezes? Deixe o ressentimento pra lá.
Segundo Kasley Killam, cientista social e autora do livro The Art and Science of Connection, a estratégia mais eficiente pra vencer os impasses da vida social é colocar as amizades no “piloto automático”, agendando encontros regulares. Por exemplo: criar uma tradição de almoçar todo dia 12 do mês, ou se encontrar na praia a cada domingo. O mesmo vale para as chamadas de vídeo com os amigos que moram longe.

Lembra como, na infância e na adolescência, você se juntava com a galera pra fazer nada? Ou simplesmente qualquer coisa? Na vida adulta, a gente sente que os encontros precisam acontecer em datas especiais ou ter um propósito claro: jantar, tomar café, ir ao cinema. Isso contribui pro menor número de momentos passados juntos. Que tal chamar os amigos quando der vontade de se ver, sem grandes planos?
Saiba mais:
· A matéria The Friendship Paradox, do The Atlantic.
· As séries Grace and Frankie, disponível na Netflix, e A Amiga Genial, disponível no Max e baseada na série de livros de Elena Ferrante.
· O episódio 3 pilares para ter amizades mais verdadeiras, do podcast Psicologia na Prática.
· O livro Big Friendship: How We Keep Each Other Close (2020), de Aminatou Sow e Ann Friedman.

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texto: Dandara Fonseca | edição: Adriana Setti | arte: Eduardo Gayotto
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