Participar de uma reunião, checar mensagens e adiantar um relatório ao mesmo tempo. Assistir a um filme enquanto navega pelas redes sociais. Falar no telefone dirigindo. Quem nunca sentiu um certo orgulho por conseguir fazer várias tarefas simultaneamente? O problema é que, passado o efeito de euforia, o multitasking cobra seu preço. Você chega ao fim do dia com a cabeça a mil e não consegue dormir. Tenta ler um livro e perde o foco. Vive com a sensação de cansaço. Se identificou? Aqui, a gente explora a importância de parar de glorificar esse comportamento e, sempre que possível, fazer uma coisa de cada vez.

Não pode parar

Multitarefa não é só fazer duas ou mais coisas ao mesmo tempo. Alternar entre uma ação e outra ou executar várias atividades seguidas, sem pausas, também conta como multitasking.

Esse comportamento muitas vezes surge como uma tentativa de dar conta das mil e uma demandas do dia a dia. Não é fácil equilibrar a rotina de trabalho com todas as outras responsabilidades da vida adulta: limpar a casa, fazer compras, cozinhar, lavar a roupa, cuidar dos filhos… Inclusive, por conta da divisão desproporcional das funções domésticas e do cuidado, as mulheres tendem a se enxergarem mais como multitarefas do que os homens.

Além disso, em uma sociedade onde o valor das pessoas é frequentemente medido por sua produtividade e eficiência, a regra parece ser realizar o máximo de tarefas no mínimo de tempo. Esse cenário só reforça a cultura do multitasking. Muitos especialistas ainda apontam o celular como um dos principais motivadores dessa prática, junto com a pandemia, que normalizou o home office e tornou as fronteiras entre vida pessoal e trabalho ainda mais difusas.

Ninguém ganha

Pesquisadores que estudam o impacto do multitasking nos nossos processos mentais garantem que a nossa mente não foi projetada pra lidar com várias tarefas ao mesmo tempo. Por exemplo, o renomado neurocientista Earl Miller, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, acredita que só podemos ter um ou dois pensamentos de cada vez. Em resumo, o multitasking nos traz mais prejuízos do que benefícios.

A começar pela produtividade. Ao contrário do que parece, alternar entre tarefas pode tornar tudo mais lento. Estudos como este publicado no Journal of Experimental Psychology mostram que, ao mudar de atividade, o cérebro precisa de um tempo pra se reajustar, retomar o raciocínio e lembrar as “regras” de cada função. O multitasking também nos impede de executar certas ações no “piloto automático”, o que nos poupa alguns recursos mentais.

Pane no sistema

Pesquisas indicam que o multitasking tende a reconfigurar nossas conexões cerebrais, reduzindo a capacidade de manter o foco por longos períodos e, assim, de prestar atenção. Isso pode resultar em vários problemas, como um aumento na quantidade de erros e acidentes. Um estudo de 2018, por exemplo, descobriu que adultos são mais propensos a cometer deslizes ao dirigir se estiverem realizando outras tarefas ao mesmo tempo, como ajustar o Waze ou checar o WhatsApp.

A falta de atenção também prejudica a memória, já que é preciso estar verdadeiramente presente pra que as experiências se fixem em nossa mente. Além disso, ao pular de uma tarefa pra outra sem pausa, nosso cérebro não tem tempo de consolidar o que aprendeu ou de alcançar pensamentos mais profundos. O multitasking também reduz a criatividade, que é mais estimulada quando o nosso cérebro está livre de exigências complexas.

Lidar com tarefas simultâneas também pode sobrecarregar o sistema nervoso e gerar uma sensação de urgência constante, o que contribui pro aumento da ansiedade. Tudo isso, a médio prazo, abre caminho ao esgotamento mental e ao burnout.

Monotasking — e seus benefícios

Em um mundo que valoriza o multitasking como uma habilidade desejável, focar em uma atividade por vez (monotasking) é cada vez mais difícil. Na correria do cotidiano também sentimos que, em muitos momentos, não temos outra opção além de continuar equilibrando todos os aspectos de nossas vidas multitarefas. Mas poderíamos, pelo menos, parar de romantizar esse processo, reconhecer as suas consequências e evitar essa prática quando possível.

Um bom primeiro passo pra quem deseja adotar o monotasking em cada vez mais momentos é limitar as distrações, começando pelos momentos de lazer — que tal largar o celular enquanto assiste séries? Já no trabalho, isso pode significar tanto procurar um local mais silencioso pra produzir quanto desligar as notificações do celular. Outra dica, encontrada em uma matéria da VeryWell Mynd, é tentar dedicar 20 minutos de atenção plena a uma única tarefa por dia. Vale também agendar horários específicos pra checar e-mails, mensagens e outras atividades que costumam nos distrair.

Sim, o monotasking também exige esforço, pelo menos no início. Mas esse talvez seja um preço necessário pra perceber o que está em excesso na sua vida, ou o que consome mais tempo do que deveria. Quem sabe essa mudança não traga outras ainda mais significativas? Seu cérebro agradece.

Saiba mais:

· O artigo Multitasking: Switching costs, da American Psychological Association.
· O episódio Cultura do déficit de atenção, do podcast Vibes em Análise.
· O livro A mente organizada (2015), do neurocientista e psicólogo David Levitin.
· O TED Multitasking is the Mindkiller, da autora e professora Lindsay Blooms.

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