

Você passa o dia todo riscando itens da sua checklist, dando conta das demandas pessoais, da casa e, principalmente, do trabalho: de reuniões importantes até as que deveriam ser um e-mail, passando por prazos apertados e aquela chuva de mensagens no Slack. Apesar da correria, atravessa tudo isso sem perder a linha. Mas é só colocar o pé em casa — ou simplesmente fechar o computador — pra despertar uma avalanche de emoções: cansaço, tristeza, raiva, tudo misturado. E aí vem aquela vontade incontrolável de chorar, gritar ou se esconder debaixo do edredom. Aqui, a gente fala mais sobre esse fenômeno, que vem sendo chamado de “colapso de contenção pós-trabalho”.
Nos pequenos
Desabar ao chegar em casa é uma atitude bem comum entre as crianças. Ao longo do dia, elas podem esgotar suas reservas de energia emocional e física controlando seus impulsos em ambientes escolares regidos por regras e protocolos. Mas, ao chegarem em um local onde se sentem seguras, tudo que ficou acumulado começa a extravasar. Choros, gritos e até ataques de raiva são a maneira que elas encontram pra descarregar a frustração e o cansaço.
Foi a especialista em parentalidade Andrea Loewen Nair que deu nome a esse que, apesar de não ser um diagnóstico formal, é um comportamento observado com frequência: “colapso de contenção pós-escola”, em tradução livre do inglês. Aliás, se você tem filhos ou participa ativamente da criação de uma criança, a dica é tentar manter a calma nesses momentos. Pesquisas como essa publicada no Journal of Clinical Child Psychology mostram que uma resposta tranquila pode ajudar a reduzir a frequência desses episódios, enquanto reações agressivas tendem a piorar o comportamento ao longo do tempo.
Nos adultos
Recentemente, vários especialistas perceberam que esse comportamento não é exclusivo das crianças. Kathryn Humphreys, professora associada de psicologia e desenvolvimento humano na Universidade Vanderbilt, nos Estados Unidos, explicou ao The New York Times que, embora seja mais comum que adultos fiquem irritados ou tensos — o que muitas vezes resulta em discussões com familiares —, também não é raro desabar no fim do dia. Ainda mais no contexto atual, no qual a cobrança por excelência parece ter se intensificado, seja por conta da cultura de produtividade a todo custo, seja pela precarização de vários empregos.

O “colapso de contenção pós-trabalho” pode afetar qualquer pessoa, mas aquelas que estão em funções que envolvem stress, cobrança excessiva, ambientes tóxicos e outras condições degradantes tendem a passar por isso com mais frequência. O peso do trabalho do cuidado — com os filhos, a casa ou familiares idosos — também entra nessa equação.
Será que eu tenho?
Além da irritação, o colapso de contenção pós-trabalho pode deixar as pessoas mais frágeis e sensíveis. Quem nunca, após um dia extremamente cansativo, se pegou chorando por algum motivo considerado bobo? Esse estado emocional também leva a reações impulsivas, o que costuma gerar mal-estar e conflitos nos relacionamentos.
Outro sintoma comum é o esgotamento físico e emocional — aquela sensação de que, após terminar o trabalho, não sobra energia nem mesmo pra atividades que normalmente são prazerosas, como assistir a um filme ou praticar exercícios. Além disso, a irritação acumulada pode se manifestar fisicamente, trazendo dores de cabeça, desconfortos nas costas e até problemas digestivos.
Todos esses sintomas são frequentemente associados à ansiedade, à depressão e a outros transtornos, o que pode gerar confusão no diagnóstico. No entanto, quando eles se manifestam de forma regular na mesma janela de tempo — no fim do expediente —, é bem provável que estejam diretamente relacionados ao trabalho. Segundo o Relatório de bem-estar 2022 da Betterfly, 54% dos trabalhadores relata sentir exaustão, enquanto 50% se queixa de sobrecarga.
Pode ajudar
Percebeu que o choro ou a irritabilidade no fim do dia são uma consequência da quantidade de trabalho? Primeiro, veja se é possível delegar algumas tarefas, pedir ajuda a um colega ou até utilizar a Inteligência Artificial pra agilizar alguma demanda. Caso essas medidas não sejam viáveis ou suficientes, vale a pena refletir sobre a possibilidade de conversar com seu chefe ou gestores sobre tudo que você tem feito.
Uma estratégia eficaz pra evitar o colapso de contenção pós-trabalho é incorporar pequenas pausas durante o dia, especialmente quando você perceber que o stress está aumentando. Uma revisão de estudos publicada em 2022 concluiu que pausas curtas são fundamentais pra reduzir a fadiga mental e promover o bem-estar dos trabalhadores. Durante esses intervalos, você pode se levantar pra pegar uma água gelada, se alongar ou bater um papo rápido com um colega. Se você trabalha em casa, aproveite pra aliar esses momentos a outras boas práticas, como tomar sol e passar uns minutinhos na rede de pernas pro ar.
As fronteiras entre tempo de trabalho e vida pessoal costumam ser mais nebulosas pra quem trabalha em casa. Já quem precisa ir ao escritório ainda tem o stress adicional dos deslocamentos. Em ambos os casos, é importante adotar um ritual de passagem pra deixar o mood do trabalho e entrar em uma vibe de relaxamento: ouvir música, ler um pouco e passear com o cachorro são ótimas maneiras de sinalizar pro corpo e pra mente que é hora de desacelerar. Kathryn Humphreys também sugere prestar atenção nas necessidades do corpo. Pergunte a si mesmo: “Estou com fome? Quero deitar uns minutinhos? Sinto alguma dor?”. Parece simples demais, mas nos ajuda a ter mais consciência de como nos sentimos ao longo do dia.

Saiba mais:
· A matéria “O Brasil enfrenta uma epidemia de 'burnout'?”, da BBC News Brasil, que traz dados e informações importantes sobre o assunto.
· O episódio Sociedade do cansaço e o superego arcaico, do podcast Psicologia de Boteco, de Alexandre Patricio de Almeida.
· O vídeo Qual é a importância do choro?, publicado no canal de YouTube do psicanalista Christian Dunker.
· O livro Emocionário: Diga o que você sente (2018), de Cristina Núñez Pereira e Rafael R. Valcárcel, pros pequenos.
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texto: Dandara Fonseca | edição: Adriana Setti | arte: Eduardo Gayotto
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